Tic tac?


Uma das primeiras coisas em que pensei quando quebrei meu pé foi nos dias de imobilização que eu teria pela frente. Ainda na rua, sem acreditar naquela dor, sentada na caixa amplificadora que caiu do porta-malas do carro e quebrou meu metatarso, eu pensava "droga, droga, droga!". A situação beirava o ridículo, e eu também pensava com alívio que a caixa tinha acertado o meu pé e não o da Amanda, que estava ao meu lado, mas para além da dor eu chorava de raiva. Horas depois, quando o médico afirmou que eu precisaria de trinta dias sem pôr o pé no chão, achei a coisa meio exagerada. Afinal o raio-x havia revelado uma fratura relativamente simples, que dispensava cirurgia e certamente se consertaria só com a imobilização. Mas um mês? Pensei com otimismo que em quinze dias eu mostraria ao médico que ele estava enganado e retomaria minha rotina, ainda que com cautela. Agora, dezesseis dias depois, preciso respirar fundo e aceitar resignada que um mês parece uma previsão simpática. As dores são muito menos intensas e chegam em intervalos cada vez maiores, mas ainda chegam. O pé incha instantaneamente se o coloco pra baixo, e mexer os dedos é uma aventura à qual não me entrego sem antes respirar fundo. Uso muletas para me deslocar pela casa, mas esses deslocamentos precisam ser curtos se eu quiser evitar que o pé assuma o aspecto de uma imensa batata doce.

Usar a bota ortopédica e não gesso traz algumas vantagens. É possível coçar o pé, tirar a bota para tomar banho (toda uma ciência o banho-saci, nem perguntem), observar o aspecto geral do local da lesão, admirar todas as cores que decoram o pé nesta fase que deixará saudade nenhuma. O problema é que nunca sei se estou regulando a pressão da forma correta. Não sei se devo mantê-la bem apertada ou se isso traz algum risco à circulação. Tenho manchas roxas e verdes por todo o pé, o tornozelo que nada sofreu com a lesão agora é um arco-íris de vasos doloridos. Por outro lado não sei se manter a bota frouxinha pode comprometer o tempo de recuperação do osso quebrado. As muletas geraram uma pequena reação alérgica em minhas mãos que felizmente já retrocedeu. Para fazer as refeições na mesa com todo mundo preciso manter a perna apoiada em uma cadeira lateral, já que um banquinho sob a mesa não é suficiente para evitar o inchaço. A postura torta das costas para compensar a elevação da perna já me rendeu uma contratura muscular na altura das costelas. Ou. Seja. 

Enquanto ossos, tecidos e vasos do meu pobre pé tentam se entender dentro do verão escaldante da bota, passo os dias sentada, com a perna elevada sobre travesseiros e almofadas. É uma sorte imensa gostar de ler se você precisa permanecer dias parada, mas isso não evita o incômodo de ver todo mundo tocando a vida ao seu redor enquanto você só... fica sentada. Tento desenvolver táticas malabaristas para me deslocar com as muletas enquanto carrego alguns objetos pela casa, como um livro ou garrafinha d'água, uma roupa, o que for, para evitar encher tanto o saco das pessoas ao meu redor. Acontece que tenho um talento especial para me lembrar do que preciso assim que me sento.

Mas foi pensando em minhas faltas ao trabalho que me dei conta de algo maior. Além do desconforto físico óbvio, na primeira semana precisei lidar com outra espécie de desconforto: certo constrangimento por ter me machucado. E me vi pedindo desculpas por minha ausência, pelo trabalho que se acumularia e certamente atrapalharia a rotina de colegas. Não era um gesto de gentileza - eu realmente estava me desculpando, torcendo que me perdoassem. Em determinado momento, mal humorada e com dor, me dei conta do absurdo. Não preciso me desculpar por ter me lesionado. E me vi diante de uma situação que me pedia para pôr em prática um mantra fácil de recitar, porém muito mais difícil de converter em atitude: respeite o tempo de cada coisa. A borboleta ainda não saiu daquele casulo e não há nada que a gente possa fazer; o lírio que a Amanda me deu vai abrir, pode apostar; a manga ainda verde da fruteira deve estar perfeita amanhã; o pequeno cantinho do meu corpo que se quebrou precisa de seu tempo. E por mais senso de responsabilidade que eu tenha com meu trabalho, o acidente aconteceu. Mais do que ninguém, lamento por ele, mas minha relação com o tempo precisa me permitir perceber o momento da desaceleração, precisa caber nas lentes que escolhi para olhar o mundo. E me dei conta de que aquele constrangimento era quase um desrespeito com meu corpo. Nós inventamos o tic tac, mas o tempo também tem outras medidas.

Então aqui estou. Ainda lamento, claro. Estou ansiosa pelo resultado do raio-x que farei esta semana e mal vejo a hora de poder acompanhar as crianças à escola nova todos os dias. Não vou acampar no carnaval como havia planejado, minha bicicleta nem me conhece mais - mas meu relógio atual é o osso do pé.

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Entre umas e outras, na semana passada li os contos do Ted Chiang que a editora Intrínseca lançou em tradução de Edmundo Barreiros e com orelha assinada por Braulio Tavares - História de sua vida e outros contos. Ganhei um autor pra admirar - coisa da qual eu já desconfiava depois de me debulhar no cinema com A Chegada, adaptado a partir de História de sua vida. Gostei praticamente de todos os contos - são apensa oito - ainda que o favorito tenha sido mesmo o que inspirou o filme dirigido por Villeneuve. A narrativa intercalando a história pessoal da linguista Louise Banks à descrição do contato com os alienígenas e o entendimento da linguagem dos heptápodes, tal como no filme, faz desse conto uma joia. Esse menino Chiang é um bruxo. Também gostei imensamente de Entenda, sobre superinteligências, d'A torre da Babilônia com seu universo fisicamente distinto do nosso, mas semelhante nas ferramentas de que dispomos para entendê-lo (como bem pontuou o próprio Chiang na sessão "notas sobre os contos" no final do livro), e Gostando do que vê: um documentário, um conto polifônico sobre os prós e contras de se adotar a caliagnosia - uma curiosa condição neurológica induzida artificialmente que impediria o indivíduo de perceber a beleza física das pessoas. A discussão que Chiang constrói nesse conto que mais parece um documentário surreal da Netflix é primorosa. Gosto da forma dos contos e dos temas selecionados por ele. Até onde sei, Chiang tem apenas dois livros publicados - e não sei se o outro tem tradução publicada no Brasil. Tomara que ele tenha uma gaveta abarrotada de contos e que decida nos presentear com eles a qualquer momento.


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Ontem terminei de ver os oito episódios de Abstract, documentário disponível na Netflix sobre design. Cada episódio mostra a produção artística de um fera em diferentes áreas: ilustração, arquitetura, design gráfico, cenografia etc. Com exceção de um sobre design de carros - com o qual não consegui criar qualquer empatia, já que o assunto me dá sonozzzzRONC! - gostei de todos. É verdade que achei o fotógrafo bem afetado (episódio 7), mas a série se paga já nos três primeiros episódios. Vejam, só a arte salva o mundo, vão por mim. 

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Antes de abrir o porta-malas do carro, tenham cuidado, os objetos pesados podem ter se deslocado durante a aterrissagem, quer dizer, durante as curvas e tal.


4 comentários:

TinaLopes disse...

Já passei pela mesma dúvida na pressão da bota ortopédica, que dureza. Melhoras, melhoras, querida. Quanto ao Chiang, vou atrás ;) Bjks <3

Dani disse...

Melhoras, Rita, melhoras!
(e vou confessar que me deu uma invejinha da possibilidade de ficar lendo e assistindo Netflix, que logo passou quando lembrei da dor monstro de deslocar o cotovelo - imagina fratura...)
Mas não tem coisa mais ryca e phyna do que poder ver sessão da tarde ;)

Juliana disse...

Rita, eu não tinha lido esse post aqui. Gente! Como li o outro antes, já sei que vc tá melhor! Ufa!

Rita disse...

Obrigada, pessoas. Vou melhorando, sim. Bj!

 
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