Para não conhecer


Eu indicaria Frantumaglia - Os caminhos de uma escritora (Ed. Intrínseca, tradução de Marcello Lino) a qualquer apreciador de obras epistolares. Aos leitores da obra de Ferrante, em particular, eu recomendaria a leitura com um tanto mais de ênfase. Não para "descobrir" o que quer que se esconda por trás do pseudônimo Ferrante, antes para entender os motivos de seu uso e para reconhecer nas escolhas de Ferrante uma substância que parece rarefeita em nossos tempos, aquela que faz da arte protagonista, enquanto faz das celebridades manchas imprecisas que se desbotam no esforço de evidenciar o que realmente deveria brilhar em um livro, a escrita. Frantumaglia traz o relato insistente e radical de uma autora que renega a celebração-espetáculo em torno de seu nome para que sua obra fale diretamente aos leitores. Não aos críticos, não às premiações, mas aos leitores, razão de ser da literatura. Naturalmente, após o imenso sucesso da Série Napolitana, o carimbo "Ferrante" salta nas capas. Ainda assim, não passa de um nome. Nada ou quase nada sabemos sobre a vida da escritora que insiste em suas entrevistas, sempre concedidas por e-mail: minha vida absolutamente mundana nada tem a acrescentar às minhas obras. Meus livros falam por si, e os leitores se satisfazem assim; a curiosidade em torno de minha identidade pessoal vem sobretudo de uma imprensa viciada em nomes, rostos, personalidades, não dos leitores. Não poderia concordar mais: para quem leu e apreciou a Série Napolitana e os outros três romances que Ferrante publicou até aqui, os livros são. E isso basta. 

Metade de Frantumaglia reúne cartas entre Ferrante e seus editores, além de entrevistas, sempre concedidas por e-mail, sobre seus três primeiros romances publicados entre 1992 e 2006 (no Brasil receberam os títulos Um amor incômodo, Dias de abandono e A filha perdida). A segunda metade do livro, no mesmo formato, se volta para a recepção da tetralogia que se inicia com A amiga genial. As reflexões de Ferrante nas entrevistas vão desde o processo criativo na feitura de suas obras aos temas abordados nelas, passando pela posição da mulher escritora no mundo e personagens femininas, pelo comportamento da mídia especializada em divulgar obras literárias e pela literatura em si. Esta última, sempre vista não apenas como um conjunto de obras atribuídas a esse ou àquele escritor, mas antes como produções artísticas cujos valores antecedem ou ultrapassam as personalidades a que estão vinculadas. Um exercício muito bem vindo nesta era das selfies, eu diria. Especialmente valiosas para mim são as ponderações em torno dos espaços ocupados pelas mulheres no mundo; a lucidez de Ferrante em torno do tema já vale o esforço dos editores em reunir as correspondências que compõem Frantumaglia.

Não duvido que muitos que abrem as páginas de Frantumaglia o façam buscando um identidade por trás de um nome. Ao terminar a leitura, porém, aposto que a sensação é uma só: não importa. 


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