De quem se perde, de quem busca


Dia desses comentei no Facebook que não sou team Lila nem team Lenu. Que minha relação com as personagens de Elena Ferrante é de admiração pela forma como são construídas, não de identificação. Concluída a leitura do quarto livro da série que começou com A amiga genial, a sensação se mantém. Nunca quis escolher entre as duas, e agora posso sentir saudades de tudo, de cada tropeço, especialmente da forma como Ferrante sinaliza que a vida tem perdas irreparáveis e nem sempre há redenção - mas que às vezes a gente pode buscar coforto nas belezas construídas sobre a dor. (Como tantas vezes o fazem as artes, a literatura.)

História da menina perdida (Ed. Biblioteca Azul, tradução de Maurício Santana Dias) avança pela maturidade e velhice das duas amigas, expondo ainda mais as entranhas da periferia napolitana onde nasceram e cresceram. E embora eu esteja agora com saudades de Lenu, a falta se dá mais pela força da história do que por amor à personagem. Lenu me tirou do sério, queria sacudi-la pelos ombros e gritar get a life!; mas sua trajetória cheia de tropeços e péssimas escolhas, de medo e dependência, não era pura. Era também uma trajetória de coragem e fúria, de compaixão e generosidade, de ruptura e reencontro - acima de tudo, uma trajetória de busca pelo autoconhecimento, essa coisa que empurra quem se dispõe a romper margens difíceis de serem quebradas. Quanto à Lila, a Lila das margens sempre incertas, tentei beber na compaixão de Lenu. E no terço final da história, quando o mundo desaba, o que eu quis, de verdade, foi amparar as duas e dizer: ninguém teve culpa, meninas.

Pra mim, é o melhor livro da tetralogia, o mais rico. E vou evitar spoilers, mas quero dizer que achei o destino reservado a Nino um dos pontos fortes do livro. Ao mesmo tempo em que experimentei a satisfação de ver minhas suspeitas em relação a ele se confirmarem, vi com crescente alegria a forma como Ferrante fez oscilar o espaço que ele ocupa na vida das duas amigas. Sua figura está no centro do grande furacão que arrasta a todos na reta final, mas a posição oficialmente periférica que ocupa na vida delas deu ainda mais vigor ao livro, lançou Lila em outra dimensão de si mesma, revelou a Lenu o poder de sua própria libertação - que nunca é total, nada é, mas nem por isso é irrelevante. Ela viu muito bem como a tragédia se formou, e seria quase uma espécie de redenção macabra, não fosse seu caráter forte o bastante para permitir que ela oferecesse ao leitor toda a beleza do final da história - final que dá ao título do livro outras camadas. 

Terminei a leitura comovida. Li o primeiro livro há quase um ano, optei por esperar os lançamentos no Brasil. Valeu a espera, demais.

6 comentários:

Luciana Nepomuceno disse...

affe, sempre lindeza suas resenhas.

Rita disse...

Oin. The eyes of the beholder etc.

TinaLopes disse...

Adorei, Rita. Estou ainda tentando entender o que não gostar nesses livros. A riqueza das trajetórias, dos cenários, do texto, me emocionaram demais.

Rita disse...

Também não sei enumerar, Tina. Quando li o primeiro não morri de amores, mas achei instigante o suficiente pra seguir, fui fisgada. A partir do segundo (e se não tivesse sido assim, acredito que teria largado a série) foi bem diferente. Eu gosto de tudo: personagens, ambientação, linguagem, trama, pano de fundo, temas periféricos - acho tudo muito bem costurado. Pra completar, gostei do rumo dados aos personagens no final.

Renata Lins disse...

Tô quase lendo. :) beijo! adoro as resenhas sempre.

Rita disse...

Renata, se você encarar espero que goste. Se não gostar poderemos trocar figurinhas mesmo assim. :-)

 
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