Pé, Ferrante, Café


O especialista em pé (que chamo mentalmente de escialista) me disse ontem que, na verdade, não, o osso ainda não está totalmente consolidado. É o oposto do que ouvi de outro médico semanas antes: "não se preocupe mais com o osso, vamos agora recuperar os movimentos e tratar a inflamação decorrente da imobilização" e "o importante agora é a fisioterapia". Bem, fui obediente e cumpri regularmente todas as sessões de fisio, caprichando nos exercícios. De fato, recuperei amplitude nos movimentos e a força na perna, voltei a andar normalmente, o inchaço praticamente sumiu. Apenas a coloração esquisita na região da fratura e as dores intermitentes, ainda que bem mais leves, me levaram ao agendamento com o espécialista. Mostrei a ele o exame solicitado pelo outro médico - inadequado e desnecessário, não revelou coisa alguma. Seguiu-se um exame clínico; diante da dor que senti quando ele apalpou meu pé, solicitou um novo raio-x ("vamos pecar por excesso"). E lá está, meu lindo ossinho ainda quebrado, apenas 50% recuperado, outra metade abertinha da silva. Por isso sinto dores, por isso o salto, ainda que baixinho, me incomoda, por isso ainda tanta sensibilidade - quatro meses depois da fratura. 

Não sei mais: é possível que a própria fisioterapia precoce tenha retardado a consolidação do osso - me lembro de, em uma das várias consultas, um dos médicos ter falado "nada de fisio até que o osso esteja plenamente recuperado". Faltou um raio-x no meio do caminho para verificar a quantas andava a recuperação, aparentemente. A frustração é inevitável: não fui negligente. Imobilizei o pé, fiz repouso, me afastei do trabalho, fiquei um tempão sem dirigir, segui a fisioterapia indicada. E agora, quatro meses depois, o espécialista me diz que em trinta dias, caso o osso não esteja recuperado, será preciso imobilizar outra vez. Recomendou um repouso que me fez rir: "ande o mínimo necessário". Oh, dear. Nada de fisio, nada de exercícios físicos, meu pé segue parcialmente quebrado e sinto como se tivesse feito um monte de coisas inapropriadas - mesmo seguindo à risca orientações de profissionais. Pode falar um palavrão?

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O espécialista me lembrou o Freud, calvo e com barba. Fiquei esperando que ele me perguntasse sobre a infância do meu pé, mas não rolou.


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Estou às voltas com um curso de capacitação, aproveitando as horas extras em casa para organizar pendências. Há um reforma na casa sendo planejada e já sinto arrepios. Entre uma coisa e outra, comecei a ler o quarto livro da tetralogia da Ferrante. Claro que foi um erro. A vontade é largar tudo pro alto e comer o livro em uma só bocada. Muito pode ser dito, mas eu fico aqui: como gosto da escrita dela. 

"Em que desordem vivíamos, quantos fragmentos de nós iam sendo lançados como se viver fosse explodir em estilhaços." - I KNOW!!!

"Falou sobre o fim iminente de uma época que (...) declinando, levava consigo todas as categorias que tinham servido de bússola." - I KNOOOOOOW!!!

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A nutricionista me disse que a cafeína atrapalha a absorção dos nutrientes. Respirei fundo e estou fingindo que vou levar isso em conta. Mas todos sabemos que: não. 


4 comentários:

TinaLopes disse...

Ai, Rita, só com bom humor, mesmo. E café.

BethS disse...

Ô querida, ninguem merece sentir dor o tempo todo, ainda que bem pequena... passei por coisa parecida, só que era rompimento de um ligamento interno do joelho direito... foram quase oito meses de tratamento, fisio, e muitos etc... e ainda hoje, tres anos depois, ainda doi de vez em quando...
se cuide, meu amor.
tudo vai dar verto, viu?
beijo

Rita disse...

Tina, por aí.

Beth,flor, obrigada pelo carinho. O "engraçado" é que agora que sei que o pé está ainda quebrado a dor se mostra o tempo todo. Voltei a mancar levemente, porque tenho medo de forçar o local da fratura. Tenho consciência de que é uma bobagem, nada grave. Mas isso não me impede de reclamar, haha.

Fal disse...

Amor, que coisa mais infernal!!! :(

 
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