A luneta de Galileu


Há uma passagem da peça A vida de Galileu, de Bertold Brecht que valeu a leitura inteira (li uma tradução de Roberto Schwarz publicada pela Abril em 1977). Trata-se de uma cena em que Galileu recebe sábios da corte de Florença para tentar convencê-los de que a Terra e outros corpos celestes se movem pelo espaço. As afirmações de Galileu contrariavam não só a ideia de que a Terra era o centro de tudo, mas também a noção difundida desde Aristóteles de que a Terra, o sol e outras estrelas visíveis estariam fixos a esferas de cristal que sustentariam esses corpos no espaço. Na conversa que segue, um filósofo indignado se recusa a aceitar qualquer afirmação que conteste Aristóteles, outros citam os princípios defendidos pela igreja. Em contrapartida, um discípulo das ideias de Galileu argumenta que Aristóteles não dispunha da luneta, e portanto não lhe era possível enxergar coisas que Galileu era capaz de demonstrar com o uso do novo instrumento.

Com otimismo Galileu insiste que os sábios primeiro olhem o céu pela luneta, constatem com seus próprios olhos o que ele lhes diz. E que só então sigam naquela conversa. Os sábios percebem que se o fizerem terão seus argumentos enfraquecidos. Temem olhar pela luneta e enxergar o que Galileu diz ter visto. Assim, decidem não olhar. E saem da casa de Galileu de peito estufado, "convencidos" de suas verdades: não vamos nos permitir olhar para aquilo que contesta Aristóteles e não vamos trair nossa fé. 

Achei o diálogo um primor, queria vê-lo encenado no palco. Imagino a cara de Galileu diante do medo daqueles que se recusaram a confrontar suas próprias crenças a ponto de não olhar pela luneta, um instrumento que deslumbrava a muitos, numa ótima ilustração do velho ditado que diz que "o pior cego é aquele que não quer ver". O resto da história todo mundo conhece, Galileu foi denunciado à Inquisição. Para não ser queimado vivo como Giordano Bruno antes dele, renegou suas descobertas em público. A peça termina com Galileu já quase cego, recluso pela igreja, ainda produzindo seus escritos que sobreviveram aos ignorantes detentores do poder em seu tempo.

E eu fiquei com a imagem dos sábios se recusando a olhar a verdade pela luneta. Tão atual.  

4 comentários:

TinaLopes disse...

Um dos lugares que mais gosto em Roma é a igreja de Santa Maria de Sopra Minerva, ao lado do Pantheon, com aquele elefante louco na frente. Foi nela, que era pequena, à época, que Galileu abjurou, com pouco público, para não ser queimado. Eu sou boba e me emociono de imaginar essas cenas.

Rita disse...

Ah, Tina, sou do seu time. Me emociono também. Não visitei essa igreja. Se um dia voltar a Roma vou me lembrar de seu comentário.
Na peça, morri de pena dos alunos dele que diziam que ele jamais renegaria suas teorias. É muito tocante a dor deles.
Bj.

TinaLopes disse...

Menina, precisamos ir JUNTAS a essa igreja!

Rita disse...

\o/

 
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