Buracos na estrada - O Sumiço


Comecei a leitura d'O Sumiço com muita expectativa. Originalmente escrito em francês por Georges Perec, em 1969, e somente traduzido para o português em 2015, por Zéfere, La Disparition tem um apelo curioso: um romance inteirinho escrito sem a letra "e". O Sumiço foi um dos vencedores do Jabuti de Tradução em 2016 e foi aí que fiquei sabendo de sua existência. Não conheço a obra de Perec, mas a internet me contou que ele fazia parte do OuLiPo (Ouvroir de Littérature Potentielle), grupo de escritores que se dispunham a escrever obras a partir de certos limites (malucos) pré-estabelecidos: sem letra tal, com palavras em ordem alfabética e por aí vai. 

Naturalmente, a brincadeira com a estrutura linguística do idioma vale tanto quanto se consiga construir textos envolventes apesar dos limites escolhidos - escrever um romance coerente e minimamente interessante em francês sem sua letra mais frequente é sem dúvida um desafio e tanto. O que dizer do trabalho do tradutor? O traço metalinguístico em La Disparition exige que a letra suprimida seja a mesma na tradução (a história fala do desaparecimento da letra "e" e de estranhos fenômenos associados a ele), portanto nada de substituir o "e" por "a", a vogal mais frequente no português, por exemplo. Entre mortes inexplicáveis numa rede de intrigas e suspeitas, o "e" é um dos personagens misteriosos do livro. Pensemos em todas as escolhas semânticas de Perec que representaram uma dor de cabeça para o Zéfere, como em cada vez que os equivalentes linguísticos em português tivessem a letra "e" - além de todas as usuais dores de cabeça de qualquer tradução. A palavra "trois", por exemplo, parece ter sido amplamente usada por Perec. Pobre Zéfere, não podia escrever "três".

Para os leitores da tradução, a edição da Autêntica é um mimo. Uma sobrecapa que parece visitada por uma traça que teria suprimido a letra "e" do caça-palavras, o posfácio de Zéfere, citações que remetem aos aventureiros que brincam de fuçar os cantinhos dos idiomas - tudo convida à brincadeira.


Então fui que fui. 

Antes de partir pro livro eu tinha lido sobre o processo de tradução, já comecei a leitura munida de muito respeito pelo desafio encarado por Zéfere. E continuo tendo o livro em alta conta por causa disso. No entanto, sendo honesta, não foi uma experiência suave. Mesmo reconhecendo o mérito de Zéfere - alguns trechos inclusive embalaram minha leitura - devo dizer que ler O Sumiço foi como dirigir por uma estrada de chão bem esburacada. A toda hora as escolhas (talvez sofridas, pobre tradutor) salvadoras saltavam aos olhos, me tiravam da história e me jogavam no editor de texto do Zéfere. Bom, é verdade que não faço ideia de como o texto funcionou em francês, talvez em uma façanha digna de nota Zéfere tenha atingido o mesmo nível de estranhamento causado por Perec em seu público francofônico, vai saber. Seja como for, cada vez que eu me deparava com "tríduo", eu queria dormir. Admito a boa escolha da palavra, sem gostar do efeito. Quando não se pode escrever "seis" ou "sete", reconheço que "cinco ou mais" pode ser uma solução, mas uma que sacode o leitor. Obviamente eu jamais faria melhor, só acho que a brincadeira dos OuLiPo tem lá seus limites. Penso que talvez a poesia se preste melhor a experimentos como os do grupo, resultando em poemas bem interessantes.

Em outros momentos, tive a impressão de que o autor experimentava profunda alegria quando conseguia encontrar mais de um vocábulo sem a letra "e" para expressar o que queria. Em êxtase, não conseguia escolher um e então usava todos. Frases lotadas de sinônimos são uma constante n'O Sumiço e me irritaram deveras. "Todos da casa tomaram um susto, saltaram, acudiram, topando com tudo no caminho, ficando malucos, pondo pálida a cútis, assombrados, abismados, abasbacados, com os olhos transidos..." Inúmeras vezes a abundância descritiva me levava a dizer "já entendi" - de novo, num poema seria divertido.

E ainda assim gostei muito de ter lido, por ter me familiarizado com tamanha empreitada. Todas as honras ao Zéfere por seu quebra-cabeças impressionante. Meu incômodo durante a leitura teve muito mais a ver com a natureza da obra do que com o tecido do texto propriamente dito. Vejo os buracos na estrada como inevitáveis num projeto maluco já em sua gênese. 

O livro traz alguns brindes: o diário de um dos personagens misteriosamente desparecido contém uma curiosa compilação de poemas e resumos de romances, tudo, claro, sem a letra "e": lá estão trechos de Bilac, Vinicius, Victor Hugo, a trama de Moby Dick adaptada ao devaneio linguístico de Perec. Divertido.

Pois, recomendo. Para tradutores, imperdível. Os buracos na estrada que me sacudiram podem, talvez, divertir outros leitores. Leitura é pessoal e intransferível, afinal. 



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