Hugs in green


Borboletas apressadíssimas agitam suas asas pretas e amarelas nas primeiras horas da manhã; pra completar o baile, o vento balança os galhos da buganvília da casa vizinha (que generosamente invade minha garagem) e a foto fica assim, horrível, toda tremida. Mas elas são idênticas às borboletas com quem eu conversava no recreio da escola muitos anos atrás e por isso insisto na foto.



Minha amoreira tem amoras fora da estação. Espero que amadureçam negras e suculentas, apesar do atraso.

Roubei essas violetas de uma amiga. São cacheadas e abundantes, do jeitinho que eu gosto. 
A mesma vizinha que me empresta a buganvília me dá maracujás. O pé desbravou a barreira de palmeiras e invadiu meu quintal, mas não estou pensando em reclamar. 



Essas não dão flores ou frutos, mas né, nem faz falta.

Já a cebolinha cresce tão rápido na hortinha que não damos conta de cortar. E floresce lindamente.

Dracenas no quintal pensam que são girafas. 



Sintam o cheirinho.

Pensamos em retirar a armação do toldo para limpeza e manutenção, mas como desfazer esse abraço?
Promessa é dívida. 



Pinta, sol.

Quando nos mudamos, dez anos atrás, esse ipê era não mais do que um graveto com meia dúzia de folhas. Hoje me assusta nos dias de ventania mais forte.
***

Para além do calendário ou dos movimentos do planeta, a primavera pode ser um estado de espírito.

Nice rhytm, babe


Recentemente precisamos redobrar os cuidados com nossa casa. Temos pequenos ajustes a fazer, recantos a consertar, limpezas extras. Além disso, a rotina nos sobrecarregou um pouco e precisamos assumir tarefas que normalmente terceirizamos. E ainda que no meio desse pequeno furacão diário de tarefas acumuladas com trabalho fora de casa tenhamos nos sentido um pouco mais cansados do que o normal, há nisso algo muito bom, uma quase música: o ritmo da parceria com nossos filhos nos embala muito bem. Funcionamos em bloco e sentimos prazer em cuidar de nosso esconderijo, nossa toca. 

Nos pequenos acontecimentos camuflados nas rotinas, é bom me sentir ao seu lado, celebro isso todos os dias. Ainda assim, hoje cabe mais. Dia de seu aniversário é, afinal, dia de fazer dançar a alma. E vamos assim na correria dessa rotina maluca, entre uma máquina de louça e um tanto de roupa no varal, um engarrafamento no caminho da escola e uma urgência ou outra no trabalho, dançando nossa caminhada. Às vezes ela é tão agitada que mal vemos a semana passar. Em outros momentos, olhamos ao redor com vagar e saboreamos a imensa sorte de termos nos encontrado. Acho tão bonito. Amo você. Feliz aniversário.

Para não conhecer


Eu indicaria Frantumaglia - Os caminhos de uma escritora (Ed. Intrínseca, tradução de Marcello Lino) a qualquer apreciador de obras epistolares. Aos leitores da obra de Ferrante, em particular, eu recomendaria a leitura com um tanto mais de ênfase. Não para "descobrir" o que quer que se esconda por trás do pseudônimo Ferrante, antes para entender os motivos de seu uso e para reconhecer nas escolhas de Ferrante uma substância que parece rarefeita em nossos tempos, aquela que faz da arte protagonista, enquanto faz das celebridades manchas imprecisas que se desbotam no esforço de evidenciar o que realmente deveria brilhar em um livro, a escrita. Frantumaglia traz o relato insistente e radical de uma autora que renega a celebração-espetáculo em torno de seu nome para que sua obra fale diretamente aos leitores. Não aos críticos, não às premiações, mas aos leitores, razão de ser da literatura. Naturalmente, após o imenso sucesso da Série Napolitana, o carimbo "Ferrante" salta nas capas. Ainda assim, não passa de um nome. Nada ou quase nada sabemos sobre a vida da escritora que insiste em suas entrevistas, sempre concedidas por e-mail: minha vida absolutamente mundana nada tem a acrescentar às minhas obras. Meus livros falam por si, e os leitores se satisfazem assim; a curiosidade em torno de minha identidade pessoal vem sobretudo de uma imprensa viciada em nomes, rostos, personalidades, não dos leitores. Não poderia concordar mais: para quem leu e apreciou a Série Napolitana e os outros três romances que Ferrante publicou até aqui, os livros são. E isso basta. 

Metade de Frantumaglia reúne cartas entre Ferrante e seus editores, além de entrevistas, sempre concedidas por e-mail, sobre seus três primeiros romances publicados entre 1992 e 2006 (no Brasil receberam os títulos Um amor incômodo, Dias de abandono e A filha perdida). A segunda metade do livro, no mesmo formato, se volta para a recepção da tetralogia que se inicia com A amiga genial. As reflexões de Ferrante nas entrevistas vão desde o processo criativo na feitura de suas obras aos temas abordados nelas, passando pela posição da mulher escritora no mundo e personagens femininas, pelo comportamento da mídia especializada em divulgar obras literárias e pela literatura em si. Esta última, sempre vista não apenas como um conjunto de obras atribuídas a esse ou àquele escritor, mas antes como produções artísticas cujos valores antecedem ou ultrapassam as personalidades a que estão vinculadas. Um exercício muito bem vindo nesta era das selfies, eu diria. Especialmente valiosas para mim são as ponderações em torno dos espaços ocupados pelas mulheres no mundo; a lucidez de Ferrante em torno do tema já vale o esforço dos editores em reunir as correspondências que compõem Frantumaglia.

Não duvido que muitos que abrem as páginas de Frantumaglia o façam buscando um identidade por trás de um nome. Ao terminar a leitura, porém, aposto que a sensação é uma só: não importa. 


Big little things


O marcador deste post é #vidinha, a tag com que rotulo os posts que falam de miudezas. Mas deveria ser #vidão, já que na verdade é nos cantinhos da casa, das letras, das conversas onde normalmente encontro os maiores sentidos, onde cabem todos os aumentativos.

*** 



Meu vaso mais valioso: pintado pelo Arthur, aos dois anos.

Um vaso que não combina com nada e que, por isso, cada dia está num lugar diferente. Vai ganhar flores pequeninas em breve, prometo. 

A estante da Amanda, onde eu poderia morar. Observem como a corujinha se esforça para recolher a sujeira que a planta espalhou.

Um outro canto da mesma estante. O livro de origamis é o queridinho do momento. Há sapos de papel pela casa.

Um filtro de pesadelos, segundo ela me contou.


No quarto do Arthur, o Spiderman aguarda o salto do Peter Pan. Faz tempo.

Uma outra versão de Peter Pan, mas essa cresceu. Restam fragmentos de infância no quarto do quase adolescente.

Mulheres que amo e que são luz.
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"Nossos filhos acertarão as contas, como nós, com os pequenos e grandes abalos que irão subverter o que hoje lhes parece estável e definitivo. E aprenderão à própria custa, como nós, que nada, no bem e no mal, nos é dado para sempre e que nossos direitos fundamentais devem ser continuamente reconquistados." - 
Elena Ferrante, em Frantumaglia.

O piano flutuante


Uma segunda-feira que começou com rinite e a correria costumeira. Em algum momento da manhã, uma espiada no Face: o pianista polonês Grzegorz Niemczuk faria um recital às 20h, no auditório da UDESC. O dia seguiu com seus atropelamentos e camuflou a informação no fundo da mente. Uma pequena surpresa aqui, um breve engarrafamento ali, um almoço corrido, mais do mesmo no trabalho. No final do dia, jantar com a tagarelice usual, o dia passado a limpo, uma cozinha arrumada a oito mãos, roupas no varal, mais roupa na máquina, vou tomar banho e... que horas são? 19h40. Putz, o recital. Nem sabíamos se ainda daria tempo, mas resolvemos arriscar. Chegamos ao pequeno auditório da UDESC a cinco minutos do início, havia alguns lugares ainda disponíveis. Ieba!, como diria a Amanda.

Sabíamos que Chopin estava no repertório, mas não esperávamos ouvir algumas de nossas peças favoritas naquele pequeno (e quente) auditório. Foi como um presente. Ulisses ouviu sua valsa favorita, eu poderia ter ido embora depois do segundo noturno e já estaria feliz. Antes de cada peça, Niemczuk, a simpatia em forma de pianista, com o auxílio de um intérprete, apresentava ao público de cerca de cem sortudos o contexto de cada obra, contava um pouco da história de seu conterrâneo mais ilustre. Além de viajarmos em melodias impossíveis, ainda podíamos imaginar o jovem Chopin apaixonado, saudoso de sua terra, doente ou indignado, sempre genial, a partir das anedotas contadas por Niemczuk. Depois do breve silêncio que seguia cada relato, ele se reencontrava com o piano e quando suas mãos começavam a pintura, suspendíamos a respiração. Em certo momento, enquanto executava o terceiro movimento de uma sonata que disse ser sua favorita, parecia flutuar pelo espaço, longe de tudo, quebrando com sei lá que feitiço o silêncio lá de cima. Niemczuk toca com o corpo inteiro, sua interpretação é uma alegria.

Por causa do ruído, o ar condicionado foi desligado. O calor tomou conta da sala pequena e lotada. Nas peças finais, víamos as gotas de suor que saltavam da testa do pianista, a plateia prendia os cabelos, suava em bicas. Algumas cadeiras rangiam e não faltaram os teimosos que insistiam em filmar com seus celulares. Mas eu vou focar no copo meio cheio. Um recital com mais de duas horas de duração que caiu no meu colo, gratuito, com canções do meu compositor favorito executadas com primor - e paixão. Vou reclamar não. (Niemczuk encerrou com duas peças de Liszt pra provar que tem 80 dedos em cada mão. Um deleite.)

***

Numa segunda-feira tão banal, quem diria às seis da manhã que ela terminaria com um moço à deriva no espaço com seu piano? Penso numa canção pop do Herbert Viana que fala que a lua merecia a visita não de militares, mas de bailarinos. Merecia o piano de Niemczuk também.

Laços



Um casamento em ruínas, dois filhos, um gato, uma amante; os avessos de um passado revelado em documentos, fotografias e objetos espalhados pelo chão de uma casa invadida e revirada; e um texto fluente para ser lido em único fôlego. Esses são alguns dos elementos de Laços, de Domenico Starnone (Ed. Todavia, tradução de Maurício Santana Dias). É verdade que esse pequeno livro, de pouco mais de 140 páginas, remete os leitores de Elena Ferrante ao enredo de Dias de Abandono, porém com perspectivas adicionais: em Laços lemos as cartas, ouvimos os filhos, os ângulos se multiplicam. Em contrapartida, talvez Laços não tenha a força de Dias de Abandono, seus personagens não se desnudam como a inesquecível Olga; ainda assim, o texto traz a angústia dos que percebem que os papéis que assumimos nos moldam e limitam (inevitavelmente?), e apresenta um desenho da viagem vertiginosa desencadeada por essa percepção. 

Da poesia que ganha vida


"Coube a mim sofrer e lutar, amar e cantar; couberam-me na partilha do mundo o triunfo e a derrota; provei o gosto do pão e do sangue. Que mais quer um poeta? E todas as alternativas, desde o pranto até os beijos, desde a solidão até o povo, perduram em minha poesia, atuam nela porque vivi para minha poesia e minha poesia sustentou minhas lutas. E se muitos prêmios alcancei, prêmios fugazes como mariposas de pólen fugitivo, alcancei um prêmio maior, um prêmio que muitos desdenham, mas que é na realidade inatingível para muitos. Cheguei, através de uma dura lição de estética e de busca, através dos labirintos da palavra escrita, a ser poeta de meu povo. Meu prêmio é esse, não os livros e os poemas traduzidos ou os livros escritos para descrever ou dissecar minhas palavras. Meu prêmio é esse momento grave de minha vida quando no fundo da mina de carvão de Lota, sob o sol a pino da salitreira abrasada, do socavão a pique subiu um homem como se ascendesse do inferno, com a cara transformada pelo trabalho terrível, com os olhos avermelhados pelo pó e, estendendo-me a mão calejada, essa mão que leva o mapa do pampa em suas calosidades e em suas rugas, disse-me com olhos brilhantes: 'Conhecia-te há muito tempo, irmão'. Esse é o laurel de minha poesia, o agulheiro no pampa terrível, de onde sai um trabalhador a quem o vento e a noite e as estrelas do Chile têm dito muitas vezes: 'Não estás só; há um poeta que pensa em teu sofrimento'."
Pablo Neruda, 
em Confesso que vivi (Ed. Bertrand Brasil, tradução de Olga Savary)

Eu ia escrever qualquer coisa sobre a biografia de Neruda, cujas últimas páginas foram escritas poucos dias antes de sua morte, ainda no calor do assassinato de Allende, em 1973. Porém reli o texto da Tina e optei por indicá-lo. Está ali uma ótima resenha desse livro cheio de histórias engraçadas e tristes, que narram aventuras e enormes decepções políticas, que fala da utopia e da tragédia diária de nosso mundo - entre casos e anedotas envolvendo grandes personagens da literatura e da política do século XX.  Espiem láNo livro vi o que talvez seja uma descrição honesta de um Neruda que errou e acertou; não é um livro para criar um mito a ser idolatrado, mas para se conhecer um homem e sua história de altos (louváveis) e baixos (alguns indigestos para mim), como é a história de todos nós. (Acima, em destaque, meu trecho favorito.)


Camping gourmet - e mesmo assim gostei, não tenho salvação


Quase pronto.

Um camping cravado no meio de um quarteirão urbano. Em vez de uma entradinha simpática, uma recepção onde se faz o "check-in" e podemos ver os monitores de segurança. Um camping de Lego: bonitinho, quadradinho, arrumadinho, organizadinho, com placas proibindo bicicleta e cachorro. Na hora de escolher o lugar onde armar a barraca, nada de "ao lado do bambuzal", "perto daquela árvore" ou "mais pra lá", mas plataformas numeradas. Pra quem já acampou num lugar onde gatos de rua passeavam por cima da pia da churrasqueira, acampar onde animais de estimação são proibidos seria como acampar num ambiente esterilizado. E antipático. 

Uma das coisas que me fazem gostar de acampar é a sensação de escapada. Por alguns dias, que sempre passam rápido demais, ficam para trás trânsito, relógio, tretas, noticiário deprimente. Nesses dias, os problemas possíveis são mosquitos, nuvens carregadas ou joelho de criança ralado. É como entrar numa cápsula. Ainda que meu camping style (hahaha, me aguentem) não seja nada roots, afinal nunca acampei no meio do mato sem banheiro, nem nunca precisei pescar o almoço, a verdade é que quanto mais verde, melhor; quanto mais longe de construções que me lembrem cidades, melhor. Qualquer lugar que garanta um mínimo de sensação de isolamento já me faz feliz. 

Eis que pegamos a estrada rumo a uma região cheia de praias badaladas de Santa Catarina, um lugar impensável no auge da temporada de verão. Assim que cheguei ao destino escolhido para o feriado senti vontade de sair correndo, descobri que tinha me dirigido a um acampamento gourmet. Mas quem tá na chuva... Armamos a barraca, fizemos do limão uma caipirinha e tratamos de curtir o que de melhor o camping tinha: os arredores de praia, costão, trilhas. A ótima praia quase vazia estava ao alcance de poucos passos; entre ficar reclamando e ir curtir, optamos pelo óbvio. 

Quanto ao camping propriamente dito, acabamos nos ambientando. A passarada e o ambiente arborizado ajudaram. Quando a chuva veio, a ótima área de churrasqueiras coletivas veio a calhar. Reclamei do ambiente metido, mas adorei o chuveiro quente e os banheiros excelentes. A lua cheia nos visitou todas as noites, que bom que levamos a luneta. 

Saí de lá reclamando de várias coisas. Ainda assim, mal dobrei a esquina e já estava me perguntando quando acamparei novamente. Não tenho remédio, nem acampamento gourmet me cura.

Nova tralha, digo, novo equipamento indispensável.

Inspeção matutina da barraca.
Campistas profissionais.
A praia que me fez perdoar a gourmetização do camping.

Um menino e uma ilha (só sei o nome do menino).

Amanda virando sereia.
A subida da trilha do Morro do Macaco tem trechos com visual incrível.

No alto do Morro do Macaco, com o mundo lááá embaixo.


Dia nublado, fotos sem brilho, mas a gente curtiu mesmo assim - aliás, agradecemos o sol ter se escondido durante os cerca de 50 minutos em que subimos, subimos, subimos... É possível fazer a trilha em menos tempo, mas nosso grupo tinha crianças e nenhuma pressa.

Mar de baía, mar aberto, um espelho do outro.


Moradores do lugar.
Estrelinhas de fim de tarde.

 
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