As meninas invisíveis


No prefácio de Por que ler os clássicos  (1991), de Italo Calvino, a pergunta o que é um clássico? é respondida a partir da várias perspectivas, cada resposta corroborando a anterior e a ela acrescentando nova camada. Fiz uma brincadeira e tentei vincular cada uma dessas "camadas" da definição de literatura clássica a autoras cujas obras, em algum momento, me tocaram. (Parafraseei várias definições, simplificando-as muitas vezes; quando copiei as exatas palavras do tradutor Nilton Moulin, usei aspas.)

Clássicos são livros que relemos com frequência - para mim, alguns contos de Katherine Mansfield.

Clássicos são livros que se revelam ainda melhores se lidos quando estamos "prontos" para eles, livres das "distrações" da juventude - bom, eu continuo distraída, mas acho que fiz bem em ler Virginia Woolf recentemente. Não sei se teria gostado tanto de Mrs. Dalloway em minha adolescência, tampouco apreciado a maravilha do(a) protagonista de Orlando.

Clássicos "se ocultam nas dobras da memória", invadem o inconsciente coletivo - Mary Shelley teria algo a dizer aqui.

"Toda releitura de um clássico é uma leitura de descoberta como a primeira" ou "Toda primeira leitura de um clássico é na realidade uma releitura" - acho que aqueles que já memorizaram passagens inteiras de Wuthering Heights, a obra prima de Emily Brontë, concordariam com essa premissa.

"Um clássico é um livro que nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer" - há vezes em que, mesmo tendo já nos despedido de alguns personagens na última página, eles continuam sussurrando em nossos ouvidos; penso no garoto que encara o desafio do túnel em Through the tunnel, de Doris Lessing. Pensei nele por dias depois de ler sobre essa pequena e delicada aventura de desejo pela maturidade.

"Os clássicos são aqueles livros que chegam até nós trazendo consigo as marcas das leituras que precederam a nossa e atrás de si os traços que deixaram na cultura ou nas culturas que atravessaram" - pensei numa certa Mme. Simone.

Clássicos têm sempre uma nuvem de crítica pairando sobre eles - Woolf, novamente.

"Os clássicos são livros que, quanto mais pensamos conhecer por ouvir dizer, quando são lidos de fato mais se revelam novos, inesperados, inéditos" - todo mundo fala da Sylvia Plath. Mas é só quando a gente silencia e lê que entende por quê.

Child Your clear eye is the one absolutely beautiful thing. I want to fill it with color and ducks, The zoo of the new Whose names you meditate --- April snowdrop, Indian pipe, Little Stalk without wrinkle, Pool in which images Should be grand and classical Not this troublous Wringing of hands, this dark Ceiling without a star.
"Chama-se de clássico um livro que se configura como equivalente do universo, à semelhança dos antigos talismãs" - Calvino não faz qualquer referência à literatura brasileira, mas vou forçar a barra e chamar Ciranda de Pedra, de Lygia F. Telles, de meu livrinho-talismã. Não sei bem o que Calvino quis dizer com "equivalente do universo", então me agarro às sutilezas de uma história que trata de uma menina e alcança muito além dela. 

"O "seu" clássico é aquele que não pode ser-lhe indiferente e que serve para definir a você próprio em relação e talvez em contraste com ele" - penso num reconhecimento. Algo como ler os contos em Laços de Famíla, da Clarice.

"Um clássico é um livro que vem antes de outros clássicos; mas quem leu antes os outros e depois lê aquele, reconhece logo o seu lugar na genealogia" - demorei para ler Karen Blixen; creio que as imagens que ela cria e descreve n'A Fazenda Africana devem ter inspirado dezenas de escritores depois dela. 

"É clássico aquilo que tende a relegar as atualidades à posição de barulho de fundo, mas ao mesmo tempo não pode prescindir desse barulho de fundo" - Ou, como diria Emily Dickinson:

'Hope' is the thing with feathers—

That perches in the soul—

And sings the tune without the words—
And never stops—at all—

And sweetest—in the Gale—is heard—
And sore must be the storm—
That could abash the little Bird
That kept so many warm—

I've heard it in the chillest land—
And on the strangest Sea—
Yet, never, in Extremity,
It asked a crumb—of Me. 


"É clássico aquilo que persiste como rumor mesmo onde predomina a atualidade mais incompatível" - por exemplo, sempre haverá lugar para a fina ironia de Jane Austen, acho eu.

***


Por que ler os clássicos  (1991) reúne ensaios escritos por Italo Calvino entre 1954 e 1985 e publicados anteriormente em outros meios. Alguns são dedicados a um poema, outros a um ou dois contos de um mesmo autor, outros ainda a um breve panorama da obra de alguém, aqui focando em um aspecto comum a várias produções, ali debulhando uma variedade de elementos que ele julgou dignos de nota. Gosto muito desse livrinho. É possível ler os artigos aleatoriamente, claro, como já fiz algumas vezes. Ou, como o fiz agora, passear pelo livro todo como se os artigos fossem partes de uma unidade maior e formassem uma sequência idealizada pelo autor. Fui lendo, sublinhando, anotando: quero ler isso aqui, isso não me interessa etc. 

E verifico que mesmo o livro tendo reunido textos produzidos ao longo de mais de três décadas; mesmo que esses textos abranjam da poesia à prosa em várias modalidades; mesmo que as obras e autores resenhados se situem num intervalo de tempo tão amplo que inclua de Homero a Borges; e, por fim, mesmo que seu olhar afiadíssimo nos faça viajar por diversos países - EUA, Argentina, Espanha, Itália (claro), França, Inglaterra, Rússia; ainda assim, nenhuma escritora foi incluída na compilação.


A seleção de textos foi feita por Esther Calvino, viúva do escritor - Calvino morreu em 1985, seis anos antes da publicação de Por que ler os clássicos.  Não sei se Calvino escreveu artigos ou ensaios sobre escritoras, não incluídos na seleção de Esther. Sei que falar sobre faz diferença, o que chamamos de História se faz assim. Outro dia li que em O Cânone Ocidental, de Bloom, dentre seus 26 "autores fundamentais", apenas três são mulheres. O silenciamento de escritoras em livros como esses escreve uma história da literatura toda feita por homens. Homens, por sinal, que admiro muitíssimo, que me inspiram e ampliam meu mundo. Assim como tantas mulheres. 

Por que ler as mulheres? Pelas mesmas razões que temos para ler os homens. Porque os clássicos que elas produzem estão também enraizados em nossa memória, ampliam nossa visão de mundo, permanecem. Não nos apequenemos sob a ideia de que tudo se resume a gosto pessoal: Calvino não escreveu apenas sobre seus autores "favoritos". Essa é uma das riquezas de seus artigos, às vezes demorando-se sobre um autor não porque goste particularmente de seu estilo ou argumento, mas porque reconhece nele o lugar que ocupa na história da literatura - mas, de novo, essa história é também feita por livros como o de Calvino. Nesse caso em particular, um livro valioso, mas que parece tratar de um mundo onde mulheres não escrevem.

Voltarei a ele muitas vezes, um velho livrinho de boas dicas. Torcendo, contudo, que a crítica literária faça cada vez mais aquilo que os clássicos fazem de melhor: amplie o mundo, olhe para os lados. As meninas não são invisíveis.

De trilhas sonoras confusas e contas erradas


Hoje errei sua idade. Falei que você ia fazer tantos anos, mas eram outros tantos. Depois pensei que a gente nem conta nada. Quando conta, precisa de concentração: quantos anos juntos mesmo? Aí nos lembramos e dizemos algo como "caramba". Eu só reitero: era um sonho bom esse de seguir com você. Então acho que tá certo: em vez de ficar prestando muita atenção na conta, vamos celebrando. Todo dia, uma celebraçãozinha no coração. 

Mas hoje a gente enfatiza. Feliz aniversário, meu amor. Que a gente ainda tenha muitos e muitos anos juntos. Afinal, a discografia dos Beatles é imensa, ainda tem muita música pra você xingar; e aparentemente aquela banda japonesa mequetrefe que você cismou de ouvir nunca mais vai sair do nosso carro, preciso de você pra me ouvir reclamar. 

No mais, te amo sem reservas, um absurdo. Seja feliz, sempre. 



O que escreve quem


Ando relendo os capítulos de Por que ler o clássicos, do Ítalo Calvino (Cia das Letras, tradução de Nilson Moulin). Um livro sobre livros, combustível para aquelas listinhas que mantemos na caderneta dentro da bolsa, naquele arquivo em word chamado "dicas de leitura", ou coisa que o valha. Ou simplesmente um livro sobre palavras, palavras, palavras, como diria Hamlet. Vou passeando pelos capítulos, pequenos recortes de produções literárias em tempos vários e pensando, meu deus, como a gente fala. Que bom, nesse caso.

Passando os olhos pelo índice, vejo que minhas visitas a esse livro anos atrás se limitaram quase sempre aos capítulos que tratavam de livros ou autores que me fossem familiares. Que bom que os livros nos esperam, pacientemente. Bom mesmo tem sido agora, descobrir que posso vir a me interessar por nomes com os quais nunca flertei. A fala clara de Calvino, sem qualquer afetação, nos abre mil janelas tentadoras, quem sabe o que posso encontrar naqueles campos que nunca cogitei pisar? Ovídio, Defoe, Diderot, vou antevendo as conversas.

E nessa de livro que fala de livro, gente que fala de gente que já foi, nos conta Calvino que lá iam Dante e Virgilio por sei lá qual círculo do Inferno quando se depararam com Francesca e Paolo. O casal, condenado à danação eterna por ter se entregue às tentações terrenas, conta que o beijo que os uniu foi inevitável - Paolo teria cedido à tentação depois de ler o beijo entre Guinevere e Lancelote. Catei da estante minha edição mixuruca da Divina Comédia, só pelo prazer de conferir: 

"Líamos um dia - mero passatempo - o relato de como Lancelote resultara vencido pelo amor. Estávamos sós, desarmados de malícia. Por vezes, nossos olhares, encontrando-se, fizeram suspender a leitura e mudar a cor das faces. Um trecho nos fez sucumbir: ao lermos como a ansiante amada fora beijada pelo febril amante, este que de mim jamais se aparta, toda a tremer, beijou-me a boca. Culpado pois, o livro e seu autor - eis que, aquele dia já não lemos mais."


Calvino que fala de Dante que descreve o efeito de Lancelote na história de Francesca. :-) Gosto desse novelo doido de livro escrevendo o mundo.

Só melhora


Dos três lidos até aqui, História de quem foge e de quem fica (Elena Ferrante, Ed. Biblioteca Azul, tradução de Maurício Santana Dias) foi o que mais me deixou aflita. Enriquecido pelo realce do ambiente político que circunda as personagens e pelo engajamento delas nas convulsões sociais da época, além da entrada "oficial" do pensamento feminista na história das meninas, considero o melhor dos três livros. 

É claro que as transições sociais já faziam parte da narrativa da infância e adolescência das meninas nos dois primeiros. Vem daí, inclusive, boa parte da riqueza dos livros de Ferrante, essa leitura e interação das personagens com os conflitos que cercam e às vezes esmagam suas vidas. Mas em História de quem foge a vida adulta as empurra inexoravelmente para o olho do furacão, para dentro da fábrica, as ruas, para o plano político gritando no ouvido. As formas ao mesmo tempo distintas e entrelaçadas como esse outro plano toca e revira a vida das duas protagonistas nos mantém agarradas ao livro. 

E, claro, existe Nino; e toda a rede de personagens secundários transitando em volta das duas, o riquíssimo mosaico criado por Ferrante, cada criança, cada professor, cada amor, cada amigo ou amiga adicionando dor e cor; e ódio. E no meio da tormenta... o que dizer daqueles laços que aparentemente nunca se desfazem? Como olhar a maternidade nessa muvuca? Mas e aquelas rupturas que vêm como um soco? 

O que será daquele bairro no quarto livro? Que forma terá o mundo delas? Oh, dear. 
 
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