Our friend, imperfection


"A natureza é perfeita."

Eis uma frase que ouvimos ao longo da vida para expressar nosso encantamento diante de um elemento ou fenômeno que nos tire o fôlego - de um pôr de sol vermelho a um céu estrelado visto do campo. A abundância de beleza em elementos e fenômenos naturais é tamanha que invocar a ideia de perfeição diante de um canyon gigantesco ou da cor da gralha azul parece algo igualmente natural. É automático: o muito belo, o fenomenal ou o gigantesco são exemplos de "perfeição".  Esquecemos que o ideal de perfeição é isso: um ideal. Uma noção inventada pelo homem, como tantas outras boas ou ruins, mais ou menos úteis para descrever e classificar o mundo a nossa volta. Na verdade, penso que a perfeição não está na natureza em si, é só um carimbo feito por nós. Diante de um ciclone que devasta uma cidade ou de um terremoto que tira a vida de milhares de pessoas, lamentamos, obviamente. No entanto, ciclones e terremotos são manifestações da mesma natureza que pinta a asa da gralha. Mas diante da gralha, esquecemos o ciclone e invocamos a perfeição mais uma vez.

Darwin abriu caminho para o entendimento de mecanismos naturais que preenchem nosso planeta com uma diversidade deslumbrante de espécies. Desde então aprendemos que antes de a seleção natural entrar em cena tudo começa com acidentes genéticos, mudanças aleatórias nas cópias dos códigos genéticos. Aleatórias, não perfeitamente planejadas. Para cada acidente genético que resultará tempos depois em uma nova espécie, muitos outros condenam os indivíduos que os portam a desaparecerem engolidos pela seleção natural. Ainda assim, o que se segue é a abundância de beleza que nos faz suspirar e dizer "a natureza é perfeita", esquecendo-nos, claro, de outras abundâncias extintas não só pela seleção natural, mas também por fenômenos igualmente naturais, porém catastróficos, ocorridos ao longo da história de nosso planeta. Uma catástrofe natural não cabe no ideal de perfeição. Uma barata também não, mesmo sendo eficientíssima em sua luta pela sobrevivênica e perpetuação da espécie. Mas deixamos isso de lado diante da asa da gralha.

Se olharmos para o corpo de conhecimento acumulado até aqui sobre a origem não só de nosso planeta, mas de todo o cosmos, veremos não uma figura homogênea e matematicamente perfeita, mas distribuição irregular de matéria que em bilhões de anos e muitos acidentes gigantescos depois se expandiu e ocupou lindamente o espaço. E ainda que as leis da física que regem toda essa incrível organização sejam matematicamente precisas, o resultado nos parece mais um emocionante ballet eternamente em movimento do que um ambiente limpinho e impecável. É incrível, para mim. Deslumbrante. E parte da beleza está justamente no desgoverno de explosões de estrelas que morrem e espalham seus elementos por todos os lados em algo que é ao mesmo tempo catástrofe e vida. A palavra "perfeição" chega a dançar em meus lábios. É tão fácil usá-la. 

Mas acho mesmo que a ilusão de perfeição deriva de nossa curta permanência sobre a Terra. Cada um de nós, com sorte, passa algumas décadas por aqui; como espécie, acabamos de chegar. O fato de que não presenciamos meteoros destruindo 90% da fauna gera a ilusão de que o equilíbrio momentâneo é eterno; nossa estrela viverá ainda bilhões de anos, acredita-se. Não há motivo para preocupação com tropeços na natureza e se os enxergamos fazemos pouco caso, agarrados à ideia de perfeição. E assim medimos a vida com nossa régua de seres que, levando-se em conta a idade do universo, acabaram de surgir. Mas e daí? O azul da gralha, uau, é perfeito, eu mesma falo toda hora.

Enquanto escrevo tiro os olhos do teclado, olho pela sacada e penso que talvez daqui a meses teremos flores incríveis no ipê de nossa calçada. Não penso que jamais me livrarei do deslumbre, a natureza me emociona. Porém quero mesmo me afastar do ideal de perfeição. Isso não significa abrir mão de uma palavra que visita meus lábios com tanta facilidade (diante da luz pintada pelo Vermeer, vou usar que outra palavra, não é mesmo?), mas significa tentar de forma consciente e deliberada não permitir que o ideal que ela representa me sirva de norte, em qualquer esfera da vida. Não é difícil para mim, convenhamos, posto que perfeccionismo é uma entidade abstrata que nunca persegui, seja como mãe, seja como profissional ou em qualquer outra dimensão de minha vida - busco o melhor que posso, sabendo com conforto que sempre haverá falhas em minhas atitudes, riscos em minhas escolhas. Isso não é ode à negligência - entre o perfeccionismo e a negligência existe um lindo e vasto campo. Mas falar e escrever sobre essa busca por um distanciamento consciente de ideais de perfeição pode ser libertador até para alguém que não se reconhece como perfeccionista. 

Penso que reconhecer que o ideal de perfeição é apenas um ideal, não um ingrediente da natureza, pode nos ajudar a ampliar nossa percepção diante de fenômenos sociais, inclusive. Podemos trocar os rompantes cheios de certezas do que seria o único caminho certo na política, por exemplo, por discussões mais humildes que reconheçam as limitações do alcance de qualquer atitude humana, seja individual ou coletiva. Ir além da máxima "ninguém é perfeito" e assumir também que "nada é perfeito". Talvez com ideais mais palpáveis a gente consiga modular melhor nossos diálogos. Afinal, somos parte integrante da natureza. Somos incríveis, temos ideias maravilhosas, mas nada é perfeito. 

Tenho mesmo a impressão de que ideais de perfeição, muitas vezes (mas nem sempre) alimentados por uma ideia divina da vida, mais atrapalham do que ajudam. Perseguir ou adorar um ideal de perfeição traz na carga um tal lote de certezas com potencial para fechar a porta a qualquer discussão que confronte um elemento do lote. Quero manter minhas portas abertas.

Imagem compartilhada no Face a partir da página "Humanity"

Uma vez uma amiga me falou que achava triste a falta de fé. Eu retruquei dizendo que entendo perfeitamente (porque vejo com nitidez) o conforto que a fé traz para muita gente - e por isso abdico de tentar dissuadir quem quer que seja de sua fé. E que não ter o suporte da fé pode sim significar um pouco mais de dor diante, por exemplo, da perda de alguém. Se acredito que a pessoa morreu, mas que sua alma migrou para um reino perfeito, posso encontrar conforto aí. Se não consigo recorrer a isso, encaro a saudade crua. Mas isso não é uma escolha, é o resultado para mim inexorável das perguntas que decidi fazer ao longo da vida. O que acho que não disse naquela conversa com minha amiga foi que tive a impressão de que talvez ela ache que meu mundo é, além de mais difícil, mais feio, já que não gozo das benesses da perfeição de um projeto que prolonga nossa vida. E isso não poderia ser mais equivocado. É justamente, ainda que não só ela, a aleatoriedade da vida que me encanta profundamente. Tudo se transforma num processo levemente louco e por isso mesmo absolutamente poético: o entendimento de que seremos sempre pó das estrelas que explodem e espalham suas sementes de vida pelo espaço. Pode não ser o jeito ideal e perfeito de vida eterna das religiões, mas é a mais linda definição de poesia cósmica que você pode encontrar. E isso me encanta e me alegra de um jeito que nem sei dizer. É mais do que estar no universo, somos parte dele.

Não ser perfeito significa ter falhas. A natureza está cheia delas, mas nos acostumamos a incluí-las no pacote - se me pedem para descrever a natureza, foco na flor, não no terremoto. E, afinal, a que nos serve a ideia de um mundo perfeito? Acabei de ler que, tecnicamente, safiras e rubis devem seu brilho a impurezas de dióxido de titânio em sua composição. Impurezas explicadas pela beleza das flutuações aleatórias descritas na teoria quântica. Pra mim, tão emocionante como o azul da asa da gralha. 

3 comentários:

Luciana Nepomuceno disse...

que coisa maravilhosa você existir e eu estar por aqui, pra ler/saber você. eu não sou muito das naturezas e admirações e talz. modus que eu nem ia ler. mas era post seu, daí eu leio. e releio. e, puxa, obrigada por essa conversa.

Ana Paula Medeiros disse...

Das coisas mais lindas que eu li recentemente. obrigada, Ritinha, muito obrigada!
Sou do teu time. Do deslumbre, do exercício para me afastar do ideal de perfeição, da falta de fé como resultado de um percurso de perguntas, e ainda assim, de intensa percepção da beleza e da poesia que há no aleatório.
Vou já semear essa poeira luminosa que você produziu aqui.

Rita disse...

Oin.
Eu gosto dessa conversa porque acho que a ideia de perfeição ilude e oprime. E na natureza acho que simplesmente não se sustenta. E quanto mais percebo isso, mais me encanta - a nossa sorte imensa. É lindo. E a partir daí, veja só, vou me reconectando com outro conceito, a religiosidade. Longe das religiões, a ideia me remete a uma sensação que me agrada, a conexão com o mundo, com o tempo. Religiosidade como ligação com o todo, observável, ínfima e incrível ao mesmo tempo. Se eu achar outro termo, substituo para ​evitar confusão. Mas é isso, por enquanto. Religar. Ontem estrela, hoje gente, amanhã quem sabe. ;-)

 
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