Das peças que faltam


A boa notícia é que o ossinho quebrado já está praticamente recuperado. Já aparece "colado" na radiografia com um discreto risquinho que, sinceramente, mal consigo ver. O outro lado da notícia é o edema ósseo que precisa de mais tempo para se desfazer. O efeito emocional da notícia foi evidente: agora só sinto dores, não sinto medo. O edema tende a sumir e pelo menos agora sei que as dores não têm relação com a possibilidade de deslocamento do osso ou algo assim. É só dar tempo ao tempo. Em duas semanas devo fazer nova avaliação e, quem sabe, ser autorizada a tirar a bota ortopédica e voltar a botar o pé no chão. 

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O maior desafio desse período de pé imobilizado foi, de longe, lidar com o carnaval. Não iria pra avenida ou passarela, não compraria fantasia, nem queria baile. Mas eu ia acampar. Na serra. Com canyons. Não foi fácil, mas eu precisava consolar a Amanda, então saquei o jogo do contente da cartola e afirmei: "pelo menos meu osso colou". Aí a abracei e deitei ao lado dela na cama, sequei suas lagriminhas. Apagamos a luz do quarto e curtimos as estrelinhas fluorescentes do teto, o brilho dos anéis do Saturno de papel brilhante. Quem não tem barraca sob a luz das estrelas se vira como pode. (Depois vieram dias de sol e o quintal virou seu reino e, com o irmão, ela bem que aproveitou o feriado. Entre câmera escura para ver o eclipse e bolo de laranja, a gente fez de tudo um pouco.)

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Comprei um box na Saraiva online com a Odisseia e a Ilíada. Seguia eu feliz ali pelo Canto XX da Ilíada, reta final da peleja, quando, tchan-ans, descubro que minha edição estava mais capenga do que meu pé: uma falha de muitas páginas, dois cantos omitidos, um outro repetido, páginas com manchas. Para não interromper a leitura - Aquiles estava prestes a enfrentar Heitor - corri pro primeiro ibook gratuito que consegui encontrar: uma tradução para o inglês, em prosa, com nomes latinos dos deuses, mas deu pro gasto. Li ali os dois cantos ausentes e voltei para meu livro banguela. Vou entrar em contato com a Saraiva. Vamos ver.

By the way, gostei muito mais da Eneida do que da Ilíada. Li ambas traduzidas por Carlos Alberto Nunes e obviamente jamais saberei o quanto suas escolhas refletem a cadência dos versos em latim ou em grego. O que sei é que tudo me parecia mais fluente na Eneida, o texto mais bonito, cada canto me empurrando para o próximo. Na Ilíada, oh, dear, muita sanguinolência para pouco desenvolvimento no enredo, viu, Homero - e haja paciência para tanto deus birrento. Dito isso, mantenho a mitologia grega ali no rol das coisas mais divertidas inventadas pelo Homo sapiens. Sempre um prazer com gostinho de infância. 

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No livro faltam páginas, no quebra-cabeças faltam peças. Terminei a montagem de um quadrinho do Avercamp com mil peças - três ausentes, quatro outras repetidas. What is going on, world?


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Os exoplanetas de Trappist 1 - eu me arrepio. E fico pensando em gente como, sei lá, Giordano Bruno. Penso que ele ia curtir a notícia. ;-) Procurar as peças desse quebra-cabeças, o que pode ser mais excitante?

 

5 comentários:

Juliana disse...

Eu li a Ilíada na faculdade com uma professora ótima. Acho que gosto tanto só por causa dela. Eu sabia de cor uma boa parte do primeiro canto.

Que horrível isso de o livro estar incompleto. Parece que a tradução do Carlos Alberto é a mais respeitada.

Hoje em dia faço contação de história pros meus alunos e eles correm pra ler a versão juvenil.

Rita disse...

O Arthur acabou de ler uma versão dá Odisseia também. Curtiu bem, é outro fissurado em mitologia grega aqui em casa.
Bj!

Anônimo disse...

Oi, Rita!
A Ilíada é meio arrastada mesmo, como vc disse 'muita sanguinolência pra pouca ação'. Ao mesmo tempo, tão rica em referências, e em costumes, e dá pra fazer tantas correspondências com culturas modernas que é fascinante. A tradução que vc leu é a mais corrente mesmo, agora se você quiser uma tradução "com emoção", a do Trajano Vieira é uma viagem: ele traduz muita coisa digamos que ao pé da letra; faz o Guimarães Rosa com palavras inventadas por justaposição, é fantástico. Tive aulas com ele, coisa de outro mundo.
A Odisseia é mais gostosa de ler, tem mais ação, aventura mesmo, daria um ótimo filme de sessão da tarde dos anos 80 =P.
Bjo bjo.

Bia Francisco

Anônimo disse...

Ops, me enganei! A tradução que o Trajano fez foi da Odisseia; da Ilíada ele trabalhou na organização da tradução, feita por Haroldo de Campos ;)

Bia

Rita disse...

Oi, Bia!
Que saudades! :-)
Então, a Ilíada me prenderia mesmo numa tradução capenga (minha primeira leitura da Odisseia foi num texto em prosa, daquela série círculo do livro, lembra?), imagina nessa que li. Eu curti, claro, as referências são suculentas demais pra gente não se engalfinhar com o livro. É que a comparação com a indefectível Eneida, lida recentemente, foi inevitável pra mim. Agora luxo é você, né, que ainda compara o texto dos brasileiros com os de Homero (ou seja lá quem tenha deixado os louros - de oliveira - pra ele, né).

Beijos, querida!

 
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