Our NYC



Nossa Nova Iorque teve alterações de temperatura radicais: chegamos embaixo de muita neve, ficamos surpresos pelo pouso suave - vários voos estavam sendo cancelados naquela noite. Nos dias seguintes encaramos -9ºC e nos enfiamos nos museus; um dia a mais e caminhávamos sem luvas por Riverside a 16ºC. Era nossa segunda vez, de novo Manhattan, de novo seus museus - mas outro olhar, for sure. Ir a Nova Iorque com as crianças tornava alguns endereços obrigatórios - o inevitável American Natural History Museum, por exemplo - e nos levava a ser um pouco conservadores nos planejamentos das caminhadas. Gosto de caminhar para ver a cidade, mas seria razoável esperar que, quase vinte dias depois de iniciada nossa viagem, as crianças merecessem uma agenda mais leve do que a que certamente Ulisses e eu teríamos se estivéssemos sozinhos naquela imensidão. Então mesclamos museus e caminhadas pelos parques com noites preguiçosas e refeições sem pressa, pegamos um táxi aqui e ali, adiamos aquele passeio acolá. Mesmo assim, foi uma semana intensa, que teria sido perfeita não fosse a gripe que se agarrou às crianças na reta final e fez da volta pra casa a viagem do nariz entupido - e da febre. Nada grave, todos se recuperaram bem ao longo da semana que se seguiu, de volta em casa. Em Nova Iorque reencontrei pintores que afagam minha alma, vi o olhar da Amanda brilhar mais que Antares no Haydn Planetarium, vi o Arthur servindo de guia pelo Metropolitan numa aventura só deles dois. Nosso Central Park era branco de uma ponta a outra, nosso West Side era o cenário de You've got mail, apenas sem o Tom Hanks na calçada. O sebo ao lado do hotel não tinha os livros que procurei (ou tinha, mas como encontrar qualquer coisa naquela selva de livros, gente), mas eu trouxe pequenos tesouros encontrados na megastore que inspirou a ruína da pequena livraria naquele filme. Mal acostumados aos paparicos que tínhamos recebido na Pensilvânia e no Canadá, reclamamos do café da manhã do hotel, dos restaurantes lindos com comida ruim e das sirenes intermináveis. Mas reclamamos de barriga cheia, sabendo que logo sentiríamos saudades de mais um período de férias batendo pernas com as crianças (e, para sermos justos, encontramos alguns restaurantes bem bons também e nos estragamos de tanto café nos Pret a manger da vida). Encerramos nossa viagem com Alladin, um musical tão lindo que as crianças ainda hoje cantam e celebram a inacreditável cena do tapete voador. Teve neve como Amanda queria, teve bichos, teve teatro, teve meu Van Gogh porque ele me emociona demais, teve mercado inesperadamente bom, teve planetário pra nos lembrar que somos grandes e pequenos, teve a rua, o mundo, os sotaques, nossos cafés com pain au chocolat porque sim. Foi bem boa essa NYC.


Acho que a relação deu uma esfriada. 





No meio do caminho havia um parque, no outro lado, o acervo de responsa do MET. A visita com emoção incluiu um tour que as crianças decidiram fazer por conta própria, seguindo os benditos audio guides. Levou um segundo de mal entendido para eles acharem que podiam sair da seção onde estávamos - sem nós. A procura nos fez acionar o sistema de segurança do museu - que os encontrou procurando sei lá que obra asiática de sei lá que raio de século numa seção no mesmo andar, mas relativamente distante de onde tínhamos nos separado. Abraços, bronca, lagriminhas, alívio. Passado o susto, reclamaram que o segurança interrompeu a aventura e ainda restavam quatro quadros para o final da tour. Então lá fomos nós, o casal mais sorridente do museu. Grudados, pudemos enfim curtir o deslumbre.

Vermeer, always.


Quadro da pintora francesa Marie Denise Villers.

Monet, mon amour.
 Ele, todo espalhado, maravilhoso.








Olha, Vincent, vim te ver de azul. 

Amanda, feliz com seu Picasso: "pintei esse na escola". Pois.
(Mil etecéteras, só saímos de lá varridos pelos seguranças; só as seções dos europeus já valem o ingresso - que você paga no valor que achar justo - mas há muito mais, há arte para todos os olhares.)

***

Never sleeps...
...mas era no MOMA que estava a noite que eu mais queria ver.
Perdidas no Chelsea Market.

Vumbora pro teatro.
Amanda ansiosa na plateia do lindo New Amsterdam Theatre, que logo iria se incendiar com a chegada do gênio da lâmpada - James Monroe Iglehart em performance avassaladora. 

Pra não perder. Se for a NYC, garanta um lugarzinho e aperte o cinto.
***
No quesito "fazer umas comprinhas", agora somos proprietários de um ukulele. Ulisses toca  "Elephant gun", da banda Beirut, e é a melhor forma de esticar a viagem. 

Quanto a mim, entrei na livraria: procurando outras coisas, meus olhos cruzaram com The bluest eye, da escritora estadunidense Toni Morrison. Eu não sabia, mas estava trazendo pra casa outra viagem tão intensa, tão comovente. Um livro que ficará em mim para sempre, espero conseguir falar dele. Já já.

 
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