Sempre vem


Na breve retrospectiva que fizemos no almoço hoje, as crianças elegeram a nova escola como a coisa mais legal de 2017. Eles não têm lembranças ruins da escola antiga, longe disso, mas a mudança trouxe bons ares. Aos antigos amigos juntaram-se outros, o jeito novo de lidar com desafios foi bem recebido por eles. Fiquei então pensando que eles escolheram como o melhor do ano algo que no início nos trouxe apreensões, dúvidas, medo mesmo. Mas que encaramos porque achávamos ser uma escolha coerente, e topamos a "aventura". Vou entrar 2018 com esse pensamento. Que às vezes é preciso coragem, e que, via de regra, seguir o coração pode ser uma boa pedida. Que não é preciso olhar para o caminho que abandonamos como algo apenas ruim - pelo contrário, é bacana trazer junto o que ele plantou de bom. Mas que é essencial encarar o caminho que escolhemos mesmo nos momentos de dúvida, sabendo que recomeçar é humano, possível, às vezes delicioso. Eu acho que 2018 será difícil pro nosso país. Mas vou encarar meu caminho de mãos dadas com meus princípios, vou tentar ter coragem e acreditar que o novo sempre vem. 

A quem passa por aqui desejo que 2018 seja um ano fértil de experiências incríveis, boas descobertas, crescimento e alegria. E com algum espetáculo no meio do caminho, como a vida faz de vez em quando - vamos manter o olhar atento!

Feliz ano novo, queridos!!

Um espetáculo da natureza nos arredores de Santiago, Chile. Dez, 2017.
 

De livros e planetas e pessoas


Um dos últimos livros que li figura em dez de cada dez listas de melhores livros do ano, o que torna irrelevantes todos os comentários que eu venha a fazer a respeito. Ou você não vai lê-lo porque sei lá, ou já sabe que todo mundo indica e vai ler; ou já leu e também o indica. Então me limito a dizer que os contos em Manual da Faxineira, de Lucia Berlin (Cia das Letras, tradução de Sonia Moreira), têm uma atmosfera tão envolvente que acredito ter sentido o aroma dos lugares onde se passam. Certamente senti o cheiro do mar de vez em quando, e o desconforto de um quarto especialmente quente num fim de tarde, ou o aroma artificial de sabão em pó em meio ao barulho das máquinas da lavanderia. Muitas vezes, principalmente, senti o forte hálito  de álcool da narradora e imaginei seu desespero. Não há como escapar. É ler e ser levada.

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O último que li será relido muitas vezes. Já o estou fazendo. Quem acompanha o blog da Fal há tantos anos e/ou já leu seus relatos em Sonhei que a neve fervia (Ed. Rocco), ou saboreou Minúsculos assassinatos e alguns copos de leite (Ed. Rocco), já sabe do que ela é capaz. Em Todo mundo adora Saturno, no entanto, a Fal revela outros anéis. Não sei se todos, desconfio que não, mas outros mais brilhantes e sedutores. Saturno, o planeta-pessoa que sente e navega, que ama e compõe o infinito, é um presente generoso da Fal para nós, terráqueos sedentos de poesia e carinho. Saturno é tão querido que eu não deveria ler outras coisas em 2017 para permitir que eu encerrasse meu ano lembrando que "Saturno sente o vento, e lê o futuro nas folhas de papel sulfite", como quem ama. Ou quem sabe eu deveria ler outros sim, nem que seja para de vez em quando voltar a Saturno e, depois de um leitura triste ou intensa, barulhenta ou enérgica, engraçada ou perturbadora, ler de novo que "Saturno flutua ou plana ou voa ou mergulha e se lembra de você" - e aí me sentir em paz novamente. Obrigada, Fal, por esse livro tão lindo.  

Joy to the world


Eles não param de falar. Gesticulam o tempo todo e por pouco não derrubam os copos da mesa. Riem de tudo, contam piadas repetidas e tiram não sei de onde sacadas engraçadíssimas. São excelentes companhias de viagem, responsáveis por momentos que resgatamos em conversas vida afora. Eles transformam detalhes que passariam despercebidos por nós em eventos de nossas férias. Um café, um passarinho, um cachorro de rua, um nome numa placa, uma palavra engraçada no idioma do lugar. Tudo vira assunto. Que o Natal de vocês tenha esse astral: pequenas coisas, como um caso qualquer compartilhado num café de fim de tarde, transformadas em momentos que guardamos no coração. Feliz Natal, queridos. 















Perto do céu


Atendemos o chamado dos Andes. Visitamos o Cajón del Maipo, um vale aos pés da Cordilheira por onde passa o Rio Maipo. Nosso destino era o Enbalse del Yeso, reserva de água responsável por boa parte do abastecimento de Santiago. Começamos por uma breve passagem pela pequena San José de Maipo, onde fica a pracinha da primeira foto, e seguimos arriba, arriba, arriba. Passamos por estruturas abandonadas que um dia foram utilizadas por mineradores e outros trabalhadores desses confins de mundo e, finalmente, depois de o ônibus que nos levava quase ferver o motor, chegamos a um ponto lá no céu. Ainda havia montanhas acima de nossas cabeças, o cenário árido parecia filme de ficção científica, uma vegetação tímida, mas valente, mostrava sua força e a água represada pintava de verde um quadrinho muito bonito. Estávamos no coração da Cordilheira, e minha respiração sentiu as alturas; mas persisti e caminhei um pouco mais à frente. Valeu a pena cada passo. 

San José de Maipo. Uma pracinha, cachorros pela rua, montanhas all around.


Cidade fantasma que um dia abrigou mineiros, e hoje recebe turistas que brincam de casinha.





Cometocino de gay, todo exibido.

Psiu, me fotografa!



Arriba, muchachos! 




Aqui e ali uma placa nos lembra que esse lado do mundo, de vez em quando, fica nervoso.


Lanchinho para os valentes que chegaram até o fim da jornada.

Depois da descida, parada em um restaurante cercado de verde e das majestosas montanhas - que já nos chamavam outra vez. 
Na recepção do restaurante, onde almoçamos já no meio da tarde, há uma coleção de fósseis de mariscos e várias conchas. São fósseis encontrados na região da Cordilheira, no topo de montanhas, em alturas absurdas. É uma lembrança do impressionante processo que levou à formação da Cordilheira, do embate de forças que moldaram e ainda moldam nosso planeta ao longo do tempo. Bichinhos marítimos, fossilizados em picos que um dia estiveram no fundo do mar. Tão fascinante quanto o cenário.

Nem só de vinho...



Santiago era uma vontade antiga. Com muitas referências positivas, eu já esperava gostar do passeio. Mas, claro, nosso olhar é sempre o nosso, e aquilo que a tantos agrada pode decepcionar muitos outros. Bem, não foi o caso e agora sou mais uma no coral dos elogios. A surpresa veio, na verdade, no sentido oposto: gostei bem mais do que esperava. Não a imaginei tão verde - deve ser a cidade mais arborizada que já vi; nem tão charmosa. Estamos na metade de nossa curta viagem e já sei que voltarei com uma lista considerável de lugares não visitados por falta de tempo. Temos planos de uma vinda futura ao Chile para outros passeios - o sul e o norte do país - e nesses planos Santiago sempre figurou com um ponto de conexão, um lugar pelo qual passaríamos sem olhar para trás. Se de fato voltarmos ao Chile, e eu espero voltar, desconfio que não será bem assim.

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Passeando pelos bairros vizinhos ao de nosso hotel, me gusta mucho a abundância de flores no verão de céu azulíssimo, enfeitando as ruas com prédios de arquitetura moderna logo após uma série de construções com jeitão de mundo velho. No centro histórico, os prédios que meu guia disse serem neoclássicos me fazem querer reler Inês de minha alma. No audioguia, o narrador me diz que Salvador Allende tirou a própria vida no interior do La Moneda - suspiro, "sei". Com histórias bem ou mal contadas, sigo pelos parques e ruas bebendo a cidade com grata surpresa. Mesmo que tantos tenham me dito, olhar Santiago de pertinho tem sido uma pequena festa.

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Os bairros disputam o título de mais arborizado. Os restaurantes de algumas áreas badaladinhas disputam o título de mais acolhedor. A comida é cara, acho tudo caro - em alguns casos, absurdamente caro. O metrô tem preço bom e é bem distribuído, pelo menos para quem vem em visita; algumas estações são lindas e várias delas têm pontos de empréstimos de livros, pequenas bibliotecas. As ciclovias nos parecem irregulares, mas os pontos de aluguel de bicicleta são bem disputados. A lista de museus por visitar me deixa até triste - não terei tempo. Vejo livrarias e universidades aos montes. O calor é forte, caminhamos o tempo todo procurando o abrigo das sombras das árvores. De vez em quando dobramos uma esquina e a cordilheira nos acena do horizonte. Amanhã vamos visitá-la.   



Cerejeira carregadinha numa pracinha qualquer. 
Dispensamos a subida ao topo do Costanera. O preço absurdo do ingresso nos pareceu um abuso. Trocamos pelo teleférico no Parque Metropolitano e não nos arrependemos. A vista da cidade é um deleite.


No teleférico: Arthur, Amanda, Santiago, o Costanera ao fundo, a Cordilheira lá atrás.



O Parque Quinta Normal limpa a vista.







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Árvore carregada, na casa do Neruda.

Nerudas.


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La Moneda. 
Bellavista e seus cantinhos.



Um ponto qualquer do Parque Forestal.


Amanda aproveitando para botar as práticas circenses em dia.

Museu de Belas Artes





Sede dos correios, onde outrora morou Pedro Valdivia - lá vou eu correndo para o livro da Isabel Allende.

Universidades em luta, sempre.



A Cordilheira nos chama no horizonte e cabe numa taça de vinho.

Para além de todo o hype, é lindo, acolhedor, com boa comida e excelente atendimento. Mas como regra, caro. E a gente nem pode comer na mesa-cama...



Um rua banal na Santiago que vimos até aqui é assim, verde.

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Os garçons e vendedores tentam nos atender em português; nós tentamos nos comunicar em espanhol. E viva o portunhol, a língua mais divertida ever, falada fluentemente por essas bandas.

 
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