"É muito melhor esquecer e sorrir"


A Grande Guerra pela Civilização, de Robert Fisk (Editora Planeta, trad. Sandra Martha Dolinsky), me atropelou quando o li no ano passado. São 24 capítulos sobre conflitos internacionais que Fisk cobriu como jornalista ou sobre os quais pesquisou com esmero ao longo de décadas. Os relatos muitíssimo bem documentados são construídos a partir de entrevistas, incursões em campos de guerra durante o desenrolar dos conflitos (como no Afeganistão ou Palestina, por exemplo) ou de investigações longas e profundas sobre tragédias mais antigas (como o genocídio armênio, que ele chama de primeiro holocausto). Por ser escrito a partir do testemunho próprio e por narrar os procedimentos das pesquisas, o livro de Fisk é também um livro de memórias. E talvez por isso seja tão valioso: o olhar do autor não é apenas jornalístico, é antes humano, perplexo.

Chamo esse livro de pequeno curso de História, e é também certamente um minicurso de jornalismo. Fisk se esmera em trazer à tona tantas narrativas conflitantes quanto seja possível, nenhum relato é maniqueísta. O jornalista solidário com o povo invadido é o mesmo que arrisca a vida para tentar retratar a crueldade das retaliações. Seu rol de entrevistados inclui gente como Arafat, Bin Laden e outros líderes, religiosos, déspotas, soldados, generais, políticos, enfermeiros e muitos civis pegos em fogo cruzado - famílias, órfãos, viúvos, sobreviventes da loucura. Fisk chora por todos, e escreve sobre a desolação e a luta pelo poder, pela terra, pela sobrevivência, sobre o ódio e sobre o amor. O livro é um golpe forte em qualquer visão romantizada que talvez tenhamos sobre os valores que empurram a humanidade na linha do tempo. É difícil de ler - não pela teia do texto, nada disso: a escrita fluente e direta de Fisk é didática até; é difícil porque é doloroso. Várias vezes interrompi a leitura, mão na boca, nó no peito, às lágrimas. Não somos um mundo bonito, visto de alguns ângulos, e encarar isso faz do espelho um lugar bem incômodo.

Tenho pensado muito nesse livro nessas semanas por causa de Aleppo. Há um capítulo em A Grande Guerra pela Civilização que, de certa forma, costura todos os outros do livro. No capítulo 19 Fisk não fala exatamente do Irã, do Iraque, dos EUA ou dos EAU, nem da Palestina ou de Israel, ou da Argélia, nem de Sabra e Chatila. Ele fala do mercado internacional de armamentos de guerra, um capítulo fruto de anos de pesquisas sobre o comércio de armas no Oriente Médio. Acho que nenhuma guerra civil ou internacional se explica por um ou dois fatores apenas. Então o mercado de armas certamente não basta para explicá-los, tampouco. Mas ajuda a entender o mundo em que vivemos. E, infelizmente, talvez ajude a responder uma pergunta que tenho visto se repetir nas redes sociais nesses dias: como a "comunidade internacional" pode permitir que a guerra na Síria chegue a esse ponto? Eu não sei o que é a "comunidade internacional" exatamente, mas desconfio que o capítulo 19 do livro do Fisk tenha uma ou duas linhas a acrescentar nessa conversa. A Grande Guerra pela Civilização foi lançado em 2005, mas, de certa forma, ele é sobre a Síria também, nem que seja porque nos ajuda a fugir das narrativas mais fáceis e ingênuas.

"Que linguagem pode abarcar a ciência, a morte e os ganhos de capital em tal escala?"

Voltei ao livro agora para esse post e vou revendo pequenas passagens que destaquei. A linguagem de Fisk é por vezes implacável, em outros momentos tão terna. É pouco provável que seus leitores fiquem imunes aos relatos feitos de dentro dos hospitais infantis iraquianos depois da última invasão estadunidense, assim como ninguém lê o que ele nos conta sobre as prisões de Saddam sem se chocar. Muita coisa ainda será escrita sobre a guerra na Síria, uma história que parece não ter mocinhos, só bandidos e vítimas. Terei sempre muito respeito pelos relatos que o Fisk porventura fizer desse capítulo horroroso de nosso tempo.

***

O título do post é de um poema que emociona Fisk e com o qual ele encerra seu incrível livro. Chama-se "Birthday", de Christina Rossetti. Fisk tem um coluna no jornal inglês Independent (na seção Voices) e tem escrito por lá sobre o conflito na Síria.

De Troia a Roma - Eneida


Diz o mito que quando Troia ardeu em chamas e virou cinzas Eneias reuniu troianos sobreviventes e viajou rumo ao Ocidente para fundar na Itália as bases de Roma, a "Troia renascida". As façanhas de Eneias durante a travessia dos mares ao sul da Itália e costa siciliana, o malfadado amor de Dido - rainha de Cartago - a descida ao Inferno, a luta pela posse da terra dos latinos e, claro, as muitas interferências dos deuses do Olimpo na peleja são o tema dos 9.826 versos do Poema Eneida, de Virgilio. É ler e reconhecer pegadas de tantos que seguiram o poeta. Pra mim, foi ler e reencontrar os mitos da infância via Lobato, e ver um pouco mais de perto a origem de lemas e lendas que relemos mil vezes espalhados pela literatura ocidental. Um pequeno deleite nesses dias em que as guerras e os deuses são outros, mas a humanidade segue oscilando caprichosamente entre a beleza e o terror. Li a tradução de Carlos Alberto Nunes, na edição caprichadíssima da Editora 34, com notas (sempre bem vindas) organização e apresentação de João Angelo Oliva Neto.

O poema Eneida é composto por doze livros (ou capítulos, se quiser). Pode-se dizer que os seis primeiros se assemelham em atmosfera à Odisseia, voltados para a longa viagem desde a Troia destruída até a terra dos latinos. A segunda metade foca na matança propriamente dita (e aqui, claro, a referência é a Ilíada). Portanto Eneida tem de tudo: aventuras, amores, ninfas, deuses intrometidos; e tem também batalhas (incluindo o famoso episódio do cavalo de Troia, narrado por Eneias a Dido quando ele relembra o massacre de que escapou, um dos livros mais legais do poema), cabeças espetadas como troféus, herói invadindo a terra alheia (pra gente ter mixed feelings pelo herói), duelos sanguinolentos, tudo narrado de mãos dadas com as musas - "Como? Falas em vivo escapar, quando vejo que te enfeitaste com as armas dos meus?". Porque, claro, no meio de tudo está a poesia. 

Tudo é trágico, grande, dramático, mexicano, exagerado. Todos os deuses são mais humanos do que eu e você, todos os humanos são capazes das façanhas mais inimagináveis, tudo é absurdo e, para mim, absolutamente sedutor. Não sei quanto a vocês, mas nos anos 80 aquele volume d'Os Dozes Trabalhos de Hércules, do Lobato, me levou para o Olimpo e eu nunca mais voltei (vou lendo Virgilio e pensando em como a Emília xingava Juno). Adoro os dramões. E as explicações de Virgílio para o surgimento e ascensão de Roma podem nem ser exatamente factíveis (não acredito muito que Apolo guiava as lanças...), mas sem dúvida são as mais legais. 

A edição que li é bilíngue, mas meu latim, cof cof... Limitei-me à lindeza da tradução de Nunes. Farei o caminho inverso e só daqui a pouco vou ler a Ilíada. Quem liga? Um clássico é um clássico é um clássico etc. 

Seis anos


Ontem vi A Chegada, um filme terno que me emocionou muito, que me fez chorar por causa da beleza. Há muito o que se dizer sobre ele, eu poderia passar horas conversando sobre, é um daqueles que a gente revê ao longo da vida e fala sempre ah, esse filme. Boa, a sensação de reencontro com a arte, sempre é. Pra mim, foi assim. Mas foi também outra coisa.

Olha aí o dia 09 outra vez. Fala-se sobre muitas coisas interessantes em Chegada - tempo, construção de sentido, linguagem, alteridade. Mas esse não é um post sobre o filme. Então eu queria só dizer que em certo momento a protagonista faz uma escolha. Há várias maneiras de a gente ler essa escolha. Uma delas é vê-la como uma opção pela presença do outro em nossas vidas, mesmo que isso implique, talvez, dor. Eu queria dizer, mãe, que eu continuo escolhendo isso também. Eu brinco de dobrar o tempo e sua mão fica bem pertinho. Claro que dói às vezes, mas só eu sei como é ouvir meu nome em sua voz. Nem que seja quase. I embrace it. Seis anos, um cisco no tempo do mundo. Mas imagina o tanto que poderíamos ter conversado nesse intervalo. Hoje seria sobre Chegada. E eu diria: ah, mãe, tem uma cena tão linda em que ela entende o que a filha dela é. E você diria algo como: eu sei o que uma filha é, ora. E eu diria: eu sei que sabe. E a gente ia rir e falar do clima. Ou do tempo e da distância. E eu ia voltar a falar do filme e você ia dizer que me amava dobrando o espaço e me tocando como agora dobro o tempo e abraço você.

Que saudade das nossas conversas, Dona Berna. 

Ithaca Road


Em 2013 a Cia das Letras enviou alguns autores brasileiros a cidades de vários continentes para que ambientassem romances nesses lugares. O projeto Amores Expressos enviou escritores para Lisboa, Paris, Cidade do México, Praga e outras beldades geográficas. Depois de acaloradas discussões sobre financiamento, que, segundo li, acabou bancado pela editora e pelo produtor Rodrigo Teixeira, o projeto seguiu. Não sem percalços. Houve desistências e pelo menos um lançamento acabou saindo por outra editora, e nem todos escritores envolvidos conseguiram concluir suas obras no tempo previsto. Alguns romances foram rejeitados pela Companhia. Lendo por aí, encontrei referências sobre as dificuldades de se escrever sob encomenda, e bem imagino o quanto a pressão de tempo e tema desafiam escritores. Há resumos da maioria das obras neste link, mas não encontrei relatos sobre os demais livros da série, nem sei se de fato foram lançados. Deles li apenas um, Ithaca Road, do escritor gaúcho Paulo Scott. (Scott esteve em Florianópolis recentemente no 6º Festival do Conto em uma oficina relâmpago que acabou se transformando num ótimo bate-papo sobre as delícias e agruras que cercam a escrita.) 

Ithaca Road se passa em Sydney durante poucos dias na vida da protagonista Narelle, garota neozelandesa que vai à capital australiana para administrar temporariamente o bar do irmão. A narrativa é rápida, a linguagem é crua; os diálogos, inseridos no corpo de longos parágrafos, logo nos fazem prestar atenção à conversa. É difícil saber o quanto da "encomenda" do projeto Amores Expressos pesou nas escolhas do autor, mas Ithaca Road apresenta uma Sydney de gente jovem e cosmopolita - dois adjetivos bem casados no imaginário que cerca a cidade mais badalada da Austrália. Mas Scott vai mais fundo, o livro avança e logo a superfície de modernidade se rasga. Então a gente enxerga nas camadas submersas as brechas do sistema e, lá como cá, os remendos nada nobres nas feridas da população nativa em alusões a conflitos raciais tanto na Austrália como na Nova Zelândia. Na trama central que sustenta a narrativa Narelle não demora a se dar conta de que o negócio do irmão está em apuros e que o buraco pode ser bem down under; entre negociações um tanto tensas com a Justiça e relações quebradiças com o namorado (que se encontra no Brasil) e amigos próximos, Narelle conhece Anna. E em meio a diálogos de quem tem pressa em endereços cool, são o silêncio e o olhar da autista Anna que vão guiar Narelle. 

Certo ar de mistério rondando diálogos finais pode tanto agradar quem curte pontas abertas quanto desagradar o leitor que anseia pela mão do autor nas resoluções todas. Mas foi um outro fator que me saltou aos olhos durante a leitura e me fez lembrar o tempo todo da genealogia do livro. Ithaca Road está recheado de indicações geográficas de Sydney. Se o intuito era apresentar a cidade, o livro é quase um mapa. E se, por um lado, me diverti reconhecendo os lugares que visitei em férias com minha família, por outro lamentei o excesso de referências. Lembrou-me algo que experimentei lendo Travessuras da menina má, do peruano Vargas Llosa - era tanta Paris, quase um overdose (soa absurdo, eu sei). Pois bem, Ithaca Road tem Sydney demais, e isso me soa igualmente absurdo - afinal, concordo com "a beleza arrasadora" da cidade; no livro, contudo, tanto nome de rua e praça e praia quebrou um pouco a fluência do bom texto de Scott. Vai ver Sydney e Paris são armadilhas: é tanta beleza que a gente empacota as histórias nos lugares que nos tiram o fôlego.

*** 

(Falando em Ithaca, terra de Ulisses, ando lendo a tradução de Carlos Alberto Nunes para a Eneida, de Virgilio. E, olha, que coisa maravilhosa. Falo disso já já.)

 
©A Estrada Anil - Todos os direitos reservados. Layout por { float: left; }