Da poesia que ganha vida


"Coube a mim sofrer e lutar, amar e cantar; couberam-me na partilha do mundo o triunfo e a derrota; provei o gosto do pão e do sangue. Que mais quer um poeta? E todas as alternativas, desde o pranto até os beijos, desde a solidão até o povo, perduram em minha poesia, atuam nela porque vivi para minha poesia e minha poesia sustentou minhas lutas. E se muitos prêmios alcancei, prêmios fugazes como mariposas de pólen fugitivo, alcancei um prêmio maior, um prêmio que muitos desdenham, mas que é na realidade inatingível para muitos. Cheguei, através de uma dura lição de estética e de busca, através dos labirintos da palavra escrita, a ser poeta de meu povo. Meu prêmio é esse, não os livros e os poemas traduzidos ou os livros escritos para descrever ou dissecar minhas palavras. Meu prêmio é esse momento grave de minha vida quando no fundo da mina de carvão de Lota, sob o sol a pino da salitreira abrasada, do socavão a pique subiu um homem como se ascendesse do inferno, com a cara transformada pelo trabalho terrível, com os olhos avermelhados pelo pó e, estendendo-me a mão calejada, essa mão que leva o mapa do pampa em suas calosidades e em suas rugas, disse-me com olhos brilhantes: 'Conhecia-te há muito tempo, irmão'. Esse é o laurel de minha poesia, o agulheiro no pampa terrível, de onde sai um trabalhador a quem o vento e a noite e as estrelas do Chile têm dito muitas vezes: 'Não estás só; há um poeta que pensa em teu sofrimento'."
Pablo Neruda, 
em Confesso que vivi (Ed. Bertrand Brasil, tradução de Olga Savary)

Eu ia escrever qualquer coisa sobre a biografia de Neruda, cujas últimas páginas foram escritas poucos dias antes de sua morte, ainda no calor do assassinato de Allende, em 1973. Porém reli o texto da Tina e optei por indicá-lo. Está ali uma ótima resenha desse livro cheio de histórias engraçadas e tristes, que narram aventuras e enormes decepções políticas, que fala da utopia e da tragédia diária de nosso mundo - entre casos e anedotas envolvendo grandes personagens da literatura e da política do século XX.  Espiem láNo livro vi o que talvez seja uma descrição honesta de um Neruda que errou e acertou; não é um livro para criar um mito a ser idolatrado, mas para se conhecer um homem e sua história de altos (louváveis) e baixos (alguns indigestos para mim), como é a história de todos nós. (Acima, em destaque, meu trecho favorito.)


Camping gourmet - e mesmo assim gostei, não tenho salvação


Quase pronto.

Um camping cravado no meio de um quarteirão urbano. Em vez de uma entradinha simpática, uma recepção onde se faz o "check-in" e podemos ver os monitores de segurança. Um camping de Lego: bonitinho, quadradinho, arrumadinho, organizadinho, com placas proibindo bicicleta e cachorro. Na hora de escolher o lugar onde armar a barraca, nada de "ao lado do bambuzal", "perto daquela árvore" ou "mais pra lá", mas plataformas numeradas. Pra quem já acampou num lugar onde gatos de rua passeavam por cima da pia da churrasqueira, acampar onde animais de estimação são proibidos seria como acampar num ambiente esterilizado. E antipático. 

Uma das coisas que me fazem gostar de acampar é a sensação de escapada. Por alguns dias, que sempre passam rápido demais, ficam para trás trânsito, relógio, tretas, noticiário deprimente. Nesses dias, os problemas possíveis são mosquitos, nuvens carregadas ou joelho de criança ralado. É como entrar numa cápsula. Ainda que meu camping style (hahaha, me aguentem) não seja nada roots, afinal nunca acampei no meio do mato sem banheiro, nem nunca precisei pescar o almoço, a verdade é que quanto mais verde, melhor; quanto mais longe de construções que me lembrem cidades, melhor. Qualquer lugar que garanta um mínimo de sensação de isolamento já me faz feliz. 

Eis que pegamos a estrada rumo a uma região cheia de praias badaladas de Santa Catarina, um lugar impensável no auge da temporada de verão. Assim que cheguei ao destino escolhido para o feriado senti vontade de sair correndo, descobri que tinha me dirigido a um acampamento gourmet. Mas quem tá na chuva... Armamos a barraca, fizemos do limão uma caipirinha e tratamos de curtir o que de melhor o camping tinha: os arredores de praia, costão, trilhas. A ótima praia quase vazia estava ao alcance de poucos passos; entre ficar reclamando e ir curtir, optamos pelo óbvio. 

Quanto ao camping propriamente dito, acabamos nos ambientando. A passarada e o ambiente arborizado ajudaram. Quando a chuva veio, a ótima área de churrasqueiras coletivas veio a calhar. Reclamei do ambiente metido, mas adorei o chuveiro quente e os banheiros excelentes. A lua cheia nos visitou todas as noites, que bom que levamos a luneta. 

Saí de lá reclamando de várias coisas. Ainda assim, mal dobrei a esquina e já estava me perguntando quando acamparei novamente. Não tenho remédio, nem acampamento gourmet me cura.

Nova tralha, digo, novo equipamento indispensável.

Inspeção matutina da barraca.
Campistas profissionais.
A praia que me fez perdoar a gourmetização do camping.

Um menino e uma ilha (só sei o nome do menino).

Amanda virando sereia.
A subida da trilha do Morro do Macaco tem trechos com visual incrível.

No alto do Morro do Macaco, com o mundo lááá embaixo.


Dia nublado, fotos sem brilho, mas a gente curtiu mesmo assim - aliás, agradecemos o sol ter se escondido durante os cerca de 50 minutos em que subimos, subimos, subimos... É possível fazer a trilha em menos tempo, mas nosso grupo tinha crianças e nenhuma pressa.

Mar de baía, mar aberto, um espelho do outro.


Moradores do lugar.
Estrelinhas de fim de tarde.

 
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