As mulheres com quem conversei em janeiro




Quatro almas corajosas se unem para desvendar os mistérios do casarão conhecido como Hill House, lugar com histórico perturbador de eventos supostamente sobrenaturais - ou, no mínimo, misteriosos. Como se não tivessem nada melhor para fazer da vida, Theodora, descolada e desbocada, Eleanor, insegura e ainda assombrada pela morte recente da mãe, e Luke, herdeiro da mansão, aceitam o convite de Dr. Montague, um pesquisador sempre em busca de evidências de fenômenos psíquicos e paranormais, para passar um verão em Hill House. Juntos, os quatro se hospedam na casa, torcendo por manifestações esquisitas. Além do quarteto caça-fantasmas, circula no ambiente a misteriosa Sra. Dudley, criada encarregada de servir as refeições e de dar ao lugar um tom de "quero ir embora daqui". Esse é basicamente o enredo inicial de The haunting of Hill House, de Shirley Jackson (Ed. Penguin Books), publicado em 1959.

Shirley Jackson era estadunidense e Hill House é considerada por alguns críticos literários como uma das melhores ghost stories já escritas. Não sei se chega a tanto, mas Jackson certamente sabia como construir uma boa atmosfera de suspense. Há relatos de certa influência de Jackson na escrita de outros grandes nomes na literatura de terror, como Stephen King - semelhanças de fato existem, vide casas esquisitas enlouquecendo seus hóspedes (#nicholsonfreakingsmile), mas não sei o que é semelhança, estilo, whatever, ou influência de fato. No quesito "susto" Hill House deixou um pouco a desejar - não sou grande leitora de contos ou romances de mistério e terror, mas sei o que é não conseguir ficar sozinha quando se lê um livro, e isso não aconteceu com Hill House. Talvez o forte de Jackson seja mesmo construir a atmosfera, mas nem sempre descambar para o sustão - coisas em que Stephen King não economiza, correto? Seja como for, fica a dica para quem curte friozinho na espinha e pensamentos confusos.

Shirley Jackson morreu em 1965, deixou inúmeros contos e alguns romances.

***

A primeira vez em que ouvi falar com entusiasmo de Toni Morrison foi na pós-graduação. Algumas colegas do mestrado liam e pesquisavam sobre a autora, sempre com muito respeito pelo que chamavam de "escrita poderosa". Meus interesses na época eram outros e os livros de Morrison ficaram esquecidos nas muitas listas de leitura que criei de lá pra cá. Foi quase por acaso que dessa vez finalmente pus as mãos em um livro dela  - apenas para entender do que falavam minhas colegas e para descobrir, com alegria, mais uma autora para admirar profundamente - e, consequentemente, aumentar a lista da vez.

Ler The bluest eye (Ed. Vintage International) foi uma experiência difícil. Não creio que alguém o leia impunemente - conhecer a história de Pecola nos cobra um preço. É preciso respirar fundo para seguir em algumas passagens, é preciso força para encarar as imagens que surgem em nossa cabeça. Morrison desenha a trajetória da menina Pecola com traços multicamadas: não espere vida fácil em sua leitura. Tudo é fundo, tudo dói, tudo é humano. Cada linha nos ajuda e seguir e a tentar entender, e a encarar o espelho e reconhecer nossa crueldade, nossos limites, o horror e nossa gigantesca responsabilidade com as infâncias que nos cercam.

Apesar de Pecola e o ninho triste em que sua vida foi depositada serem o cerne da história, foi o olhar de Claudia quem mais me tocou, a amiga (talvez?) de Pecola que nos conta um pouco de sua história. Foram as páginas narradas por Claudia que mais me comoveram, porque foi nelas que Morrison tão magistralmente construiu o olhar de uma criança sobre outra, e nos mostrou o que talvez os adultos da trama jamais poderiam contar. Há um lado da história de Pecola que só nos é revelado porque Claudia estava lá, também na infância, também no espanto, na dor e na solidão daquele mundo desesperador.

The bluest eye é tão bonito. Não sei resumi-lo. É um livro sobre racismo, claro. Mas é muito mais. É um livro sobre a humanidade que construímos, pobres de nós. Falar do abandono que construímos com nossos valores descartáveis e suas marcas indeléveis demanda coragem de quem lê. É preciso despir a negação, é preciso ser humano para encarar o que de pior o humano tem. E aí encontrar a beleza - que tem formas insuspeitas.

Pecola, menina negra que cresceu em um meio pobre e violento, queria olhos azuis porque acreditava que isso a tornaria bonita. Claudia, menina negra que se rebelava contra as bonecas brancas que ganhava, horroriza-se diante do desejo de Pecola. Basta saber disso para abrir o livro. Tenha coragem e segura nas mãos de Claudia. E dê colo à humanidade, porque nós precisamos.

Toni Morrison coleciona prêmios, entre eles o Nobel de Literatura - foi a primeira escritora negra a receber o prêmio.

***



Ah, Alice, que inspirada estava você quando escreveu esses contos. É verdade que precisei chegar ao último para entender de onde saiu o título da coletânea porque, convenhamos, haja fôlego para tanta perda e susto. Mas cada busca valeu a pena. Quando falei que estava lendo Too much happiness (Alice Munro, Ed. Vintage International), uma amiga me alertou "se você sobreviver ao primeiro conto, siga em frente". E é bem isso, se sobreviver ao primeiro conto. Foi dureza, admito que o livro foi fechado e largado por algumas horas até decidir seguir em frente. Mas li e sobrevivi e voltei aos textos de Munro como sempre volto: sabendo que as muitas páginas de suas longas histórias são um presente feito de escrita rica (falando em rica, já repararam na riqueza vocabular de Munro?) e de personagens com quem queremos conversar e perguntar "mas por quê, criatura?". Às vezes elas nos desconsertam, em outras nos relembram que o mundo é tão maior do que nossas paredes, as de tijolos e também as de pensamentos. Sempre um prazer, Ms. Munro. Thanks again.

Alice Munro é canadense e foi a primeira contista a receber o Nobel de Literatura.  


2 comentários:

Dani disse...

Obrigada pelas sugestões, Rita!
Lembrei muito de vc lendo Penelopiad da Margaret Atwood - uma versão da Odisséia pela visão da Penélope. Recomendo. Deu vontade enorme de ler o original, que vc estava lendo (mas a preguiça ainda reina por aqui).

Rita disse...

Oi, Dani.

Eu li uma tradução da Odisseia há alguns anos. Recentemente li uma tradução da Eneida, do Virgilio, num edição bilíngue cheia de notas de rodapé maravilhosas - um monte de informações não só sobre o trabalho do traduor, mas sobre os mitos também. Bacanérrima. Agora vou ler uma tradução da Ilíada, do Homero, coisa que eu deveria ter feito antes de ler a Eneida (a história da Eneida é toda posterior à Guerra de Troia descrita na Ilíada). Mas antes tarde do que nunca. :-)
Abraços e obrigada pela lembrança (anotei a dica)!

 
©A Estrada Anil - Todos os direitos reservados. Layout por { float: left; }