Do que enche o coração


A poucos dias de embarcar em nossa curta viagem de férias pelo Nordeste ficamos, as crianças e eu, doentes. Garganta, nariz, ouvido, cada um teve seu perrengue particular em maior ou menor grau de incômodo e encheção de saco. Na véspera da partida, Arthur foi diagnosticado com otite aguda e entrou no famigerado antibiótico; Amanda tossia como nunca; eu alternava antibióticos com anti-inflamatório. Embarcamos sob a expectativa de um tímpano estourado durante o voo - o que não aconteceu, ufa; a necessaire de remédios era a mais gordinha da mala. Mesmo assim, fomos. Trocamos o frio do Sul pelo "inverno" nordestino. Os remédios fizeram sua parte, a vontade de curtir fez a sua; o ouvido se recuperou, a tosse passou, minha voz voltou ao normal. Fomos ver o casamento de meu cunhado, rever parentes, matar saudades, morrer de comer. Foi bom, aconchegante como receber colo. Foi emocionante, também - e bem quentinho. 

A Avianca contribuiu no quesito resistência. Como nosso maior temor era o tímpano do Arthur, que acabou se comportando lindamente, nem reclamamos tanto assim. Mas é verdade que nossa paciência foi testada: sete horas de espera na conexão, uma madrugada no saguão do Galeão. Já tínhamos ouvido o "tripulação, portas em automático", mas era de mentirinha. Com problemas na aeronave, tivemos de desembarcar e amargar um longo chá de cadeira. Deveríamos chegar em João Pessoa por volta da meia-noite, chegamos na manhã seguinte. Exaustos, descansamos o que deu e fomos nos preparar para a festa. Viva as férias.

***

Nos dias que se seguiram nos cercamos de sol, mar e carinho. Não satisfeitos em brindar o casamento Dudu&Dani, metemos a mão na festa: Arthur entregou as alianças aos noivos, Amanda sacou seu ukulele e cantou uma musiquinha pra eles. O noivo mais feliz do pedaço cantou e dançou todas, a noiva mais poderosa era só sorrisos. Festa é bom. Festa que celebra a alegria de quem a gente gosta é o bicho. Foi lindinho demais.
 
Os lindos, felizes.

Soltou a voz e os dedinhos - rolou até "contrato" com o noivo, cof cof. 
O pajem mais lindo.

***
E os dias foram de lenta preguiça.





Nossa trilha mais legal.




Primo mais legal não há.
  
Quando os pescadores retiravam as redes, as crianças salvavam os peixinhos pequenos demais para a pescaria,
devolviam os coitados assustados para o mar. O cachorro da foto ajudava a retirada da rede, latindo sem parar. 


***
Se João Pessoa foi de festa e praia, o interior testou meu coração. Sempre que volto à casa de minha mãe, ouço sua voz. Dessa vez não foi diferente. Antes de chegar lá, busquei meu sobrinho para passar o dia com meus filhos. E chegar lá com os três netos que ela receberia com o coração em festa foi um silêncio enorme. Eles invadiram a casa tal qual ela adoraria ver e no primeiro minuto já corriam entre o quintal, o jardim, a sala. Faziam muito barulho, certamente, mas o que eu ouvia não estava ali. Levei flores amarelas para seu túmulo, toquei mais uma vez os espaços que foram dela, os lugares em que ela me amou. Muita coisa passa, mas há tanto que ela deixou. A cidade inteira se parece com ela. 

Na cozinha me esperavam abraços valiosos e uma panela de canjica que mexi como nos velhos tempos - com ajuda, ainda bem, haja braço. Comi toda a canjica desse mundo, inclusive raspei a panela com as crianças, melhor ritual ever. Foram dois dias de comfort food para aquecer qualquer coração - galinha caipira, arroz com o molho da galinha, o mamão mais doce, carne de sol, feijão de corda, a bolacha da infância - e muuuita canjica, já falei? Parecia comida, mas era colo. Nem sei agradecer.

***

Tenho uma tia muito querida cuja voz é uma das boas lembranças de minha infância. Não sei explicar o lance da voz - eu gostava do timbre, do tom. Seu abraço era bom, fofinho e com vontade, e em sua cozinha havia o café sempre quentinho acompanhado de tapioca fofinha como o abraço. A frente de sua casa tinha um jardim comprido que eu cruzava correndo sempre que chegava lá. Há mais de dez anos o Alzheimer nos tirou seu abraço e sua conversa suave intercalada por risadas contagiantes. Minha prima gata e sabida cuida dessa minha tia tão querida desde então. Eu não as visitava há anos, que desperdício. Quando cheguei lá agora fui recebida com o mesmo café e a mesma tapioca fofíssima - minha prima, além de gata e sabida, é um doce. E pude ver minha tia. Que me reconheceu imediatamente: É Rita? Se a Avianca tivesse me deixado no aeroporto por outras sete horas, tudo teria valido a pena. Em algum lugar da memória da Tia Tereza eu ainda corro por aquele jardim e ainda peço outro café. Obrigada, prima, obrigada demais. 

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O voo da volta foi tranquilo e pontual, e pude quase acabar a leitura de Servidão Humana. A jornada de Phillip parece enfim se encaminhar para dias menos duros. Quanto à minha, sigo comemorando tanta sorte: para onde olho, no tempo e no espaço, vejo um caminho bom. Até as pedras, se eu olhar bem, trazem luz e cor. ;-) 





A lista sem fim


Tenho um arquivo já velhinho em meu computador com uma lista de livros que pretendo ler. A lista mais cresce do que encolhe, naturalmente, são sempre tantas as obras que gostaria de conhecer, muito mais do que consigo dar conta. Incluo dicas que vejo em todo lugar, seja numa resenha publicada por ocasião de mais um lançamento, em posts de amigos nas redes sociais, nas referências que surgem dentro de outras obras. Por vezes paquero um livro na livraria, adio a compra, ponho na lista. De vez em quando surgem memes sobre dicas de leitura, minha lista ganha mais umas linhas. E assim vai. A ideia é poder consultar o arquivo naqueles dias em que decido acessar a Estante Virtual, ou aproveitar alguma semana de promoção das livrarias virtuais. 

Sempre que abro o arquivo para incluir algum título passo os olhos e vejo que, opa, esse já li no mês passado, retiro o título de lá. O último que risquei morava no rol de vontades há algum tempo, Um defeito de cor. Li o livro de fôlego da Ana Maria Gonçalves há algumas semanas, risquei da lista (como já comentei com amigos no Face, gostei e aprendi muito, apesar de lamentar algumas passagens que considero prolixas demais, extensas demais). Vale muito a leitura, uma obra que resgata tanto da pluralidade de culturas e sotaques das populações negras trazidas para o Brasil como escravos por tanto tempo. 

Passando os olhos por outros títulos em minha lista nesta semana, vi que o livro que estava lendo naquele momento também estava anotadinho ali, num trecho antigo contendo títulos sugeridos depois de um bate-papo no Face. Era O conto da aia. Fiquei pensando no quanto adiei a leitura, ainda que lesse sobre Margaret Atwood aqui e ali e sempre ficasse curiosa. Fui enfim engolida pela adaptação para a TV, assisti a série com o coração na mão, encomendei o livro (esgotado nas livrarias onde procurei, encontrei na Estante Virtual - Ed. Rocco, tradução de Ana Deiró) - e agora posso curtir/sofrer junto. Finalmente vou riscar de meu arquivo esse livro tão inquietante. Por causa da série e das loucuras políticas da atualidade mundo afora, muito tem sido dito sobre a obra, vocês nem devem mais aguentar falar no assunto. De tudo que ela retrata, o mais louco para mim é saber que nada ali foi exatamente inventado. Gostei muito da série, recomendo enfaticamente (se ainda não viu, corra). Dos medos que tenho, um dos mais inquietantes é o medo do fanatismo religioso; talvez por isso a história tenha  me tocado bastante. 

Ter visto a série antes em nada comprometeu o prazer da leitura - pelo contrário, adorei ter a figura da Elizabeth Moss em minha cabeça enquanto avançava pela narrativa em primeira pessoa. Moss é uma atriz incrível e adorei vê-la (e, de certa forma, lê-la) na pele de Offred, a protagonista dessa história tão perturbadora. Mal posso esperar pela segunda temporada, mesmo sabendo que seguirá livre do livro, já que praticamente toda a história criada por Atwood já foi retratada na primeira temporada da série. Queria dizer que deveria ter lido há mais tempo, mas a culpa é da lista - e dos outros que nem chegam a entrar nela (já estou lendo Ferrante outra vez, me aguentem).

O dia daquela


Hoje é o dia daquela que teria orgulho de ver como eu recomendo bem aos meus filhos que sempre levem o casaco. Claro que ela não iria perder a piada e diria "quem te viu, quem te vê". Faria 77 anos e acho que seria linda, miúda, cabeça branquinha, aquele olhar. Quando penso nela "como seria", abandono um pouco as lembranças dos limites impostos pela saúde frágil e penso mais nas nossas piadas particulares.
Ela também diria "que dia você chega?", que era sempre uma pergunta cheia de amor.
Hoje é seu dia. Ainda é, sempre será. Saudades, mãe.

***

(pequeno post publicado no face que agora trago pra cá, para que fique guardado nesse baú azul de minhas lembranças.)
 
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