Homo sapiens, Homo deus


Comecei a ler Sapiens - uma breve história da humanidade (Yuval Noah Harari, Ed. L&PM, tradução de Janaína Marcoantonio) sem muito entusiasmo. Criei birra com o título (outra "breve história de...") e estava em outro mood, lendo outras paradas. Porém a premissa da qual parte a ideia central do livro me parece interessante demais para descartar a conversa, então fui. Para a pergunta "O que possibilitou ao Homo sapiens subjugar as demais espécies?" Yuval propõe: nossa capacidade de acreditar em coisas que não existem na natureza - nossa imaginação. Somos a única espécie sobre a Terra capaz de agir motivada por mitos - e de convencer um grande número de indivíduos a partilhar desses mitos.

Com essa ideia tão óbvia a ao mesmo tempo tão reveladora, Yuval se vale de história, antropologia, biologia e, acima de tudo, de uma capacidade invejável de relacionar esses campos entre si para fazer sua leitura da trajetória do Homo sapiens na Terra. O livro abrange desde o surgimento de nossa espécie na África Oriental, há cerca de 200 mil anos, até a atual era dos experimentos genéticos. A conversa boa de Yuval faz a gente se recostar na poltrona (na verdade eu já estava recostada: meu pé tá quebrado, meus dias não têm tido muito agito) e, pé pra cima, passear pelas grandes revoluções que definiram o destino de nossa espécie até aqui - a revolução cognitiva, a revolução agrícola, a revolução industrial. A partir de cada uma delas, Yuval faz ponderações bem interessantes sobre os efeitos dessas revoluções também para o planeta e para as demais espécies animais. Algumas das questões consideradas por ele têm implicações diretas em nossa rotina. Por exemplo, em que se sustenta o conforto com que aceitamos os métodos de produção industrial de alimentos de origem animal? Os exemplos de tortura a que são submetidos animais como frangos, bois e porcos para obtenção de leite, ovos e carne em grande escala são, sem exagero, apavorantes. Yuval usa o tema da produção industrial de alimentos para refletir sobre a relação dos humanos com algumas espécies do reino animal e sobre a capacidade dessas espécies de experimentar sensações que costumamos ver como inerentemente humanas - como a angústia por exemplo. Refletir sobre necessidades emocionais de animais domesticados pelo Homo sapiens é também refletir sobre o nosso meio de vida como sociedade de massa. Nem sempre é confortável.

Outros fenômenos sociais como a invenção de mitos e do dinheiro, a forma como lidamos com conceitos básicos como a definição do que é e do que não é "natural", o papel das religiões e outros credos, o fortalecimento do mercado e dos Estados, tudo é considerado sob a luz dos aspectos biológicos de nossa espécie. Uma vez examinados origem e caminhada, chegamos enfim ao questionamento-mor: onde tanta evolução e revolução vão nos levar; o que nos espera ali na esquina do tempo? 

Os avanços científicos das últimas décadas abriram possibilidades inimagináveis para o Homo sapiens de séculos atrás. Somos o "terror do ecossistema", os senhores do planeta. E temos diante de nós, logo ali, perspectivas reais de avanços ainda mais inacreditáveis - e profundamente transformadores - em áreas como genética e Inteligência Artificial. A ideia mais radical de Yuval nos aponta para um futuro em que tais avanços trarão o fim mesmo de nossa espécie como a conhecemos. Não seríamos extintos, mas irreversivelmente transformados. As perguntas que nascem na reta final do livro são pano pra muita manga: até onde iremos em nossas manipulações genéticas hand in hand com os avanços fascinantes de IA num cenário de fluxo insano de informação? Acima de tudo, que campos ideológicos ditarão esses avanços? Quais os limites aceitáveis para o uso da IA - há limites? 

E, assim, somos lançados às páginas do outro livro de Yuval - Homo deus, uma breve história do amanhã (Cia das Letras, tradução de Paulo Geiger).      

***

Diferentemente do primeiro livro, neste já cheguei salivando. Tendo em mente o gancho final em Sapiens, fiquei curiosa para ver como Yuval examinaria possíveis cenários futuros para nossa espécie com o mesmo formato utilizado anteriormente: numa abordagem que levasse em conta não só a história das relações humanas, mas também a evolução da própria espécie. No fim das contas, achei Homo deus muito mais instigante e envolvente do que Sapiens - e se você puder ler apenas um deles, sugiro este último.

Há poréns. Um desconforto em minha leitura foi a sensação de que o mundo parece um lugar mais homogêneo nas páginas de Homo deus do que é em realidade. Causa estranheza ler que entramos no terceiro milênio deixando para trás os grandes desafios dos séculos mais recentes de nossa história: fome, pragas e guerra. Por razões óbvias, a gente franze a testa: helloooo. Depois de ler os livros, vi a fala de Yuval em dois eventos em que ele faz uma ressalva a essa afirmação - e, afinal, uma ressalva com muito sentido: não é que não precisamos mais nos preocupar com a fome e as pragas; mas o fato de que atualmente elas são frutos de descaso político ou mau gerenciamento de nossas riquezas. Os famintos são vítimas de um sistema de valores, não de carência mundial de recursos. Quanto às guerras, os conflitos em escala mundial do século XX superaram em muito os números de mortos dos conflitos regionais da atualidade. Pela primeira vez na história, morre-se mais por doenças ligadas a alimentação hipercalórica do que de fome, e há mais suicídios a cada ano do que vítimas fatais de guerra e violência urbana (há referência para os dados estatísticos nos dois livros). Na verdade, o futuro chega em parcelas pelo mundo. Então em linhas gerais os desafios que se apresentam para nossa ciência no século XXI são de outra natureza. Qual?

Segundo Yuval, a revolução humanista teria deslocado o foco da fé. Não mais divindades supremas, o humanismo pôs o Homo sapiens em evidência. Para Yuval, contudo, nossa capacidade imaginativa mantém-se na ativa, apenas com os valores não naturais voltados para o ser humano: acreditamos no eu, no indivíduo, criamos uma gama de valores em torno dessas crenças; preparamos e reforçamos os sistemas que nos cercam para cada vez mais valorizarem e defenderem a integridade humana. Yuval então explora o cisma humanista em suas vertentes mais marcantes - humanismo liberal, socialista e evolutivo - para em seguida mergulhar no que pra mim são os temas mais empolgantes do livro: o pós-humanismo, a intrigante noção de divíduo (ao invés de indivíduo), a era dos algoritmos, e as fascinantes estradas que começam a se formar no horizonte da Inteligência Artificial. Noções como eu da experiência x eu da narrativa - e os curiosíssimos experimentos científicos em torno desses conceitos - e o assustador desacoplamento entre inteligência e consciência nos mantêm grudados às páginas finais de Homo deus.

Estamos na era do dataísmo - a religião dos dados. Para Yuval, entramos na era cujo embrião se formou na junção da revelação de Darwin sobre os algoritmos bioquímicos da evolução aos avanços gerados pela invenção da máquina maravilhosa de Alan Turin. Os exemplos atuais de IA e as perspectivas para o futuro recheiam os capítulos finais de Homo deus - e a gente termina o livro com cara de oh, dear.

Talvez você tenha uma leitura distinta de alguns dos grandes eventos históricos analisadas por Yuval. Talvez você não queira saber de onde vem a carne que você come. Talvez você não goste de biologia. Talvez ainda você nunca tenha se perguntado o que importa mais, inteligência ou consciência. Talvez nunca tenha imaginado pra valer onde essa tal de IA pode chegar - e nos levar. Mas eu garanto que depois de ler esses livros você tem grandes chances de ter ao menos um ou dois cafés bem animados com seus amigos. É conversa pra mais de metro.

Ainda não conseguimos prever o futuro - e profecias têm mais a ver com religião do que com ciência. Yuval diz em suas palestras que não se interessa por profecias, mas que entender os rumos que a IA pode tomar é vital para repensarmos, entre outras coisas, a educação formal de nossas crianças - e das gerações que se seguirão. A velocidade já acelerada das transformações em nosso tempo tende a assumir um ritmo alucinante. Como preparar os cidadãos de um futuro assim? Vale ler os argumentos do Yuval nem que seja para rebater cada um deles. Eles são tão bons que rebatê-los demanda argumentos igualmente bem construídos - então a conversa naquele café só pode mesmo melhorar.

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