Autumn camping


Convencer alguém a acampar é temerário. Vai que você consegue. Aí a pessoa encara e basicamente: carrega tralha no carro; pega trânsito; descarrega a tralha; se coça; monta barraca; cozinha; lava louça; se coça; torce pra não chover; se coça; usa banheiro com besouros nas paredes; se coça; no final desarma a barraca e junta a tralha; carrega tralha no carro; pega trânsito; chega em casa exausto e se coça. E ainda assim corro o risco. Ao menos por enquanto, estou no lucro: acho que se há algo de bom que fiz pelos amigos nessa vida foi justamente convencê-los a acampar. Ninguém me xingou até agora.

Quase não fui dessa vez. Os companheiros de sempre não podiam, tinham outros compromissos. Porém eu havia perdido os dois últimos acampamentos (estava viajando em janeiro; estava de muletas no carnaval), e Amanda estava torta de saudades da barraca - e eu também. Então decidimos que iríamos mesmo assim. Afinal, aquela amiga que virou campista meses atrás estaria em outro camping e, poxa, nunca havíamos acampado juntas. Assim, troquei o acampamento só com a família por um com outra galera. Que escolha feliz. No fim das contas, os de sempre contornaram os compromissos, e, se não acamparam, ao menos passaram um dia inteiro no camping conosco. Novos amigos foram ver qual é - e acho que o contágio se espalhou. Ou seja: juntamos o bom com o melhor e foi tudo como sempre é sob as lonas das barracas: renovador. 

A gente fez tudo aquilo do primeiro parágrafo, mas com um sorriso de orelha a orelha. Afinal, as crianças passaram o feriadão in-tei-ro pedalando e descobrindo bichos (cobras inclusive, socorro), comendo com a mão suja, pulando corda ou se equilibrando nela, curtindo a preguiça nas redes ao ar livre, caçando tesouro com lanterna e tomando susto para depois, exaustos, descansarem no saco de dormir quentinho enquanto os sacis conversavam nos banbuzais. Volto a apostar que esses acampamentos estarão entre as melhores lembranças da infância de meus filhos. Os adultos? Já programando o próximo. 

O sol de outono era como um abraço. 

Nossa barraca parceira de guerra: nove acampamentos and counting.
A alegria de quem ia ao mercado da vila de bike e voltava com a cesta carregada de porcaria, digo, comida. 

As instruções para a caça ao tesouro no meio do mato.

Mapas.

Falando com a boca cheia.

Essa foto é simbólica do espírito coletivo dos acampamentos:
uma ajuda a filha da outra a andar na bike da filha de uma terceira.
A Aninha vai se lembrar: aprendi a pedalar no acampamento. 
Picnic.

Gatchinhos.

Gatchinhas.

A caçula. Quatro meses e já no mundo.

Voa, menina!

Proibido para adultos.

Criança, mato e bike.

Nunca, nunca me arrependo.
 

The sound and the fury - ou um quadro sobre o tempo


"He sat there for some time. He heard a clock strike the half-hour, 
then people began to pass, in Sunday and Easter clothes. 
Some looked at him as they passed, 
at the man sitting quietly behind the wheel of a small car, 
with his invisible life ravelled out about him like a wornout sock."


***

Eu não sabia nada sobre o enredo daquela que é considerada a obra prima de Faulkner. Comprei As I lay dying também, mas The sound and the fury chegou às minhas mãos primeiro (Ed. Vintage). Não foi uma leitura sem susto, tampouco sem aquela coçada básica na cabeça, what the hell. Houve mesmo o choque de me ver diante de uma linguagem a ser desvendada, mais do que entendida. Ao menos pude contar com a ajuda da introdução em minha edição: comecei a ler sabendo que o primeiro capítulo me jogaria nos pensamentos de Benjamin, trinta e três anos de idade, desenvolvimento cognitivo de uma criança em primeira infância, talvez um bebê. Uma narrativa em fluxo da consciência que se propunha a retratar tamanha complexidade não poderia senão se mostrar misteriosa. Então naveguei por aquele capítulo seguindo a orientação da introdução: entregue-se, a compreensão virá depois. De fato, não vi outro caminho; e me deixei levar. Me perdi não poucas vezes, mas cada momento de confusão foi compensado nos capítulos finais. 

A percepção de mundo do pequeno (?) Benjamin é dissociada da noção linear que costumamos ter acerca do tempo. Uma imagem contemporânea pode disparar o gatilho de uma sequência de imagens do passado que chega mais como experiência revivida do que como memória simplesmente. Os devaneios se transformam num turbilhão de visões anacrônicas onde personagens do passado se confundem com os habitantes do presente de Benjamin, pobre leitor. Quando foi isso? Quando está essa pessoa? Houve um momento em que eu não sabia sequer quais personagens afinal compunham a família central do enredo, oh, dear. No entanto, a brincadeira com o vai e vem do tempo me fisgou para além de qualquer sentido lógico no desenrolar da história. Segui.

No segundo capítulo o fluxo da consciência segue, mas nos mudamos para a cabeça de um dos irmãos de Ben, Quentin. Segui um pouco no escuro, a depressão de Quentin ditando o ritmo e a estrutura de seus pensamentos - a linguagem também aqui é fragmentada, a pontuação, uma loucura. Um redemoinho de ideias e imagens nos lança no flerte com o desespero ilustrado com primor na linguagem. O resultado é um capítulo sufocante, de leitura truncada, que aos poucos revela a agonia do personagem. Nem a necessidade de reler vários trechos a fim de concatenar o que raios estava acontecendo me levou a desistir. Terminar o capítulo foi como chegar à margem depois de um quase afogamento - e depois ficar feliz por ter atravessado o rio.

O terceiro capítulo do livro traz a narrativa em terceira pessoa a partir do olhar de outro irmão de Ben, Jason. Depois de ler a primeira metade do livro, o capítulo narrado por Jason vem como um cafuné: descanse, leitor, siga o fluxo. E aí me descobri já envolvida com aquela gente, querendo antecipar o destino de Caddy, a única irmã de Ben. O olhar de Jason é obviamente parcial; é também meio cínico e tremendamente egoísta - e aí a gente já não sabe o que afinal é verdade nessa história toda. Caddy, por exemplo, nos chega como uma combinação de devaneios de Ben, das perturbações de Quentin e do mau-caratismo de Jason. Seu comportamento é como um fio condutor na história, afetando mais ou menos profundamente a vida dos três irmãos - e só nos resta vê-la a partir da perspectiva de cada um deles.

Então nos chega o final, um quarto capítulo com narrador onisciente focado na figura de Dilsey, a serva negra daquela família perdida e quebrada nos EUA de 1928. De repente Dilsey se mostra a mais sólida do grupo (talvez não tão de repente, mas foi assim que a descobri em minha leitura meio confusa) e a riqueza de imagens desse final tem tal sutileza, uma leveza, uma fragrância triste e solitária que me envolveu como se eu ganhasse colo do livro. Foi dessas páginas finais que extraí o trechinho com que abri este post. 

Mal virei a última página, voltei para a primeira. Reler os devaneios de Ben, já familiarizada com os personagens, foi como ler páginas diferentes daquelas do início de minha leitura. Interrompi o replay e por ora vou guardar a sensação que o primeiro contato com o livro me trouxe: nossa vida vai se enrolando na gente, nos envolvendo de maneira que, se prestarmos bem atenção, veremos que o tempo é mesmo aquela ilusão de que nos falava o Einstein. Faulkner nos joga nesse emaranhado: como se dá a percepção de tempo/espaço por alguém com uma mente como a de Ben? como se misturam passado e presente? como nossa mente define nossa relação com o tempo? 

Ben não fala, os sons que produz são indefinidos, mas Faulkner nos dá sua mente, seus medos, a confusão do mundo. Ben se acalma com a rotina (e ironicamente com o irmão Jason, a figura egoísta que assanha a antipatia dos leitores); talvez nós também. A ordem nos acalma, a sequência do tempo nos ajuda a organizar nosso mundo. Mas talvez seja bom não organizar demais, sob o risco de perdermos a beleza que mora nos devaneios mais desavisados. No aparente caos de imagens que Faulkner desenha em The sound and the fury há uma quase música.   


 
©A Estrada Anil - Todos os direitos reservados. Layout por { float: left; }