O piano flutuante


Uma segunda-feira que começou com rinite e a correria costumeira. Em algum momento da manhã, uma espiada no Face: o pianista polonês Grzegorz Niemczuk faria um recital às 20h, no auditório da UDESC. O dia seguiu com seus atropelamentos e camuflou a informação no fundo da mente. Uma pequena surpresa aqui, um breve engarrafamento ali, um almoço corrido, mais do mesmo no trabalho. No final do dia, jantar com a tagarelice usual, o dia passado a limpo, uma cozinha arrumada a oito mãos, roupas no varal, mais roupa na máquina, vou tomar banho e... que horas são? 19h40. Putz, o recital. Nem sabíamos se ainda daria tempo, mas resolvemos arriscar. Chegamos ao pequeno auditório da UDESC a cinco minutos do início, havia alguns lugares ainda disponíveis. Ieba!, como diria a Amanda.

Sabíamos que Chopin estava no repertório, mas não esperávamos ouvir algumas de nossas peças favoritas naquele pequeno (e quente) auditório. Foi como um presente. Ulisses ouviu sua valsa favorita, eu poderia ter ido embora depois do segundo noturno e já estaria feliz. Antes de cada peça, Niemczuk, a simpatia em forma de pianista, com o auxílio de um intérprete, apresentava ao público de cerca de cem sortudos o contexto de cada obra, contava um pouco da história de seu conterrâneo mais ilustre. Além de viajarmos em melodias impossíveis, ainda podíamos imaginar o jovem Chopin apaixonado, saudoso de sua terra, doente ou indignado, sempre genial, a partir das anedotas contadas por Niemczuk. Depois do breve silêncio que seguia cada relato, ele se reencontrava com o piano e quando suas mãos começavam a pintura, suspendíamos a respiração. Em certo momento, enquanto executava o terceiro movimento de uma sonata que disse ser sua favorita, parecia flutuar pelo espaço, longe de tudo, quebrando com sei lá que feitiço o silêncio lá de cima. Niemczuk toca com o corpo inteiro, sua interpretação é uma alegria.

Por causa do ruído, o ar condicionado foi desligado. O calor tomou conta da sala pequena e lotada. Nas peças finais, víamos as gotas de suor que saltavam da testa do pianista, a plateia prendia os cabelos, suava em bicas. Algumas cadeiras rangiam e não faltaram os teimosos que insistiam em filmar com seus celulares. Mas eu vou focar no copo meio cheio. Um recital com mais de duas horas de duração que caiu no meu colo, gratuito, com canções do meu compositor favorito executadas com primor - e paixão. Vou reclamar não. (Niemczuk encerrou com duas peças de Liszt pra provar que tem 80 dedos em cada mão. Um deleite.)

***

Numa segunda-feira tão banal, quem diria às seis da manhã que ela terminaria com um moço à deriva no espaço com seu piano? Penso numa canção pop do Herbert Viana que fala que a lua merecia a visita não de militares, mas de bailarinos. Merecia o piano de Niemczuk também.

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