Leituras de 2017


Entrei janeiro na maior animação - as férias foram tão boas que o ano parecia insuperável. No mês seguinte, quebrei o pé (Chico triste), o que me levou a ler muitos livrinhos em poucas semanas (Chico feliz), enquanto todo mundo me paparicava (Chico gargalhando) e eu me sentia cada vez mais inútil (Chico deprê). Respeitar o tempo do corpo foi uma lição agridoce, portanto. Hoje tenho um pé 100% funcional novamente (98% funcional em exercícios de yoga, mas sigo tentando), com uma cicatriz fade out style para me lembrar que nunca se deve abrir o porta-malas do carro em ruas enladeiradas se nele houver um amplificador de guitarra de 30 kg etc e tal. 

Em 2017 li mulheres, muitas. Seus textos tornaram meus dias muito mais largos e geraram reflexões sobre minha própria escrita, e especialmente sobre meu lugar no mundo - nada é simples. Atwood, Chimamanda, Ferrante, Morrison, Munro, Lispector, Ana Maria Gonçalves, Valéria Rezende, Lucia Berlin - seus olhares, suas pesquisas, o talento incrível de cada uma delas, tudo fez com que fossem companheiras valiosas ao longo dos meses. 

Entre escritores e escritoras, queria recomendar algumas leituras que me fizeram bem em 2017. Nem que seja para vocês terem uma lista a mais para ignorar.

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Um livro tocante: The bluest eye, da estadunidense Toni Morrison. Difícil, duro, absolutamente comovente. Daqueles livros com potencial de mudar nosso olhar. Inesquecível.

Um livro assustador: O conto da aia, da canadense Margarte Atwood. Eu queria dizer que foi o livro mais bacana que li este ano; mas, diante do mundo atual, é o mais assustador mesmo. Aliás, a série inspirada no livro foi, para mim, a melhor do ano.

Um livro que já deveria ter lido há muito tempo e que bom que finalmente li: Ilíada, de Homero. Para roer as unhas enquanto Heitor se prepara para enfrentar Aquiles. E morrer um pouquinho no final da batalha. É verdade que, entre poemões épicos, prefiro a Eneida, mas um pote até aqui de mágoa grega é algo realmente delicioso de se ler. 

Um não-ficção antenado: Homo deus, do israelense Yuval N. Harari. Para uma reflexão bem articulada sobre a nossa era da religião dos dados.

Uma biografia: A vista de Castle Rock, da canadense Alice Munro. O levantamento feio por Munro sobre seus antepassados escoceses é admirável. As lacunas são preenchidas com a imaginação afiada da autora dos contos do ótimo Vida Querida (dela, também li este ano Too much happiness, excelente - para ser lido pelos que sobreviverem ao golpe no peito que é o primeiro conto desse livro).

Ciência, essa delícia: Sete breve lições de física, do italiano Carlo Rovelli. Para suspirar.

Um bom livro de contos: num ano em que li livros da Alice Munro, a escolha é meio óbvia. Mas vou deixar a Munro como default e indicar outro: os contos de ficção científica do estadunidense Ted Chiang em História de sua vida e outros contos. Destaque para o conto que dá título ao livro e originou o filme A Chegada, mas todos os outros textos do livro têm sacadas geniais. (No momento estou lendo Manual da Faxineira, de Lucia Berlin, indicado por muita gente na minha TL como melhor livro do ano. São contos curtos de inspiração autobiográfica. A ver se pula para o topo da minha lista de favoritos do ano.)

Um clássico legal: estou inventando, claro. Já citei Ilíada. Mas essa lista é tão séria quanto o governo atual, então relevem: O processo, do menino Kafka. Para rir de nervoso - ou chorar mesmo.

Um livro que vai morar em meu coração: categoria inventada para abraçar e acariciar o livro que eu não queria que tivesse acabado: Frantumaglia, da italiana Elena Ferrante - seja ela quem for. Para admirar a pessoa por trás da série napolitana, a criadora de Lenu e Lila, as personagens femininas que a gente mais ama amar/odiar - porque tão, tão bem construídas. Em 2017 encerrei a leitura da badalada tetralogia de Ferrante. Indico com força, mas acho que nem precisa.

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Pode burlar e indicar um filme que está fresquinho na memória? Pois. Esta semana fomos ao cinema ver Com amor, Van Gogh. Se você não se liga na obra do holandês mais melancólico da história dos holandeses melancólicos, o filme já seduz pela técnica inusitada: foi pintado a óleo, quadro a quadro, por mais de 100 artistas. O resultado é de encher os olhos. Se você curte a obra de Van Gogh e conhece a história de sua vida reconstruída a partir das cartas enviadas ao irmão Theo, então o filme é um banquete. À medida que os últimos dias de vida do artista são reconstruídos, vários quadros pintados por ele são reproduzidos como cenário (ou como personagens). Visualmente lindo, o filme é também emocionante. Leve um lencinho. (E leia Cartas a Theo.)

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E vocês? Qual o livro mais bacana lido em 2017?

3 comentários:

K disse...

TIRZA do holandes Arnon Grunberg e MINHA LUTA, uma hexalogia do noruegues Karl Ove Knausgard

Rita disse...

K, ontem recebi meu exemplar de Contos Holandeses - coincidência bem hoje você me indicar um autor holandês. :-) Não conheço as obras que você mencionou, vou fuçar a rede. Obrigada!

Anônimo disse...

Eu terminei a trilogia O Século do Ken Follett em 2017... espetacular! Li O Diário de Anne Frank em 2017, mas sobre este livro eu não sou capaz de fazer comentários.. sensação única quando terminei. Ana Carolina

 
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