De reencontros



"Que se há de fazer com a verdade 
de que todo mundo é um pouco triste e um pouco só."

Releio pouco. É verdade que às vezes volto a trechos de livros e repasso capítulos inteiros, embalada por lembranças de leitura anterior. Também releio contos o tempo todo, procuro aquela passagem resgatada por um outro texto - para ver se é mesmo do jeito que me lembro. E releio para escrever, buscando na prosa dos grandes o conforto que a literatura me dá, procurando as lanternas. Se uma conversa ou leitura qualquer me deixa com saudades de um personagem antigo, vou lá bater um papo, procurar aquele diálogo memorável ou rever um final que me tirou o chão. Reler romances na íntegra, porém, é prática rara para mim. O que não me impede de saber bem quais eu traria de volta ao colo em caso de namoro reatado. De vez em quando volto ao Grande Sertão de Rosa, buscando passagens que marquei em minha primeira leitura, mas sei que nunca é muito. Haverá uma segunda e talvez terceira leitura integral, certamente. Até porque. Né? Releio Marquez aos pedaços também, só pra matar saudades. Releio as meninas de Lygia, só por amor. Releio Shakespeare para que fique. Releio as façanhas de Poirot para trocar figurinhas com o filho que descobriu Agatha. Pego carona nas leituras de outros e vou à estante revisitar personagens que se tornaram amigos de meus amigos, quase uma balada. 

Quando li A hora da estrela pela primeira vez, havia lido pouco Clarice Lispector. Estava
descobrindo seus contos, conhecia um ou dois outros romances da autora (talvez?). O livro ficou em minha memória como uma história curta em texto múltiplo, cheio de pistas. Eu sabia ou intuía que havia mais, que a aparente leveza daquele livrinho encerrava em si outro peso. E não é que eu já não estivesse encantada: porque eu estava. A hora da estrela foi desde o início um livro de amor: quero essa autora na minha vida, quero essa visão de mundo, como pode essa perspicácia, de onde vem esse olhar, meu deus?  Depois voltei aos contos, minha porta de entrada e morada mais quentinha na escrita de Clarice, devorei quantos pude, li outros romances, e nunca voltei ao livrinho que amei. Macabéa assumiu em minha cabeça os trejeitos da personagem de Marcélia Cartaxo na versão cinematográfica; guardei-a em minha caixinha de personagens inesquecíveis, estrela. Agora sucumbi aos encantos da "edição com manuscritos e ensaios inéditos" lançada pela Ed. Rocco para comemorar o aniversário de quarenta anos do livro. 

Foi, como desconfiava que seria, um reencontro cheio de carinho. Reconheci a Macabéa de anos atrás, mas creio que agora a vejo maior (ou seja, ainda mais miúda). Redescobri o narrador e seu jogo (incrível - quero evitar os adjetivos, mas me perdoem) de construção de vida-palavras. A hora da estrela, com suas parcas páginas, pequeno como sua protagonista, é um livro imenso, um livro do mundo. Reler essa história agora me deixou curiosa: que outros reencontros estou perdendo? Por que demorei tanto para voltar? Sem dramas, porém. Sinto-me, na verdade, feliz, daquela alegria que os bons reencontros nos trazem. A hora da estrela é como uma amiga antiga, que conhece nossos piores segredos e por isso nos ama mais, reconhece nossa humanidade, vê o que temos de espelho e o respeita. A hora da estrela é para releituras e lágrimas silenciosas. É para vermos na vidinha crua de Macabéa e no olhar de seu narrador o poder da linguagem. Há livros que com maestria (quase) desnudam as engrenagens da construção do mundo pela linguagem. A hora da estrela é um deles. E é um encanto. Não é um livro mágico, mas um que se propõe a revelar a magia: a palavra é nossa estrada e a matéria mesma de nossos tijolos. 

A vontade é gritar: leiam. Mas prefiro torcer quieta pelos encontros de amor. Talvez seja preciso que A hora da estrela seja (re)lido com carinho e só um pouco de atenção, voluntariamente. Talvez até com alguma distração, por gente desarmada e com a mente aberta. Vou deixar meu exemplar meio deslocado na baguncinha da estante, para que caia em meu colo de vez em quando. Porque a rotina nos distrai e há tanto para ver. "(...) a rotina me afasta de minhas possíveis novidades" e talvez haja muitas a cada releitura. Então vou deixá-lo ali, com a lombada projetada para fora, para que caia e junte pó e eu precise limpar, e ao limpar eu reabra e me sente na poltrona já velha, e me esqueça da água do macarrão no fogo e me lembre de novo do amor, do narrador, de Macabéa, da linguagem que nos faz.

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"Ele falava coisas grandes mas ela prestava atenção nas coisas insignificantes como ela própria. Assim registrou um portão enferrujado, retorcido, rangente e descascado que abria o caminho para uma série de casinhas iguais de vila. Vira isso do ônibus. A vila além do número 106 tinha uma plaqueta onde estava escrito o nome das casas. Chamava-se “Nascer do Sol”. Bonito o nome que também augurava coisas boas." 

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(O objeto livro é lindo - A hora da estrela, Clarice Lispector - edição com manuscritos e ensaios inéditos, Ed. Rocco: a reprodução dos manuscritos rabiscados, corrigidos com anotações sobrepostas numa caligrafia que beira o indecifrável, são um charme à parte. Trechos escritos em versos de envelopes usados, em papéis rasgados e arrancados sabe-se lá de onde, dão pistas da construção de um romance escrito no calor da avalanche de ideias, poucos meses antes da morte da autora. E há os ensaios sobre o livro: alguns pretensiosos, outros honestos e suaves, declarações de bem-querer. Não sei se ela gostaria que fuçássemos seus escritos rascunhados, mas aí estão, pequenas vitrines do processo criativo de Clarice. Pedi licença e olhei.)


Philip, Olga & Alice


Tenho uma amiga para quem a literatura é a maior forma de expressão artística, pelo poder que os livros têm de levá-la a experimentar emoções, tempos e lugares além da realidade. Não sei se eu classificaria a literatura como "a mais" entre as artes, mas é certo que compartilho dessa sensação de alargamento de mundo proporcionada pelos livros. E se não carimbo o rótulo de "a mais" é porque sei que música, pintura e dança, por exemplo, não raro me arrancam do solo e também me lançam num furacão rumo a um reino de Oz distante e diverso. Seja como for, vamos aos fatos: nas últimas semanas, Maugham, Ferrante e Rezende me transportaram da Europa do século XIX à Porto Alegre atual, passando pela Turim de Olga, mais uma das mulheres de Ferrante que se mudaram para meu imaginário. E em cada vez que virei a última página e bati meus sapatinhos, experimentei a sensação inegável de ser uma Dorothy um tiquinho transformada, again and again. É mesmo poderosa essa tal literatura. Vai ver minha amiga genial tem razão.

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Foi a amiga para quem a literatura é o furacão-mor que me emprestou Servidão Humana (Somerset Maugham, Ed. Abril Cultural, trad. Antônio Barata). Um exemplar velhinho de páginas grossas e amareladas, capa dura das séries de clássicos que colecionávamos nos anos 80/90, quem nunca? Levei comigo em viagem de férias e muitas horas de aeroporto - obrigada, Avianca. Foi uma boa estratégia: diante de tanta desventura na vida do inglês Philip, como reclamar de pane em aeronave no solo, não é mesmo? Fui lendo e quase comemorando cada partida atrasada. Servidão Humana é uma coleção de intempéries experimentada em cada fase da vida do órfão Philip. Nascido com uma deformidade física no pé, Philip foi criado sem muito afeto por um tio vigário, num longínquo vilarejo de Kent, encerrado numa rotina circunscrita por valores religiosos e hipócritas, atormentado pelas chacotas no colégio. O alívio acena na esquina quando o jovem descobre o universo infinito dos livros e das perguntas, e, rompendo com o roteiro que lhe fora determinado, troca o início dos estudos superiores pela aventura sempre excitante de conhecer outros mundos. Porém pobre do leitor que acreditar no alívio - que às vezes não passa de certo tom humorístico e sarcástico com que Maugham nos convida a rir das desgraças. O fato é que livrar-se das amarras do medo do fogo eterno não impediu Philip de dar tropeços homéricos. O mote de sua vida bem poderia ser: pode dar errado? vai dar. Confesso que a partir de certa altura comecei a me irritar com tanta escolha equivocada. Nas passagens pela Alemanha e França, em suas duras tentativas de se descobrir um artista de talento, ainda mantive a empatia em alto nível - até porque é fácil torcer por pessoa tão generosa. No entanto, uma vez de volta à Inglaterra, a sucessão de péssimas escolhas quase me fez gritar com ele, meu, please! Mas sou injusta: é nos anos passados em Londres que o título se mostra e se justifica (o original inglês é Of Human Bondage). E talvez aí esteja um dos pontos fortes da história: o reflexo na vida adulta de uma criação carente de afeto, e a quase previsível entrega a relações destrutivas, como vemos acontecer a partir do momento em que Mildred entra em cena. E se determinados traços do protagonista não me arrebataram (o papel da deformidade física, ora central, ora completamente esquecida, por exemplo), vi na fragilidade emocional do homem servo de suas paixões toda a tristeza do menino que ele carregava dentro de si - e muitas vezes dei-lhe colo. E a vida não é bem isso? A criança que fomos segue berrando dentro da gente, puxando teimosa nossa mão, queiramos ou não. É preciso paciência.

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Da melancolia pontuada com certo "humor triste" de Maugham à crueza da narrativa de Ferrante. Dias de abandono (Ed. Biblioteca Azul, trad. Francesca Cricelli) carece de frestinhas de alegria. Desde a primeira linha, quando somos, sem preâmbulos, informados de que o marido de Olga resolveu comunicar o fim do casamento de 15 anos, até o final (com um bem vindo afago no leitor), assistimos à luta de Olga para remontar o quebra-cabeças de seu cotidiano - e de seu equilíbrio psíquico e emocional. A rotina não tem freios: dois filhos em idade escolar, as urgências das tarefas domésticas, a infestação de formigas pela casa, as caminhadas com o cachorro abandonado pelo dono - não há trégua para que Olga pare, respire, enfrente o estado atual de sua vida com dor, sim, mas com sapiência. O enfrentamento será, logo percebemos, em meio à confusão emocional profunda e urgente que atropela e domina a psique da personagem. À beira do precipício, Olga vê sua consciência dançando perigosamente enquanto os filhos adoecem, o cachorro se intoxica, o apartamento é invadido, os amigos somem. Permeando tudo, a linguagem certa e afiada de Ferrante, o tom que salta das páginas e nos sufoca também. Queremos o antídoto, queremos o alívio, o sossego. Respiramos ofegantes e seguimos, como quem tem fé: existe o vizinho, o parque, o médico, a sacada, a própria história, o corpo forte - onde fica a saída? Ferrante nos mostra, mas não sem antes exibir o poder de sua escrita clara, nítida, forte, veloz. Uma linguagem que contém em si o motor do enredo, um título que se revela múltiplo. Publicado originalmente nove anos antes da tetralogia admirável iniciada com A amiga genial, Dias de abandono tem a mesma força, condensada num vertiginoso mergulho nas entranhas de mais uma marcante personagem feminina. Grazie mille, ragazza!


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Se Olga conhecesse Alice, protagonista de Quarenta dias (Maria Valéria Rezende, Ed. Alfaguara), as duas certamente teriam muitas figurinhas para trocar. De abandono elas entendem. Mas talvez as semelhanças parem aí. A Olga de Ferrante tenta recuperar seu equilíbrio colando cacos: a busca é por reencontro - de si mesma, de significados conhecidos, de conforto emocional. Alice, por sua vez, rompe, foge, busca no estranhamento de encontros antes impensados construir um novo sentido que tenha o poder de cicatrizar seus próprios abandonos. Professora aposentada, Alice é convidada pela filha, casada com um gaúcho, a se mudar de João Pessoa para Porto Alegre para que ela, a filha, possa engravidar. A ideia seria poder contar com a avó da criança por perto, e assim aliviar o peso da nova rotina que chega com o primeiro filho. Acontece que Alice não gosta da ideia, gosta de viver em João Pessoa. Lá tem seu mundo, seus amigos, o contato com o mar, sua vida simples de professora aposentada. Diante da recusa inicial, o convite se transforma em insistência, forma-se uma rede de amigos que de repente acham a ideia excelente, os preparativos são feitos, Alice é vencida. Segue para Porto Alegre ressentida, sentindo que foi arrancada da vida que escolheu e construiu para que a filha pudesse fazer a sua a seu modo. Pouco depois da chegada a Porto Alegre, novos rumos se apresentam para a filha, e Alice, tal qual temia, depara-se com o vazio. No apartamento novo, mobiliado pela filha, no qual não reconhece qualquer traço de sua história, Alice se isola no estranhamento de móveis e objetos que não são seus de verdade, ignora telefone e interfone, simula uma viagem. Uma semana depois, sem conhecidos na cidade, sem qualquer tarefa que se imponha em sua nova vida oca, Alice sai. E o que busca em sua saída não tem relação aparente com seus próprios problemas - vai em busca de notícias do filho de uma amiga paraibana, que sumira na periferia de Porto Alegre sem deixar rastros. Alice sabe quase nada: um nome, a profissão do moço, o bairro onde morava quando deixou de dar notícias para a mãe. E como sabe quase nada do rumo que precisará dar à sua própria história, entrega-se à história do Outro e através dela enfrenta sua solidão, enquanto aprofunda seu olhar sobre a cidade, seus moradores mais humildes, os esquecidos dos viadutos e praças, o feio, o sujo, o invisível. Quarenta dias cresce. A narrativa que se inicia em torno do conflito pessoal de Alice ganha contornos cada vez mais amplos na medida em que a protagonista descobre, em sua peregrinação de quarenta dias pela periferia de Porto Alegre, o mundo escondido dos moradores de rua, dos imigrantes, dos muitos que, como ela, desaparecem. A cada encontro, um misto de descobrimento e reconhecimento, evidenciando o humano que une todos nós.

Ao registrar sua aventura, Alice se dirige à boneca Barbie que ilustra a capa do caderno em que escreve. Barbie é a interlocutora muda, silenciosa, sempre jovem, sem coração ou saudades, um contraponto à urgência da protagonista em narrar para não se perder de vez. O caderno da Barbie também somos nós, leitores, que a tudo lemos, curiosos, recebendo pacientes os relatos de cada nova descoberta nas andanças de Alice. A cada esquina, praça ou ladeira da periferia porto-alegrense, uma nova toca de coelho, a corrida, a percepção alterada de nosso tamanho diante do mundo, num diálogo com a Alice de Carroll que permeia toda a narrativa. O sotaque paraibano da protagonista (Rezende, paulista, vive na Paraíba há muitos anos) ecoou em minha cabeça durante toda a leitura. Alice traz em sua voz regionalismos paraibanos inconfundíveis, um ritmo típico na escrita que a todo momento nos remete ao ritmo e jeito da fala paraibana, um elemento de riqueza a mais nesse livro precioso. Imagino o cenho franzido do leitor não familiarizado com algumas expressões, pequenas chances de conhecer variações outras de nossa múltipla fala brasileira; quanto a mim, sorrisos de reconhecimento. O final um tanto brusco me surpreendeu, acho que eu queria mais andanças, outras tocas e chapeleiros. Quem sabe não virá. Alice fecha o caderno, mas cogita reabri-lo depois para passar tudo a limpo. Quem sabe. 


 
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