As mulheres de Adichie



O último conto de No seu pescoço, da escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie (Cia das Letras, tradução de Julia Romeu), fala dos mundos diferentes em que viveram os membros de uma família ao longo de três gerações. Desde a infância da avó num clã rural no interior do país até a vida acadêmica da neta na Europa, menina criada pelo pai convertido ao cristianismo, o conto foi uma ótima escolha para encerrar esse livro-mosaico muito bem desenhado por Adichie. Imigrantes nigerianos nos Estados Unidos, parentes que ficaram, imigrantes que voltaram, a mãe que perde o filho por causa de um conflito absurdo, filhos de famílias em diáspora, a mulher acadêmica, a esposa em um casamento arranjado, o imigrante ilegal, o deslumbrado, o resistente, o convertido, a criança sozinha - cada personagem em No seu pescoço mostra um pedacinho da Nigéria no olhar de Adichie e um monte de pedacinhos da humanidade que trazemos em nós. No conto final, é como se cada um desses diferentes cenários rondasse a história de vida daquela família - o contato com o diferente, os conflitos que nascem daí, as reflexões sobre o lugar de cada um nesse mundo, temas que permeiam quase todos os contos.

Como nos romances que li da autora, encontrei outra vez personagens tão "vivos" que a empatia se apresenta imediatamente. Mais uma vez, as mulheres de Adichie têm aquele olhar aguçado para o mundo ao seu redor que as torna a um só tempo fortes e vulneráveis - forte pela sagacidade de quem vê além da superfície, vulnerável pelas revelações nem sempre palatáveis que essa mesma sagacidade traz à tona. Ainda que nem todos os contos tenham me tocado com a mesma intensidade, cada um deles vale pelo conforto com que Adichie parece escrevê-los. Não à toa suas personagens femininas são tão "sólidas": quem já teve a chance de ver uma palestra ou entrevista com a autora certamente percebe de onde as personagens herdam aquele olhar que as leva além. Segue minha admiração pela escritora, autora de bons romances (leiam Meio sol amarelo, se ainda não o fizeram) e de contos igualmente ricos.

2 comentários:

Daniela disse...

LI Meio sol amarelo mês passado e amei. Agora estou no meio de Hibisco roxo e depois vou ler Americanah. Vou colocar mais esse na lista.

Rita disse...

Li Americanah e gostei, mas não se comparou ao tanto que gostei de Meio sol. Ainda não li Hibisco.
Bj.

 
©A Estrada Anil - Todos os direitos reservados. Layout por { float: left; }