De reencontros



"Que se há de fazer com a verdade 
de que todo mundo é um pouco triste e um pouco só."

Releio pouco. É verdade que às vezes volto a trechos de livros e repasso capítulos inteiros, embalada por lembranças de leitura anterior. Também releio contos o tempo todo, procuro aquela passagem resgatada por um outro texto - para ver se é mesmo do jeito que me lembro. E releio para escrever, buscando na prosa dos grandes o conforto que a literatura me dá, procurando as lanternas. Se uma conversa ou leitura qualquer me deixa com saudades de um personagem antigo, vou lá bater um papo, procurar aquele diálogo memorável ou rever um final que me tirou o chão. Reler romances na íntegra, porém, é prática rara para mim. O que não me impede de saber bem quais eu traria de volta ao colo em caso de namoro reatado. De vez em quando volto ao Grande Sertão de Rosa, buscando passagens que marquei em minha primeira leitura, mas sei que nunca é muito. Haverá uma segunda e talvez terceira leitura integral, certamente. Até porque. Né? Releio Marquez aos pedaços também, só pra matar saudades. Releio as meninas de Lygia, só por amor. Releio Shakespeare para que fique. Releio as façanhas de Poirot para trocar figurinhas com o filho que descobriu Agatha. Pego carona nas leituras de outros e vou à estante revisitar personagens que se tornaram amigos de meus amigos, quase uma balada. 

Quando li A hora da estrela pela primeira vez, havia lido pouco Clarice Lispector. Estava
descobrindo seus contos, conhecia um ou dois outros romances da autora (talvez?). O livro ficou em minha memória como uma história curta em texto múltiplo, cheio de pistas. Eu sabia ou intuía que havia mais, que a aparente leveza daquele livrinho encerrava em si outro peso. E não é que eu já não estivesse encantada: porque eu estava. A hora da estrela foi desde o início um livro de amor: quero essa autora na minha vida, quero essa visão de mundo, como pode essa perspicácia, de onde vem esse olhar, meu deus?  Depois voltei aos contos, minha porta de entrada e morada mais quentinha na escrita de Clarice, devorei quantos pude, li outros romances, e nunca voltei ao livrinho que amei. Macabéa assumiu em minha cabeça os trejeitos da personagem de Marcélia Cartaxo na versão cinematográfica; guardei-a em minha caixinha de personagens inesquecíveis, estrela. Agora sucumbi aos encantos da "edição com manuscritos e ensaios inéditos" lançada pela Ed. Rocco para comemorar o aniversário de quarenta anos do livro. 

Foi, como desconfiava que seria, um reencontro cheio de carinho. Reconheci a Macabéa de anos atrás, mas creio que agora a vejo maior (ou seja, ainda mais miúda). Redescobri o narrador e seu jogo (incrível - quero evitar os adjetivos, mas me perdoem) de construção de vida-palavras. A hora da estrela, com suas parcas páginas, pequeno como sua protagonista, é um livro imenso, um livro do mundo. Reler essa história agora me deixou curiosa: que outros reencontros estou perdendo? Por que demorei tanto para voltar? Sem dramas, porém. Sinto-me, na verdade, feliz, daquela alegria que os bons reencontros nos trazem. A hora da estrela é como uma amiga antiga, que conhece nossos piores segredos e por isso nos ama mais, reconhece nossa humanidade, vê o que temos de espelho e o respeita. A hora da estrela é para releituras e lágrimas silenciosas. É para vermos na vidinha crua de Macabéa e no olhar de seu narrador o poder da linguagem. Há livros que com maestria (quase) desnudam as engrenagens da construção do mundo pela linguagem. A hora da estrela é um deles. E é um encanto. Não é um livro mágico, mas um que se propõe a revelar a magia: a palavra é nossa estrada e a matéria mesma de nossos tijolos. 

A vontade é gritar: leiam. Mas prefiro torcer quieta pelos encontros de amor. Talvez seja preciso que A hora da estrela seja (re)lido com carinho e só um pouco de atenção, voluntariamente. Talvez até com alguma distração, por gente desarmada e com a mente aberta. Vou deixar meu exemplar meio deslocado na baguncinha da estante, para que caia em meu colo de vez em quando. Porque a rotina nos distrai e há tanto para ver. "(...) a rotina me afasta de minhas possíveis novidades" e talvez haja muitas a cada releitura. Então vou deixá-lo ali, com a lombada projetada para fora, para que caia e junte pó e eu precise limpar, e ao limpar eu reabra e me sente na poltrona já velha, e me esqueça da água do macarrão no fogo e me lembre de novo do amor, do narrador, de Macabéa, da linguagem que nos faz.

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"Ele falava coisas grandes mas ela prestava atenção nas coisas insignificantes como ela própria. Assim registrou um portão enferrujado, retorcido, rangente e descascado que abria o caminho para uma série de casinhas iguais de vila. Vira isso do ônibus. A vila além do número 106 tinha uma plaqueta onde estava escrito o nome das casas. Chamava-se “Nascer do Sol”. Bonito o nome que também augurava coisas boas." 

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(O objeto livro é lindo - A hora da estrela, Clarice Lispector - edição com manuscritos e ensaios inéditos, Ed. Rocco: a reprodução dos manuscritos rabiscados, corrigidos com anotações sobrepostas numa caligrafia que beira o indecifrável, são um charme à parte. Trechos escritos em versos de envelopes usados, em papéis rasgados e arrancados sabe-se lá de onde, dão pistas da construção de um romance escrito no calor da avalanche de ideias, poucos meses antes da morte da autora. E há os ensaios sobre o livro: alguns pretensiosos, outros honestos e suaves, declarações de bem-querer. Não sei se ela gostaria que fuçássemos seus escritos rascunhados, mas aí estão, pequenas vitrines do processo criativo de Clarice. Pedi licença e olhei.)


Philip, Olga & Alice


Tenho uma amiga para quem a literatura é a maior forma de expressão artística, pelo poder que os livros têm de levá-la a experimentar emoções, tempos e lugares além da realidade. Não sei se eu classificaria a literatura como "a mais" entre as artes, mas é certo que compartilho dessa sensação de alargamento de mundo proporcionada pelos livros. E se não carimbo o rótulo de "a mais" é porque sei que música, pintura e dança, por exemplo, não raro me arrancam do solo e também me lançam num furacão rumo a um reino de Oz distante e diverso. Seja como for, vamos aos fatos: nas últimas semanas, Maugham, Ferrante e Rezende me transportaram da Europa do século XIX à Porto Alegre atual, passando pela Turim de Olga, mais uma das mulheres de Ferrante que se mudaram para meu imaginário. E em cada vez que virei a última página e bati meus sapatinhos, experimentei a sensação inegável de ser uma Dorothy um tiquinho transformada, again and again. É mesmo poderosa essa tal literatura. Vai ver minha amiga genial tem razão.

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Foi a amiga para quem a literatura é o furacão-mor que me emprestou Servidão Humana (Somerset Maugham, Ed. Abril Cultural, trad. Antônio Barata). Um exemplar velhinho de páginas grossas e amareladas, capa dura das séries de clássicos que colecionávamos nos anos 80/90, quem nunca? Levei comigo em viagem de férias e muitas horas de aeroporto - obrigada, Avianca. Foi uma boa estratégia: diante de tanta desventura na vida do inglês Philip, como reclamar de pane em aeronave no solo, não é mesmo? Fui lendo e quase comemorando cada partida atrasada. Servidão Humana é uma coleção de intempéries experimentada em cada fase da vida do órfão Philip. Nascido com uma deformidade física no pé, Philip foi criado sem muito afeto por um tio vigário, num longínquo vilarejo de Kent, encerrado numa rotina circunscrita por valores religiosos e hipócritas, atormentado pelas chacotas no colégio. O alívio acena na esquina quando o jovem descobre o universo infinito dos livros e das perguntas, e, rompendo com o roteiro que lhe fora determinado, troca o início dos estudos superiores pela aventura sempre excitante de conhecer outros mundos. Porém pobre do leitor que acreditar no alívio - que às vezes não passa de certo tom humorístico e sarcástico com que Maugham nos convida a rir das desgraças. O fato é que livrar-se das amarras do medo do fogo eterno não impediu Philip de dar tropeços homéricos. O mote de sua vida bem poderia ser: pode dar errado? vai dar. Confesso que a partir de certa altura comecei a me irritar com tanta escolha equivocada. Nas passagens pela Alemanha e França, em suas duras tentativas de se descobrir um artista de talento, ainda mantive a empatia em alto nível - até porque é fácil torcer por pessoa tão generosa. No entanto, uma vez de volta à Inglaterra, a sucessão de péssimas escolhas quase me fez gritar com ele, meu, please! Mas sou injusta: é nos anos passados em Londres que o título se mostra e se justifica (o original inglês é Of Human Bondage). E talvez aí esteja um dos pontos fortes da história: o reflexo na vida adulta de uma criação carente de afeto, e a quase previsível entrega a relações destrutivas, como vemos acontecer a partir do momento em que Mildred entra em cena. E se determinados traços do protagonista não me arrebataram (o papel da deformidade física, ora central, ora completamente esquecida, por exemplo), vi na fragilidade emocional do homem servo de suas paixões toda a tristeza do menino que ele carregava dentro de si - e muitas vezes dei-lhe colo. E a vida não é bem isso? A criança que fomos segue berrando dentro da gente, puxando teimosa nossa mão, queiramos ou não. É preciso paciência.

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Da melancolia pontuada com certo "humor triste" de Maugham à crueza da narrativa de Ferrante. Dias de abandono (Ed. Biblioteca Azul, trad. Francesca Cricelli) carece de frestinhas de alegria. Desde a primeira linha, quando somos, sem preâmbulos, informados de que o marido de Olga resolveu comunicar o fim do casamento de 15 anos, até o final (com um bem vindo afago no leitor), assistimos à luta de Olga para remontar o quebra-cabeças de seu cotidiano - e de seu equilíbrio psíquico e emocional. A rotina não tem freios: dois filhos em idade escolar, as urgências das tarefas domésticas, a infestação de formigas pela casa, as caminhadas com o cachorro abandonado pelo dono - não há trégua para que Olga pare, respire, enfrente o estado atual de sua vida com dor, sim, mas com sapiência. O enfrentamento será, logo percebemos, em meio à confusão emocional profunda e urgente que atropela e domina a psique da personagem. À beira do precipício, Olga vê sua consciência dançando perigosamente enquanto os filhos adoecem, o cachorro se intoxica, o apartamento é invadido, os amigos somem. Permeando tudo, a linguagem certa e afiada de Ferrante, o tom que salta das páginas e nos sufoca também. Queremos o antídoto, queremos o alívio, o sossego. Respiramos ofegantes e seguimos, como quem tem fé: existe o vizinho, o parque, o médico, a sacada, a própria história, o corpo forte - onde fica a saída? Ferrante nos mostra, mas não sem antes exibir o poder de sua escrita clara, nítida, forte, veloz. Uma linguagem que contém em si o motor do enredo, um título que se revela múltiplo. Publicado originalmente nove anos antes da tetralogia admirável iniciada com A amiga genial, Dias de abandono tem a mesma força, condensada num vertiginoso mergulho nas entranhas de mais uma marcante personagem feminina. Grazie mille, ragazza!


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Se Olga conhecesse Alice, protagonista de Quarenta dias (Maria Valéria Rezende, Ed. Alfaguara), as duas certamente teriam muitas figurinhas para trocar. De abandono elas entendem. Mas talvez as semelhanças parem aí. A Olga de Ferrante tenta recuperar seu equilíbrio colando cacos: a busca é por reencontro - de si mesma, de significados conhecidos, de conforto emocional. Alice, por sua vez, rompe, foge, busca no estranhamento de encontros antes impensados construir um novo sentido que tenha o poder de cicatrizar seus próprios abandonos. Professora aposentada, Alice é convidada pela filha, casada com um gaúcho, a se mudar de João Pessoa para Porto Alegre para que ela, a filha, possa engravidar. A ideia seria poder contar com a avó da criança por perto, e assim aliviar o peso da nova rotina que chega com o primeiro filho. Acontece que Alice não gosta da ideia, gosta de viver em João Pessoa. Lá tem seu mundo, seus amigos, o contato com o mar, sua vida simples de professora aposentada. Diante da recusa inicial, o convite se transforma em insistência, forma-se uma rede de amigos que de repente acham a ideia excelente, os preparativos são feitos, Alice é vencida. Segue para Porto Alegre ressentida, sentindo que foi arrancada da vida que escolheu e construiu para que a filha pudesse fazer a sua a seu modo. Pouco depois da chegada a Porto Alegre, novos rumos se apresentam para a filha, e Alice, tal qual temia, depara-se com o vazio. No apartamento novo, mobiliado pela filha, no qual não reconhece qualquer traço de sua história, Alice se isola no estranhamento de móveis e objetos que não são seus de verdade, ignora telefone e interfone, simula uma viagem. Uma semana depois, sem conhecidos na cidade, sem qualquer tarefa que se imponha em sua nova vida oca, Alice sai. E o que busca em sua saída não tem relação aparente com seus próprios problemas - vai em busca de notícias do filho de uma amiga paraibana, que sumira na periferia de Porto Alegre sem deixar rastros. Alice sabe quase nada: um nome, a profissão do moço, o bairro onde morava quando deixou de dar notícias para a mãe. E como sabe quase nada do rumo que precisará dar à sua própria história, entrega-se à história do Outro e através dela enfrenta sua solidão, enquanto aprofunda seu olhar sobre a cidade, seus moradores mais humildes, os esquecidos dos viadutos e praças, o feio, o sujo, o invisível. Quarenta dias cresce. A narrativa que se inicia em torno do conflito pessoal de Alice ganha contornos cada vez mais amplos na medida em que a protagonista descobre, em sua peregrinação de quarenta dias pela periferia de Porto Alegre, o mundo escondido dos moradores de rua, dos imigrantes, dos muitos que, como ela, desaparecem. A cada encontro, um misto de descobrimento e reconhecimento, evidenciando o humano que une todos nós.

Ao registrar sua aventura, Alice se dirige à boneca Barbie que ilustra a capa do caderno em que escreve. Barbie é a interlocutora muda, silenciosa, sempre jovem, sem coração ou saudades, um contraponto à urgência da protagonista em narrar para não se perder de vez. O caderno da Barbie também somos nós, leitores, que a tudo lemos, curiosos, recebendo pacientes os relatos de cada nova descoberta nas andanças de Alice. A cada esquina, praça ou ladeira da periferia porto-alegrense, uma nova toca de coelho, a corrida, a percepção alterada de nosso tamanho diante do mundo, num diálogo com a Alice de Carroll que permeia toda a narrativa. O sotaque paraibano da protagonista (Rezende, paulista, vive na Paraíba há muitos anos) ecoou em minha cabeça durante toda a leitura. Alice traz em sua voz regionalismos paraibanos inconfundíveis, um ritmo típico na escrita que a todo momento nos remete ao ritmo e jeito da fala paraibana, um elemento de riqueza a mais nesse livro precioso. Imagino o cenho franzido do leitor não familiarizado com algumas expressões, pequenas chances de conhecer variações outras de nossa múltipla fala brasileira; quanto a mim, sorrisos de reconhecimento. O final um tanto brusco me surpreendeu, acho que eu queria mais andanças, outras tocas e chapeleiros. Quem sabe não virá. Alice fecha o caderno, mas cogita reabri-lo depois para passar tudo a limpo. Quem sabe. 


Do que enche o coração


A poucos dias de embarcar em nossa curta viagem de férias pelo Nordeste ficamos, as crianças e eu, doentes. Garganta, nariz, ouvido, cada um teve seu perrengue particular em maior ou menor grau de incômodo e encheção de saco. Na véspera da partida, Arthur foi diagnosticado com otite aguda e entrou no famigerado antibiótico; Amanda tossia como nunca; eu alternava antibióticos com anti-inflamatório. Embarcamos sob a expectativa de um tímpano estourado durante o voo - o que não aconteceu, ufa; a necessaire de remédios era a mais gordinha da mala. Mesmo assim, fomos. Trocamos o frio do Sul pelo "inverno" nordestino. Os remédios fizeram sua parte, a vontade de curtir fez a sua; o ouvido se recuperou, a tosse passou, minha voz voltou ao normal. Fomos ver o casamento de meu cunhado, rever parentes, matar saudades, morrer de comer. Foi bom, aconchegante como receber colo. Foi emocionante, também - e bem quentinho. 

A Avianca contribuiu no quesito resistência. Como nosso maior temor era o tímpano do Arthur, que acabou se comportando lindamente, nem reclamamos tanto assim. Mas é verdade que nossa paciência foi testada: sete horas de espera na conexão, uma madrugada no saguão do Galeão. Já tínhamos ouvido o "tripulação, portas em automático", mas era de mentirinha. Com problemas na aeronave, tivemos de desembarcar e amargar um longo chá de cadeira. Deveríamos chegar em João Pessoa por volta da meia-noite, chegamos na manhã seguinte. Exaustos, descansamos o que deu e fomos nos preparar para a festa. Viva as férias.

***

Nos dias que se seguiram nos cercamos de sol, mar e carinho. Não satisfeitos em brindar o casamento Dudu&Dani, metemos a mão na festa: Arthur entregou as alianças aos noivos, Amanda sacou seu ukulele e cantou uma musiquinha pra eles. O noivo mais feliz do pedaço cantou e dançou todas, a noiva mais poderosa era só sorrisos. Festa é bom. Festa que celebra a alegria de quem a gente gosta é o bicho. Foi lindinho demais.
 
Os lindos, felizes.

Soltou a voz e os dedinhos - rolou até "contrato" com o noivo, cof cof. 
O pajem mais lindo.

***
E os dias foram de lenta preguiça.





Nossa trilha mais legal.




Primo mais legal não há.
  
Quando os pescadores retiravam as redes, as crianças salvavam os peixinhos pequenos demais para a pescaria,
devolviam os coitados assustados para o mar. O cachorro da foto ajudava a retirada da rede, latindo sem parar. 


***
Se João Pessoa foi de festa e praia, o interior testou meu coração. Sempre que volto à casa de minha mãe, ouço sua voz. Dessa vez não foi diferente. Antes de chegar lá, busquei meu sobrinho para passar o dia com meus filhos. E chegar lá com os três netos que ela receberia com o coração em festa foi um silêncio enorme. Eles invadiram a casa tal qual ela adoraria ver e no primeiro minuto já corriam entre o quintal, o jardim, a sala. Faziam muito barulho, certamente, mas o que eu ouvia não estava ali. Levei flores amarelas para seu túmulo, toquei mais uma vez os espaços que foram dela, os lugares em que ela me amou. Muita coisa passa, mas há tanto que ela deixou. A cidade inteira se parece com ela. 

Na cozinha me esperavam abraços valiosos e uma panela de canjica que mexi como nos velhos tempos - com ajuda, ainda bem, haja braço. Comi toda a canjica desse mundo, inclusive raspei a panela com as crianças, melhor ritual ever. Foram dois dias de comfort food para aquecer qualquer coração - galinha caipira, arroz com o molho da galinha, o mamão mais doce, carne de sol, feijão de corda, a bolacha da infância - e muuuita canjica, já falei? Parecia comida, mas era colo. Nem sei agradecer.

***

Tenho uma tia muito querida cuja voz é uma das boas lembranças de minha infância. Não sei explicar o lance da voz - eu gostava do timbre, do tom. Seu abraço era bom, fofinho e com vontade, e em sua cozinha havia o café sempre quentinho acompanhado de tapioca fofinha como o abraço. A frente de sua casa tinha um jardim comprido que eu cruzava correndo sempre que chegava lá. Há mais de dez anos o Alzheimer nos tirou seu abraço e sua conversa suave intercalada por risadas contagiantes. Minha prima gata e sabida cuida dessa minha tia tão querida desde então. Eu não as visitava há anos, que desperdício. Quando cheguei lá agora fui recebida com o mesmo café e a mesma tapioca fofíssima - minha prima, além de gata e sabida, é um doce. E pude ver minha tia. Que me reconheceu imediatamente: É Rita? Se a Avianca tivesse me deixado no aeroporto por outras sete horas, tudo teria valido a pena. Em algum lugar da memória da Tia Tereza eu ainda corro por aquele jardim e ainda peço outro café. Obrigada, prima, obrigada demais. 

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O voo da volta foi tranquilo e pontual, e pude quase acabar a leitura de Servidão Humana. A jornada de Phillip parece enfim se encaminhar para dias menos duros. Quanto à minha, sigo comemorando tanta sorte: para onde olho, no tempo e no espaço, vejo um caminho bom. Até as pedras, se eu olhar bem, trazem luz e cor. ;-) 





A lista sem fim


Tenho um arquivo já velhinho em meu computador com uma lista de livros que pretendo ler. A lista mais cresce do que encolhe, naturalmente, são sempre tantas as obras que gostaria de conhecer, muito mais do que consigo dar conta. Incluo dicas que vejo em todo lugar, seja numa resenha publicada por ocasião de mais um lançamento, em posts de amigos nas redes sociais, nas referências que surgem dentro de outras obras. Por vezes paquero um livro na livraria, adio a compra, ponho na lista. De vez em quando surgem memes sobre dicas de leitura, minha lista ganha mais umas linhas. E assim vai. A ideia é poder consultar o arquivo naqueles dias em que decido acessar a Estante Virtual, ou aproveitar alguma semana de promoção das livrarias virtuais. 

Sempre que abro o arquivo para incluir algum título passo os olhos e vejo que, opa, esse já li no mês passado, retiro o título de lá. O último que risquei morava no rol de vontades há algum tempo, Um defeito de cor. Li o livro de fôlego da Ana Maria Gonçalves há algumas semanas, risquei da lista (como já comentei com amigos no Face, gostei e aprendi muito, apesar de lamentar algumas passagens que considero prolixas demais, extensas demais). Vale muito a leitura, uma obra que resgata tanto da pluralidade de culturas e sotaques das populações negras trazidas para o Brasil como escravos por tanto tempo. 

Passando os olhos por outros títulos em minha lista nesta semana, vi que o livro que estava lendo naquele momento também estava anotadinho ali, num trecho antigo contendo títulos sugeridos depois de um bate-papo no Face. Era O conto da aia. Fiquei pensando no quanto adiei a leitura, ainda que lesse sobre Margaret Atwood aqui e ali e sempre ficasse curiosa. Fui enfim engolida pela adaptação para a TV, assisti a série com o coração na mão, encomendei o livro (esgotado nas livrarias onde procurei, encontrei na Estante Virtual - Ed. Rocco, tradução de Ana Deiró) - e agora posso curtir/sofrer junto. Finalmente vou riscar de meu arquivo esse livro tão inquietante. Por causa da série e das loucuras políticas da atualidade mundo afora, muito tem sido dito sobre a obra, vocês nem devem mais aguentar falar no assunto. De tudo que ela retrata, o mais louco para mim é saber que nada ali foi exatamente inventado. Gostei muito da série, recomendo enfaticamente (se ainda não viu, corra). Dos medos que tenho, um dos mais inquietantes é o medo do fanatismo religioso; talvez por isso a história tenha  me tocado bastante. 

Ter visto a série antes em nada comprometeu o prazer da leitura - pelo contrário, adorei ter a figura da Elizabeth Moss em minha cabeça enquanto avançava pela narrativa em primeira pessoa. Moss é uma atriz incrível e adorei vê-la (e, de certa forma, lê-la) na pele de Offred, a protagonista dessa história tão perturbadora. Mal posso esperar pela segunda temporada, mesmo sabendo que seguirá livre do livro, já que praticamente toda a história criada por Atwood já foi retratada na primeira temporada da série. Queria dizer que deveria ter lido há mais tempo, mas a culpa é da lista - e dos outros que nem chegam a entrar nela (já estou lendo Ferrante outra vez, me aguentem).

O dia daquela


Hoje é o dia daquela que teria orgulho de ver como eu recomendo bem aos meus filhos que sempre levem o casaco. Claro que ela não iria perder a piada e diria "quem te viu, quem te vê". Faria 77 anos e acho que seria linda, miúda, cabeça branquinha, aquele olhar. Quando penso nela "como seria", abandono um pouco as lembranças dos limites impostos pela saúde frágil e penso mais nas nossas piadas particulares.
Ela também diria "que dia você chega?", que era sempre uma pergunta cheia de amor.
Hoje é seu dia. Ainda é, sempre será. Saudades, mãe.

***

(pequeno post publicado no face que agora trago pra cá, para que fique guardado nesse baú azul de minhas lembranças.)

Tea time


Por causa do Kafka hoje pensei em nossa visita a Praga. Lembrei que lá me tornei a louca da máquina fotográfica, um uau atrás do outro. Não importa se uma torre lá no alto, ou se um teto escondido nos confins de um mosteiro: é em Praga, é lindo de ver. Até as gavetas de uma cidade antiga valem muito. Eu gostei dos cantinhos. No castelo, um detalhe; nas ruas, uma esquina mais discreta com aquela vitrine caprichadinha; na lateral da igreja, um vitral; na basílica, um banco velho. Praga é exuberante, mas também brinca de esconde-esconde. Kafka se abrigou por uns tempos num cantinho dentro dos muros do castelo, e a turista boba (eu) visita e pensa, uia, ele escrevia aqui, o moço do inseto. 

Quando viajo tiro fotos e compro canecas. Minha canequinha de Praga também se esconde: se vazia, não nos conta nada; mas é só servir o café que ela abre a cortina. 





Hoje fui de chá. Tomei um gole em homenagem ao moço do inseto, que agora é para mim o moço do processo, e outro em homenagem a mim mesma. Como já anunciam as temperaturas, amanhã o inverno chega. Com ele, meus 45 anos. Sinto-me um pouco como a caneca: quieta, mas capaz de, com um bom chá ou café, revelar uma história boa aqui, outra ali. O tempo não passa somente, ele nos envolve e nos situa. De onde olho agora, a vida me parece uma cidade bonita e antiga: tem umas ladeiras difíceis, umas ruas mais escuras e suspeitas, masmorras até; mas também tem pontes lindas por onde caminho toda boba, o olhar arregalado. Vejo também um monte de saudades. Dos registros que mais gosto atualmente, ficarão o som do piano quando Arthur toca, a voz da Amanda cantando com seu ukulele, Ulisses e eu preparando qualquer coisa juntos na cozinha. De onde olho agora, apesar das curvas loucas do mundo, a vida me parece um dia lindo.



De quem se perde, de quem busca


Dia desses comentei no Facebook que não sou team Lila nem team Lenu. Que minha relação com as personagens de Elena Ferrante é de admiração pela forma como são construídas, não de identificação. Concluída a leitura do quarto livro da série que começou com A amiga genial, a sensação se mantém. Nunca quis escolher entre as duas, e agora posso sentir saudades de tudo, de cada tropeço, especialmente da forma como Ferrante sinaliza que a vida tem perdas irreparáveis e nem sempre há redenção - mas que às vezes a gente pode buscar coforto nas belezas construídas sobre a dor. (Como tantas vezes o fazem as artes, a literatura.)

História da menina perdida (Ed. Biblioteca Azul, tradução de Maurício Santana Dias) avança pela maturidade e velhice das duas amigas, expondo ainda mais as entranhas da periferia napolitana onde nasceram e cresceram. E embora eu esteja agora com saudades de Lenu, a falta se dá mais pela força da história do que por amor à personagem. Lenu me tirou do sério, queria sacudi-la pelos ombros e gritar get a life!; mas sua trajetória cheia de tropeços e péssimas escolhas, de medo e dependência, não era pura. Era também uma trajetória de coragem e fúria, de compaixão e generosidade, de ruptura e reencontro - acima de tudo, uma trajetória de busca pelo autoconhecimento, essa coisa que empurra quem se dispõe a romper margens difíceis de serem quebradas. Quanto à Lila, a Lila das margens sempre incertas, tentei beber na compaixão de Lenu. E no terço final da história, quando o mundo desaba, o que eu quis, de verdade, foi amparar as duas e dizer: ninguém teve culpa, meninas.

Pra mim, é o melhor livro da tetralogia, o mais rico. E vou evitar spoilers, mas quero dizer que achei o destino reservado a Nino um dos pontos fortes do livro. Ao mesmo tempo em que experimentei a satisfação de ver minhas suspeitas em relação a ele se confirmarem, vi com crescente alegria a forma como Ferrante fez oscilar o espaço que ele ocupa na vida das duas amigas. Sua figura está no centro do grande furacão que arrasta a todos na reta final, mas a posição oficialmente periférica que ocupa na vida delas deu ainda mais vigor ao livro, lançou Lila em outra dimensão de si mesma, revelou a Lenu o poder de sua própria libertação - que nunca é total, nada é, mas nem por isso é irrelevante. Ela viu muito bem como a tragédia se formou, e seria quase uma espécie de redenção macabra, não fosse seu caráter forte o bastante para permitir que ela oferecesse ao leitor toda a beleza do final da história - final que dá ao título do livro outras camadas. 

Terminei a leitura comovida. Li o primeiro livro há quase um ano, optei por esperar os lançamentos no Brasil. Valeu a espera, demais.

Pé, Ferrante, Café


O especialista em pé (que chamo mentalmente de escialista) me disse ontem que, na verdade, não, o osso ainda não está totalmente consolidado. É o oposto do que ouvi de outro médico semanas antes: "não se preocupe mais com o osso, vamos agora recuperar os movimentos e tratar a inflamação decorrente da imobilização" e "o importante agora é a fisioterapia". Bem, fui obediente e cumpri regularmente todas as sessões de fisio, caprichando nos exercícios. De fato, recuperei amplitude nos movimentos e a força na perna, voltei a andar normalmente, o inchaço praticamente sumiu. Apenas a coloração esquisita na região da fratura e as dores intermitentes, ainda que bem mais leves, me levaram ao agendamento com o espécialista. Mostrei a ele o exame solicitado pelo outro médico - inadequado e desnecessário, não revelou coisa alguma. Seguiu-se um exame clínico; diante da dor que senti quando ele apalpou meu pé, solicitou um novo raio-x ("vamos pecar por excesso"). E lá está, meu lindo ossinho ainda quebrado, apenas 50% recuperado, outra metade abertinha da silva. Por isso sinto dores, por isso o salto, ainda que baixinho, me incomoda, por isso ainda tanta sensibilidade - quatro meses depois da fratura. 

Não sei mais: é possível que a própria fisioterapia precoce tenha retardado a consolidação do osso - me lembro de, em uma das várias consultas, um dos médicos ter falado "nada de fisio até que o osso esteja plenamente recuperado". Faltou um raio-x no meio do caminho para verificar a quantas andava a recuperação, aparentemente. A frustração é inevitável: não fui negligente. Imobilizei o pé, fiz repouso, me afastei do trabalho, fiquei um tempão sem dirigir, segui a fisioterapia indicada. E agora, quatro meses depois, o espécialista me diz que em trinta dias, caso o osso não esteja recuperado, será preciso imobilizar outra vez. Recomendou um repouso que me fez rir: "ande o mínimo necessário". Oh, dear. Nada de fisio, nada de exercícios físicos, meu pé segue parcialmente quebrado e sinto como se tivesse feito um monte de coisas inapropriadas - mesmo seguindo à risca orientações de profissionais. Pode falar um palavrão?

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O espécialista me lembrou o Freud, calvo e com barba. Fiquei esperando que ele me perguntasse sobre a infância do meu pé, mas não rolou.


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Estou às voltas com um curso de capacitação, aproveitando as horas extras em casa para organizar pendências. Há um reforma na casa sendo planejada e já sinto arrepios. Entre uma coisa e outra, comecei a ler o quarto livro da tetralogia da Ferrante. Claro que foi um erro. A vontade é largar tudo pro alto e comer o livro em uma só bocada. Muito pode ser dito, mas eu fico aqui: como gosto da escrita dela. 

"Em que desordem vivíamos, quantos fragmentos de nós iam sendo lançados como se viver fosse explodir em estilhaços." - I KNOW!!!

"Falou sobre o fim iminente de uma época que (...) declinando, levava consigo todas as categorias que tinham servido de bússola." - I KNOOOOOOW!!!

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A nutricionista me disse que a cafeína atrapalha a absorção dos nutrientes. Respirei fundo e estou fingindo que vou levar isso em conta. Mas todos sabemos que: não. 


A luneta de Galileu


Há uma passagem da peça A vida de Galileu, de Bertold Brecht que valeu a leitura inteira (li uma tradução de Roberto Schwarz publicada pela Abril em 1977). Trata-se de uma cena em que Galileu recebe sábios da corte de Florença para tentar convencê-los de que a Terra e outros corpos celestes se movem pelo espaço. As afirmações de Galileu contrariavam não só a ideia de que a Terra era o centro de tudo, mas também a noção difundida desde Aristóteles de que a Terra, o sol e outras estrelas visíveis estariam fixos a esferas de cristal que sustentariam esses corpos no espaço. Na conversa que segue, um filósofo indignado se recusa a aceitar qualquer afirmação que conteste Aristóteles, outros citam os princípios defendidos pela igreja. Em contrapartida, um discípulo das ideias de Galileu argumenta que Aristóteles não dispunha da luneta, e portanto não lhe era possível enxergar coisas que Galileu era capaz de demonstrar com o uso do novo instrumento.

Com otimismo Galileu insiste que os sábios primeiro olhem o céu pela luneta, constatem com seus próprios olhos o que ele lhes diz. E que só então sigam naquela conversa. Os sábios percebem que se o fizerem terão seus argumentos enfraquecidos. Temem olhar pela luneta e enxergar o que Galileu diz ter visto. Assim, decidem não olhar. E saem da casa de Galileu de peito estufado, "convencidos" de suas verdades: não vamos nos permitir olhar para aquilo que contesta Aristóteles e não vamos trair nossa fé. 

Achei o diálogo um primor, queria vê-lo encenado no palco. Imagino a cara de Galileu diante do medo daqueles que se recusaram a confrontar suas próprias crenças a ponto de não olhar pela luneta, um instrumento que deslumbrava a muitos, numa ótima ilustração do velho ditado que diz que "o pior cego é aquele que não quer ver". O resto da história todo mundo conhece, Galileu foi denunciado à Inquisição. Para não ser queimado vivo como Giordano Bruno antes dele, renegou suas descobertas em público. A peça termina com Galileu já quase cego, recluso pela igreja, ainda produzindo seus escritos que sobreviveram aos ignorantes detentores do poder em seu tempo.

E eu fiquei com a imagem dos sábios se recusando a olhar a verdade pela luneta. Tão atual.  

Ciência, substantivo feminino


Acompanhei pelas redes a espera pelo lançamento no Brasil da tradução de Women in Science: 50 fearless pioneers who changed the world, escrito e ilustrado por Rachel Ignotofsky. Assim que as vendas online foram anunciadas, encomendei um. Aqui o livro recebeu o título As Cientistas: 50 mulheres que mudaram o mundo (Ed. Blucher, tradução de Sônia Augusto) e é tão caprichado quanto me pareceu na fase de divulgação pré-venda. A edição em capa dura traz um resumo da vida e trabalho de 50 mulheres que dedicaram parte de suas vidas a vários campos da Ciência. Mesmo que a grande maioria delas não tenha recebido a atenção dos holofotes como seus colegas cientistas do sexo masculino, o livro mostra um pouco das grandes contribuições do trabalho delas para os avanços científicos que mudam a vida da gente.



Os minicapítulos contém uma página com ilustração, curiosidades e uma citação da cientista, e outra com um resumo de suas pesquisas e trajetórias. Muitas são absolutamente desconhecidas para mim, outras conheci recentemente através de trabalhos das crianças para a escola (como a Hipátia, que o Arthur me apresentou outro dia); somente algumas poucas já me eram familiares.



No meio do livro ilustrações apresentam instrumentos de laboratório. Há ainda um pequeno glossário, uma lista de fontes sobre as cientistas que inclui filmes, sites e livros, e uma breve conclusão atiçando a meninada a se jogar na Ciência.



Pode ser que Amanda decida montar uma banquinha de vender doces quando crescer. O sonho do momento, contudo, é ser cientista, qualquer coisa que a leve para o espaço. A brincadeira do momento é vestir seu jaleco de cof cof cientista, chamar a amiga-colega-doutora e se trancar no quarto brincando de descobrir novos elementos químicos e investigar a matéria escura. Desnecessário dizer que ela adorou o livro.


Um detalhe do livro de que ela gostou especialmente. ;-)
Rachel Ignotofsky é designer gráfica e usa suas ilustrações para difundir educação e formação científicas lado a lado com visibilidade feminina. Para a edição brasileira, a tradução, coordenação e produção editoriais, preparação e revisão de texto, diagramação, coordenação de marketing e divulgação foram realizadas por mulheres. O resultado ficou lindo. Recomendo para curiosos de qualquer idade. 
  

Um resumo



Depois do café que ganhei na cama servido com pãezinhos feitos pela Amanda, reabri a caixa. Para além de todos os clichês, você gostava deste dia. Então reli algumas cartas que você guardou, inclusive um bilhetinho de dia das mães de 2000. Depois da foto para este post, pus o vasinho ao lado de uma foto em que você segura o Arthur no colo, e deixei lá. A rosa foi colhida no nosso jardim, onde agora Ulisses e as crianças instalam a nova casinha para os passarinhos que nos visitam; ela enfeitava a bandeja do café da manhã hoje cedo. O vasinho foi pintado pelo Arthur quando ele tinha dois anos. Se você estivesse aqui ainda, eu teria ligado bem cedo e teríamos tomado café da manhã "juntas". Ou eu teria ido passar esse dia com você talvez. Não há como saber. O que dá pra saber é da caixa cheia de cartas que escrevi e que você guardou. Esse vasinho, a flor, a caixa, o jardim: um resumo bonito de meu dia, de minha saudade. O amor fica.

Carente, eu?

Ei, o que você tá lendo?


Do que você tá rindo? Tem outro cachorro aí?

Tudo bem, eu espero...

Oba, assim tá melhor. Você é tão linda.
Oba, também sou. 

Dúzia


Que seu passo siga firme; sua alegria, presente.

Que sua generosidade seja uma marca e seus sonhos, um motor. 

Que seus amores sejam raízes e, ao mesmo tempo, asas.

Que sua fala ecoe a infância que você teve, cercado de amor e alegria.

Que o mundo lhe pareça fascinante todos os dias.

Que sua força cresça, que sua razão lhe guie - mas que o encanto lhe surpreenda, sempre.

Que você nunca se esqueça de que o amor une, traz leveza e alegria - e dribla tempos e distâncias.

Que seu mundo se mostre vasto, infinito.

Que o carinho que você distribui se expanda ainda mais.



Que seus amigos e amigas enriqueçam seu espaço e que com eles você compartilhe risos, descobertas, empolgação.

Que o planeta lhe pareça colorido, diverso, aberto.

Que você sempre saiba que estou aqui pra você.

Te amo, Arthur.

Feliz aniversário de 12 anos. 


12! Ai, caramba... 


No alto da Serra


(Alerta: a blogueira adora araucárias, fotografa todas.)


***

Imagine um céu absolutamente sem nuvens durante mais de 48 horas. Imagine uma estrada sinuosa margeando rios e vales coloridos pela luz do outono num dia assim. Imagine ainda o friozinho que faz a gente conversar encolhidinho, procurando abrigo nos abraços, pense nos finais de tarde que o sol pinta. Por fim, imagine o céu que se revela lá na mata depois que o sol se põe, longe das luzes da cidade: o sem fim de estrelas sobre nossas cabeças pequeninas. Pois foi assim. A Serra Catarinense tem mil cantinhos, e fomos mostrar alguns deles para as crianças. Escolhemos um lugar reservado, e na companhia de amigos que já se acostumaram a esse negócio de ir procurar um mato pra se esconder tivemos um feriado de sonho. Não levamos barracas dessa vez, dormimos protegidos do frio sob um teto comum - uma festa para as crianças e também para nós. Aquecemos a noite com vinho e conversa e aproveitamos o privilégio maravilhoso de poder visitar lugares tão lindos relativamente próximos a nossas casas. O litoral tem seu charme e seus convites, mas seguir a margem do rio e subir a Serra do Rio do Rastro num dia azul pode ser um regalo dos mais valiosos. Sinto-me renovada, sortuda, cada vez mais deslumbrada com esse planeta absurdamente bonito em que vivemos.


Talvez para as cinco crianças do grupo o ponto alto tenha sido deslizar nas tirolesas sobre um mar de árvores de todo tamanho - ou sobre uma cascata de cerca de 100 metros de queda livre, socorro. Ou simplesmente dormirem juntas num quarto só delas, vai saber. Para o grupo dos mais velhos, fica difícil dizer. Talvez o céu estrelado seja meu candidato mais forte, mas o brinde no mirante da Pedra Furada enquanto o juízo congelava também tem chances, lado a lado com a cavalgada lenta; ou praticamente invadir o quintal rural alheio para pegar o melhor ângulo do pôr do sol - como se Floripa já não nos brindasse com um céu laranja e vermelho no fim da tarde dia sim, dia também. Bom, chega de conversa. Quando o dia nasceu no sábado nem acreditamos na nossa sorte ao ver a cor do céu. Tomamos café já na estrada, todos juntos. E fomos. 

A Serra ao fundo, majestosa, nos chamando.
Não sei o que é mais legal, se ver o mundo do topo ou o caminho até lá.


Elas começam esporádicas, e logo estão por toda parte.



Nós, o mundão lá embaixo e a estrada encravada na serra.

E quando se chega ao topo, o que se faz? Se joga.

Parecem normais, mas eles descem pendurados num cabo em alturas imensas.

A floresta sobre a qual os malucos da foto anterior deslizaram na tirolesa. 
Meu filhote, procurem aí.

E a filhota, que superou o medo e se jogou. 
Foto aleatória de araucária.
Aquele pontinho amarelo é o moço que se casou comigo.

De volta ao chão, sunset hunters.
Invasão de propriedade.

E ainda nem havíamos chegado à pousada da casa escondida no mato. Aí a noite chegou. 


Vou deixar as fotos do céu noturno sem legendas. Todas foram feitas pelo amigo Arvid. Se eu fosse vocês, convidava o rapaz para os passeios e pedia para ele levar a câmera.


 



Brincamos de sky watch e achamos Júpiter brilhante e grande, Arturos piscando loucamente, e outras lindezas.

***

As estrelas da manhã também eram bem lindas.
Como a gente chegou à pousada à noite e só tínha olhos para o céu, não foi uma surpresa desagradável acordar e se deparar com esse "pátio". Oh, dear.
Olha! Uma araucária! (sorry)

Veja só, uma cascata bem alta. Vamos deslizar sobre ela pendurada num cabo? Vamos! Boa ideia!

Cascata do Avencal.

E elas deslizaram como quem voa.

Junta que tá frio.

Vamos brincar de azul?



É bonita a árvore, é bonito o fruto, é bonita a flor. ;-)
Próximo a Urubici, há um pequeno sítio rupestre mal conservado e provavelmente adulterado. Nenhuma placa nos ensina o que quer que seja sobre as inscrições. Data estimada? Simbolismo? Especulações? Na falta, fizemos nossas "análises", cof cof - imaginem.



No fim do dia, colher abóboras.
***

Na manhã seguinte as nuvens esconderam nosso azul. A gente nem ligou. Era dia de pocotó pocotó.

Nonada...
Gaúcha desde ontem.
Partiu.
Antes de descer a Serra de volta a Floripa, subimos um pouco mais para conferir o visual da Pedra Furada. Lá onde o mundo é lindo faz frio.








Encerramos com  uma rápida conferida na tal Véu de Noiva, mas os rios andam baixos e o véu estava fino. 

Parece um momento poético, mas na real eu estava berrando "Amanda, pelamô, tira a mão dessa água gelada".
***

Além de babar com as paisagens, comemos, bebemos e conversamos miolo de pote. Tudo como tem de ser, especialmente o miolo de pote. Pensando bem, especialmente o vinho guardado para uma ocasião à altura - nesse caso, nas alturas. Ou ainda a comilança - a famosa truta com molho de amêndoas não decepcionou, jisuis, que coisa gostosa (se bem que me acabei mesmo foi na carne de ovelha, nham!). A lamentar apenas a falta de estrutura compatível com o número de turistas que circulam por lá. Poucos restaurantes, banheiros impossíveis no café da Véu de Noiva, o péssimo estado da estradinha que dá acesso ao Morro da Igreja (de onde se vê a Pedra Furada), o descaso com as inscrições rupestres. No posto em que paramos para abastecer antes de voltar pra casa a gasolina havia acabado - e o inverno, época de maior movimento na região, ainda nem chegou.

Mas vou brincar de otimista e esperar melhoras. E toda vez que alguém falar "vamos subir a serra?" perto de mim, já vou pegar o casaco, feliz. 


 
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