Dos infinitos



Esta semana a comunidade científica ao redor do mundo se despediu de Cassini, a sonda que visitou Saturno e que nos presenteou com imagens incríveis do planeta dos anéis - e do espaço ao redor, suas luas e até de nossa própria casa vista de tão longe. Quando comentei sobre o fim da missão de Cassini e de seu mergulho na órbita do planeta imenso, você se lembrou da data - que havíamos associado à proximidade de seu aniversário: "é, vai ser dia 15!". Nos últimos meses olhamos juntas algumas imagens enviadas pela sonda, e seu encantamento é uma das coisas de que gosto muito em nossas conversas, a certeza de que você enxerga a mesma beleza que me maravilha toda vez. Compartilhamos o mesmo deslumbramento diante da possibilidade concreta de esticarmos nossa visão até as esquinas mais distantes do nosso sistema solar, olhar longe no nosso universo sem fim. Você acha incrível, e esses olhares distantes inspiram seus desejos de menina curiosa que quer ser astronauta.

Saturno, seus anéis e a casa da Amanda (imagem compartilhada por Neil deGrasse Tyson no Twitter).



Você sabe que pode mudar de ideia a qualquer momento, e quando fala nas outras possibilidades - chef de cozinha, veterinária, cientista num laboratório cheio de microscópios e tubos de ensaio - eu acho bonita sua percepção de que a vida está apenas começando e de que é um privilégio imenso poder alimentar sonhos tão legais.



Mas eu queria dizer outra coisa. 

Queria dizer de novo que não importa que caminho você siga em suas escolhas futuras, você é você. O que define Amanda não é a profissão que um dia escolherá, mas a pessoa que você está construindo a cada dia, o coração que você está alimentando cada vez que escolhe a verdade, o carinho, a gentileza. E hoje, em seu aniversário de dez anos, eu queria dizer que estou muito feliz com o que vejo acontecer com você a cada dia. É uma alegria imensa poder ver suas pequenas e grandes conquistas, seu aprendizado nem sempre fácil de como fazer a escolha mais justa. Este tem sido um ano de desafios novos, nova escola, nova forma de lidar com experiências coletivas - e testemunhar suas dúvidas, seus tropeços, seus momentos mais difíceis me ajudou a ver sua força, sua vontade de crescer e aprender, mesmo que isso às vezes signifique mudar de ideia - algo dificílimo até para adultos! E como uma verdadeira cientista, você tem parado, pensado, mudado, experimentado diferente. E nos enche de orgulho.



O que desejamos para você hoje, meu amor, é que sua infância continue sendo essa aventura deliciosa que você constrói a cada pedalada, a cada descoberta, a cada cupcake devorado com gosto, a cada pirueta descabelada. Que você siga com esse entusiasmo incrível que nos contagia e que sua risada continue ecoando por aí como os sinais que Cassini nos enviou lá das bandas de Saturno. Assim como o tempo de Cassini, o tempo da infância também vai passar; mas assim como as imagens que chegaram de Saturno vão para sempre alimentar a Ciência, também suas risadas ficarão para sempre em nossas vidas - que sua alegria, minha linda, é nossa estrelinha mais brilhante. 

Te amamos muito.
Rita, Ulisses, Arthur.

O garoto e o rio


Podemos dizer que foi o acampamento dos planos furados. Durante dias a amiga pesquisou as opções disponíveis, queria conhecer outros campings, o que é sempre bom. Na véspera, eleição: fui voto solitário vencido, só eu queria ir para nosso velho conhecido acampamento do saci. Na manhã da quinta empacotamos as tralhas e seguimos rumo a um camping diferentão; uma vez lá, hesitamos. A praia linda coladinha à parte mais baixa da área era bem tentadora, porém o espaço total para os quatro dias era bem menor do que o outro camping - que já nos acostumou mal. As crianças se preocuparam com o pouco espaço disponível para os infinitos passeios de bike. A beleza da praia acabou perdendo para o tamanho total do lugar. Quem já estava lá ligou pra quem estava na estrada, que falou com quem ainda não havia saído de casa. Por fim, mudamos a rota e tomamos o rumo do velho acampamento do saci. Mais tarde descobirmos que fizemos mesmo a melhor escolha: ventou muito forte durante praticamente todo o tempo, teríamos comido areia na beira da praia bonita.


Tentação.

Pois bem, uma vez instalados, comemos (não areia, outras coisinhas). E rimos. É verdade que bebemos. Não nego que gargalhamos. Dizem que gostamos. Alguns pescaram, outros roncaram, uns colheram ameixas. Um acampamento inteirinho sem chuva é um luxo absurdo, quem acampa sabe. A lua veio, mas o vento fez com que a luneta permanecesse no carro, pena. Assim que o sol se escondia, o calorzinho do dia era logo substituído por um frio que pedia casaco e abrigo. A cada noite, as crianças invadiam e dominavam barracas enquanto os adultos criavam raízes na churrasqueira. Os bambus conversaram e cantaram como nunca, a sacizada estava em festa.

Observem a barraca estrategicamente montada para aproveitar o pórtico natural com colunas em estilo greco-saci-romanas.


A mansão da minha vizinha.

Minha residência guerreira; depois de dez acampadas, está como nova, pronta para mais dez.

Arthur levou Miss Marple para acampar. 
 
Foram necessários muitos acampamentos, mas agora finalmente temos violão. Como nenhum adulto se habilitou, restou à outra geração assumir a missão. Então teve musiquinha no spotify, mas também teve criançada no violão ou no ukulele. Vocês perderam.
 
Unidos do barulho.


"you can count on me 'cause I can count on you... uuuu...uuuu..."

"my shallow heart is the only thing that's beating..."

De certa forma este foi o acampamento do Arthur: pescou com tarrafa pela primeira vez, e foi tanta a alegria que imagino anos pela frente de conversas de pescador. 


Professor e aluno.
E não era só na pescaria: quando o amigo chegou com arco e flecha, não deu pra ninguém: Arthur Robin HoodZuuumm, na mosca. Eu vejo a adolescência chegando e temo pelo dia em que ele dirá "credo, acampar de novo??!". Vou guardar esse receio na gaveta, por enquanto. A julgar por esse último acampamento, ele será o primeiro a vigiar o calendário em busca de feriados - e partirá feliz, numa mão a tarrafa que ganhou como prêmio pelos dois primeiros peixes, na outra o violão, gritando "oba, acamps!".

Arthur Hood

O arco maior que a arqueira. 

Só não acertei o alvo porque o cabelo atrapalhou, cof cof...

Eventos clássicos se repetiram - a comitiva do sorvete seguiu de bike pelo centro da cidadezinha que sedia o camping;  crianças caíram, mosquitos picaram (bem menos, o vento os espantou), a lona que cobre a área comum entre as barracas se rasgou com o vento, alguém levou macarrão demais, o ovo acabou, a taça de plástico virou e a bebida se perdeu na areia, os dedos, senhor, os dedos ficaram pretos e a sujeirada das unhas nunca mais vai sair; a lua nos visitou, o pôr do sol vermelho acenou por trás das árvores, o rio se mostrou lindo nas primeiras horas da manhã, as coisas sumiram e reapareceram na bagunça; depois de guardar tudo de volta no carro, nós nos despedimos na tarde de domingo nos perguntando quando será o próximo - como fazemos toda vez, toda vez, toda vez.

Rolou tarefa escolar: documentário sobre acampamentos. 

Rolou musiquinha antes da canastra.




Meu parceiro de barraquices e macaquices.





***


 
©A Estrada Anil - Todos os direitos reservados. Layout por { float: left; }