Lírios - e seu prefácio


A edição de Olhai os Lírios do Campo que li (Ed. Globo) traz um prefácio do próprio autor, Erico Verissimo, em que ele diz com todas as letras "não tenho muita estima por esse romance".  O prefácio foi escrito em 1966, quase trinta anos após o lançamento do livro que marcou uma grande reviravolta na vida do escritor. Foi Lírios que o tirou do anonimato e permitiu que ele passasse a viver exclusivamente da literatura. Foi também Lírios que vendeu de carona os lançamentos anteriores, até então encalhados nas livrarias. O Erico que escreve o prefácio de 66 é já o escritor consagrado pela trilogia O Tempo e o Vento e outros livros. Não li O Tempo e o Vento ou qualquer outro romance do autor posterior a Lírios, mas devo dizer que concordo muito com o prefácio de 66.

Muitas obras da literatura parecem pairar acima do tempo. A gente vê na trama do texto as marcas da época em que foram escritas, mas algo na história, na linguagem ou nas reflexões que provocam (ou seja lá o que for que toca o leitor) faz com que nunca percam a validade. "Tinham dado onze horas no cuco da sala de jantar", escreveu Eça de Queiroz em 1878, e o que segue nas páginas d'O Primo Basílio tem potencial para prender o leitor de 2016, mesmo com o cheirinho de mofo. São livros que se transformam numa janela confortável de onde espiamos os brilhos de outros tempos; livros-lunetas. Outros, porém, me parecem vencidos. Foi assim com Lírios. A história de Eugênio e da indefectível (zzzz...) Olívia não bastou para transformar a leitura num bom passeio pela década de 30 do século passado. Eu via quase tudo datado, vencido, aborrecido.

Digamos que a experiência foi salva pela autobiografia do autor que li recentemente. Foi interessante ver a inserção de fatos e personagens da infância e adolescência de Verissimo na construção da história. A profissão de sua mãe emprestada ao pai de Eugênio, ou o professor neurótico de guerra, do colégio interno da vida real, transplantado para o colégio do protagonista, por exemplo. Além disso, é instrutivo ver as referências à ascensão do fascismo e nazismo na Europa de 1938 e o deslocamento do personagem judeu Simão - o horror do holocausto já apontava na próxima esquina da história e essas referências antecipatórias são inquietantes. No entanto, os personagens são quase caricatos. O ganancioso fascista arrogante, o covarde e egocêntrico Eugênio, a insuportavelmente otimista-abnegada-cheia-de-fé Olívia - olha, nem Pollyanna. Concordo com Erico em seu prefácio: alguns traços de seus personagens "parecem inumanos" (referia-se especificamente a Olívia aqui; tenho a mesma impressão de outros personagens também).

Por fim, o livro perde o fôlego no meio do caminho. Quase nada da intensidade de eventos na primeira metade se mantém na metade final. Erico parece por vezes abandonar a história (que já parece mesmo resolvida) e passa a desfilar relatos curtos, paralelos - como se interrompesse a escrita para contar casos. A experiência, pra mim, foi semelhante aos fillers no meio de uma temporada das séries de TV. Erico resume em seu prefácio: "... a história se dilui numa série de episódios anedóticos sem unidade emocional".

Nem tudo é canseira. Há algumas cenas tocantes, alguns bons diálogos. Gosto do Seixas, o amigo de Eugênio com quem ele troca breves ponderações filosóficas no finalzinho do livro, personagem talvez mais solto e convincente do que a Oliviazzzzz. E, no fim das contas, gostei de ter lido - agora sei do que se trata. Já Erico foi mais duro: "Sua popularidade [do livro] às vezes chega a me deixar constrangido." Talvez não fosse pra tanto. Mas entendo e aprecio o olhar crítico e corajoso do escritor mais velho sobre sua própria obra.

Meu primeiro Verissimo foi Saga - desisti no início. Depois, em Solo de Clarinetavi que ele o considerava seu pior livro. Agora, Lírios... Mas sou teimosa. Ainda vou passear por Antares, dizem que o negócio é mais animado por lá. A ver. 

Azamiga


Enfim li o primeiro livro da série napolitana de Elena Ferrante, A Amiga Genial (tradução de Maurício S. Dias, Ed. Biblioteca Azul). Com expectativas geradas pelo fato de que várias pessoas, com cujo gosto literário me identifico, andam festejando o livro, e com todo o risco que tais expectativas impingem à leitura, fui. 

De início, não houve arrebatamento, escrita envolvente, amor, nada disso. O livro foi crescendo em mim, aos poucos. É engraçado, tenho a sensação de que gostei mais dele do que ainda sei, talvez pelo fato de ir lendo e pensando "bacana, mas não é essa purpurina toda", mas: não largava. Li em, sei lá, três dias. Pra mim, neste momento, crianças de férias, eu sem férias, Stranger Things na Netflix (devorei os oito episódios, nham!), foi uma leitura rápida, feita em poucos blocos de poucas horas. O fato é que nas últimas páginas o livro aconteceu

Não sei se pelo clima em que me encontrava - a mesa posta esperando os amigos que viriam pro jantar, Alanis cantando alto na sala - no final fui caindo na cadeira onde Lenu estava sentada, e fiquei observando Lila e toda aquela periferia em um mundo que é Nápoles, mas sabemos ser também cada uma de nossas cidadezinhas, vilas, bairros, nossas infâncias e adolescências quase sempre assustadas (ou não seria adolescência, combinemos, o susto é inevitável). E fui vendo como Ferrante desenhou a identificação tão universal que a gente sente na competição quem é mais sozinho nesse mundo. 

Não amo a Lila, como me parece que várias de minhas amigas que leram o livro amam. Tampouco amo Lenu - aliás, a prova de que me envolvi com o livro mais do que sei é a lembrança, nesse momento, à medida em que escrevo aqui, dos momentos em que eu quis pular no pescoço dela. Mas se o fizesse, o que diria? Ei, vou te esganar porque você faz aquelas coisas que a gente faz: busca sem saber o quê, e vê os precipícios? Vou te esganar por me lembrar o tanto que a gente se mede no olhar do outro? Talvez não tenha sido a atmosfera da sala, nem a Alanis. Talvez tenha sido o fato de que A Amiga Genial não passa de uma introdução, um convite: quer ver o que acontece com essas (e tantas) meninas? E foi nas partes finais do livro que aceitei o convite e me vi comovida, enfim.

"Não houve arrebatamento", mas o segundo livro da série está a caminho e hoje corri para o pacote que o correio deixou. Não era. To be continued.  


What if...


E se a gente abrisse uma passagem secreta no azul daquele céu e escapasse de fininho pra uma tarde de nós duas? Se a gente fugisse em nossas bikes, que tal?

E se a gente pegasse água, biscoito e chocolate, e fingisse um banquete na grama, com brindes de uma aventurinha só nossa?

E se a gente soubesse os segredos do parquinho, os melhores cantinhos, as curvas mais legais?






E se o tempo parasse na nossa tarde?


(Spoiler: não vai parar, amor. O tempo pedala mais do que a gente, vai vendo. Mas tomara que você sempre tenha a alegria em seu caminho. E que nunca nunca nunca perca o mapa para a fonte desse seu sorriso. Faz favor, né. Sua linda.)


De medos, risos e labirintos


Enfim passei alguns dias na tal abadia italiana do século XIV. Segui os passos de Adso de Melk e do frei Guilherme de Baskerville em meio aos torreões da biblioteca-labirinto, entre um assassinato e outro. Em cada coluna da abadia, que imaginei linda, vi soberba, desejo, hipocrisia, fé, perguntas; e, especialmente, poder e medo (quanto mais se impõe o segundo, mais se ganha o primeiro, desde tempos imemoriais, não é mesmo?). Sei que vocês já sabem, mas me deixem repetir: O Nome da Rosa (Umberto Eco, Ed. Bestbolso, tradução de A. F. Bernardini e H. F. Andrade) é uma delícia de livro.

"Stat rosa pristina nomine, nomina nuda tenemus."

Deve caber sob o rótulo de "romance policial", talvez igualmente se preste à denominação de "romance histórico", cada leitor que se divirta do seu jeito. Pra mim, a trama policial serve de boa fachada, vá lá, mas o livro foi como uma catedral que além do colorido dos vitrais vistos de fora me ofereceu o jogo de luz ainda mais interessante lá dentro da nave. A gente vai brincando de polícia e ladrão, imaginando o barato que seria desvendar as esquinas da labiríntica biblioteca da abadia, maravilhando-se diante do trabalho dos escrivães da época (e como não?), mas no fim ninguém se engana: de página em página, o velho novelo da imposição do medo a dominar corações e mentes vai se desenrolando. E aos pouquinhos a gente vai descobrindo as verdadeiras caras do "diabo". Das leituras que a gente deixa pra depois porque não sabe o que está perdendo, não sabe o tanto que a obra diz sobre a força... do riso. Saboroso.

***  

A edição da Bestbolso traz nas páginas finais algumas considerações de Eco sobre o processo de criação do livro. Traduzido como "Apostilas a O nome da rosa" (datadas de 1983; a primeira edição do livro é de 1980), são 35 páginas de brinde para quem está lamentando ter terminado a leitura. As breves seções desse texto são pitadas do próprio Eco sobre as pesquisas para a escrita, sobre a Idade Média e a "criação do mundo" da história, as revisões da obra, a voz do narrador, o leitor imaginado, o romance policial etc.
"(...) Um título deve confundir as ideias, não enquadrá-las."

"(...) Descobri, então, que um romance nada tem a ver, em primeira instância, com as palavras. Escrever um romance é uma tarefa cosmológica, como a relatada pelo Gênese (temos, afinal, que escolher algum modelo, dizia Woody Allen)" - Aqui Eco nos conta que passou todo o primeiro ano de trabalho em torno do livro dedicado à "construção do mundo".

"(...) A luta contra a emoção foi duríssima."

"(...) E eu, que leitor modelo queria, ao escrever?  Um cúmplice, claro, que topasse meu jogo." 
 o/

"(...) Há dois anos venho me recusando a responder a questões ociosas. Do tipo 'sua obra é aberta ou não?' Que sei eu, isso não é comigo, isso é com vocês. Ou então: 'com quais de seus personagens você se identifica?' Oh, Deus, mas com quem se identifica um autor? Com os advérbios, é óbvio." 

"(...) cada um tem uma sua ideia própria, geralmente errada, sobre a Idade Média. Somente nós, monges daquela época, conhecemos a verdade. Só que, ao dizê-la, somos às vezes levados à fogueira." 
:-)

***

Quando Eco morreu, em fevereiro deste ano, lamentei. Hoje, lamento muito, muito mais. 

Scream


"I was walking along the road with two friends -
the sun was setting - 
I felt a sort of breath of sadness - 
The sky suddenly turned blood-red - 
I stopped, leaned against the fence, deadly tired - 
looked out over the flaming clouds, like blood and swords
above the bluish-black fjords and the city - 
My friends walked on - I stood there quaking with angst - 
And I felt as though a vast endless scream hang through nature."


Edvard Munch 
(no capítulo "Written texts by Munch related to Scream", 
em The Scream, Munch Museum - Ed. Vigmostad Bjorke)
(Thanks, Lili.)

Episódio de hoje: O Plano


Tudo começou num dia de inverno azul...


- Que tal dominarmos o mundo?
- Legal. Vamos reunir o pessoal.
- Pessoal, o plano é o seguinte...
- Beleza, eu levo a bola. 
- Acho que esse é o melhor caminho.
- Vamos.
- E aquele ali, não vem?    
- Depois, agora tô de boa.
- É cada ideia...
- Okay, vamos continuar com o plano. 
- Quem tá no comando?
- Eu!
- Alô, Mundo? Prepare-se!
- À vitóriaaaa!!!! 
- Partiu!!
 ***

E o dia seguiu, o mundo dominado, cada hora mais lindo. Até que a Lua veio e mandou todo mundo guardar as bikes, tomar banho e ir pra cama. 

***


Fim (ou não)

Quase sem querer - Arthur e a tocha


A caminho do café, o sinal fechou e parecia que nunca mais ia abrir. A gente ficou lá esperando, que remédio? Quando finalmente ficou verde, ninguém se mexeu. Arthur, com fome, reclamou. Aí estiquei o pescoço e vi os cones. O trânsito estava interrompido e a pista do lado, em sentido oposto, vazia. Certamente era a tocha, sabíamos que ela estava circulando pela cidade, apesar de não termos dado muita bola para a passagem. Cinco minutos antes tínhamos comentado que conduzir a tocha tem um significado bacana para quem se envolve de perto com esporte. O simbolismo é mesmo bonito - sair da Grécia, convocar a todos, venham ver homens e mulheres buscando seus limites, venham todos. Mas a gente levou o domingo em outras vibes. Até ali. 

O trânsito parado não nos deu escolha. Saímos do carro, o casal de amigos no carro à frente também. Ficamos curtindo o friozinho de final de tarde no canteiro que divide a rua. E lá veio ela. Não sei quem a conduzia naquele momento, mas aplaudimos, demos vivas. Arthur ficou animadíssimo, todos ríamos da coincidência - muita gente se organizou pra ver, esperou em vários pontos da cidade. A gente ganhou a tocha praticamente em nossas mãos, de presente. Foi bacana, apesar de tudo que ronda esses jogos (falo disso depois, talvez). Esporte é um troço, né, o frio na barriga. Por fim, a equipe de TV abordou o Arthur que, todo feliz, disse que nunca vai esquecer o momento em que viu a tocha olímpica pela primeira vez. Perdemos o pôr do sol que queríamos ver num café da Lagoa da Conceição, mas nem reclamamos.

***
 
(O engraçado da história: a repórter perguntou algo como "você, que esperou tanto pra ver, o que achou?". Depois, diante de nossos sanduíches, comentamos como seria engraçado se o Arthur tivesse dado uma resposta na vibe "o sincero" - "Na verdade, não esperei nada, até reclamei do trânsito parado porque tava como fome, mas, né, já que estávamos aqui e tal...")

O tempo, os ventos e o solo (de clarineta)


Um contador de histórias, assim se definia Erico Verissimo. Depois de contar muitas delas - mais de vinte romances, contos, livros infantis e os sete volumes d'O Tempo e o Vento - decidiu contar a história do contador. Solo de Clarineta, volumes I e II, encerrou a carreira do gaúcho. Com sua morte, a autobiografia, projetada para ser lançada em três volumes, foi interrompida durante a preparação do segundo livro. "Vou fazer o possível para continuar vivo e ativo por muito tempo", escreve ele em conversa com o espelho que o interroga: o ato de escrever a biografia é, afinal, uma despedida?

Não deveria ser. Verissimo deixou escritos, listas e rascunhos que apontavam para novos projetos. Morreu aos setenta anos. Ainda que cansado e convivendo com o fantasma do problema cardíaco que o acompanhava há anos, a impressão que fica é a de que ainda tinha histórias para contar.

E ele gostava de contar. Diante de seus relatos cheios de minúcias, parece evidente que a fonte era farta. Nas passagens em que descreve jantares e conferências, dos tempos em que atuou junto ao Departamento de Assuntos Culturais ligado à OEA ou de sua passagem por Portugal em 1959, a leitura chegava a ser, para mim, cansativa. Cada nome, rosto ou detalhe recebe uma descrição, uma nota que seja. Felizmente, o contador logo retoma um ritmo mais amigável - eu seguia lendo, com alegria. 


O primeiro volume cobre desde a chegada dos Verissimos ao Brasil, vindos de Portugal no início do século XIX, ao lançamento d'O Tempo e o Vento (Continente). Foi de longe meu volume favorito pela narrativa com tons de "contação" de história, como se diz aqui no sul do Brasil. A infância do menino com uma árvore no quintal e um livro no colo, um lar com as dores de um casamento infeliz, o colégio e os horrores da matemática (Verissimo era péssimo com números, destetava-os), a farmácia da família, a transformação do pai bonachão em persona non grata, os fantasmas que nasceram com a derrocada do pai, a rotina do pequeno município de Cruz Alta no interior do Rio Grande do Sul nas primeiras décadas do século XX... tudo é elemento digno das melhores histórias. No caso, uma história que caminha para um final feliz, de sorte e acertos, mas nem por isso livre de grandes e imponentes sustos e dores. Gostei de saber da trajetória vitoriosa do rapazote que escrevia contos em papel de embrulho, escondendo-se do chefe do armazém onde trabalhava, e se transformou em ícone da literatura de um país. Uma história boa.

O início do segundo volume nos apresenta ao grave problema cardíaco do escritor já famoso. Recuperado de um enfarte, Verissimo se lançou em viagens pela Europa. Os relatos dessas viagens praticamente preenchem todo o segundo volume da autobiografia. Como apreciei muito as narrativas do primeiro, mais voltadas à vida e à obra do escritor propriamente ditas, fiquei mais distanciada do segundo - que tem mais cara de livro de viagens do que de biografia. Ainda assim, fiz lá umas marquinhas em minhas passagens favoritas. E se um dia visitar Portugal, certamente voltarei a ele. Verissimo virou Portugal de cabeça para baixo. Tem-se a impressão de que não houve cidade não visitada, escritor português não mencionado, universidade ou templo não contemplado. É quase uma homenagem ao país de Eça. E de Camões. Pessoa. Camilo. Todos.

Ao longo dos dois volumes, a presença/ausência do pai Sebastião Verissimo nos dá uma ideia do gigantesco papel que ele teve na vida do autor - cada referência ao pai é tocante, ainda que tantas vezes carregada de dor. Em todos os capítulos, o tom que vi era o de um homem deveras solene, erudito, amante das artes e da liberdade. Humanista agnóstico, Verissimo gostava de templos (como eu - e o entendo tanto nessa aparente contradição) e definia sua rejeição à violência e seu amor à liberdade e a ideiais de justiça social como uma experiência religiosa, de comunhão. 

A edição dos dois volumes pela Cia das Letras tem muitas fotografias, além de desenhos, rascunhos e roteiros do escritor. O segundo volume traz ainda algumas cartas datilografadas, entre elas uma para o casal Clarice Lispector & Maury Gurgel Valente (1957), outra para (minha adorada) Lygia F. Telles (1970). A segunda parte desse mesmo volume traz nota explicativa do organizador da edição, Flavio L. Chaves, marcando a interrupção da escrita devido à morte de Erico. Flavio sinaliza o que é rascunho, e o que era texto já editado nas páginas finais. Por fim, presenteia o leitor com duas versões para a finalização do livro, o tal diálogo com o espelho (mesmo sem ter escrito todos os capítulos, Erico já havia preparado o desfecho do último volume; uma segunda versão foi encontrada, entre rascunhos). E então entendemos o porquê de a obra se chamar Solo de Clarineta.

É sobre a vida no interior do Rio Grande no século XX; é sobre o amor à literatura; é sobre ser artista; é sobre a liberdade; é sobre relações pai/filho; é sobre os ventos que levaram o contador a viajar pela Europa - ventos da Grécia, Portugal, Holanda, Espanha; é sobre o repúdio às ditaduras; é sobre o lar que buscamos ter. E é sobre a obra do Verissimo que, enfim, quero ler. 

Plano de fundo


Quero contar à parte de você que vive em mim o que fiz no dia do seu aniversário.

Não tivemos pressa de sair da cama, Ulisses e eu. Aproveitamos com folga a manhã de domingo, sentindo um a companhia do outro, saboreando o conforto de estarmos juntos. Quando a fome veio, passamos um café fresquinho, comemos qualquer coisa e voltamos pra cama. Deixamos um pouco da claridade entrar por uma fresta da cortina e, no silêncio de uma casa com crianças ainda dormindo, lemos nossos livros, fizemos planos para a semana que começa já. Quando as crianças acordaram, arrumamos uma coisa aqui, outra ali, e fomos juntos ao mercado. De volta pra casa, Ulisses fez nosso almoço. Comemos juntos, brindamos. Passei toda a tarde na cozinha fazendo bolos. Acho que você iria preferir o de laranja, é um palpite forte. No início da noite, fomos ao cinema. Voltamos pra casa falando que você faria 76 anos hoje. Amanda cantou parabéns. Arthur me deu um abraço. 

Tenho muito carinho pelo banal desse dia. Nada aparentemente grandioso, pequenos prazeres sem muito barulho. E, no entanto, é o melhor de mim. Minha bolha da qual eu tanto gostava de falar com você. Gosto do que vejo em primeiro plano, mas sei também do plano de fundo, sua mão. Em seu último aniversário, há seis anos, eu disse que trazia sua mão sempre segurando a minha. Ainda é assim. Então é banal, mas é tão bonito.

O dia 03 ainda é seu dia, todos os anos.
***

Há dias uma neblina paira sobre os morros que cercam meu bairro. De nosso quintal vemos uma nuvem estacionada sobre a mata, como algodão doce, contrastando com o fundo azul do céu. É um fenômeno meteorológico certamente comum; e tão bonito. 

Espírito corujolímpico


Essa foi a semana das Olimpíadas do colégio, a primeira da turma do meu filho. A concentração nas salas foi trocada pelo barulho das arquibancadas. No lugar dos livros, tabelas e banners, enquanto o uniforme de uma cor só dava lugar ao colorido das equipes. Mochilas foram esquecidas. Mas se é verdade que as salas ficaram vazias, não é nem de perto verdade que eles não tiveram aulas. Pois tiveram, algumas bem difíceis, inclusive. Aprendizado foi exatamente o que se viu, e tenho cá comigo que alguns ensinamentos desses dias de aparente "folga" ocuparão seus corações por muito tempo.

Eu tenho minhas birras com o modelo tradicional de ensino, que praticamente domina a metodologia do colégio onde meus filhos estudam. Então vi com gosto esses dias fora da curva, em que eles precisaram botar a mão na massa e sentir na pele o que é, de verdade, planejar, organizar, trabalhar em equipe, buscar um acordo, respeitar o voto do outro, treinar, trocar horas de sono por compromissos nas primeiras horas da manhã, bolar estratégias, compensar fraquezas, valorizar os pontos fortes de cada um. Não é pouca coisa.

Às vezes a gente leva tempo para perceber o valor de pequenas vitórias quando elas estão acompanhadas por derrotas mais evidentes. A reflexão normalmente só vem depois da frustração, mas ela chega. Então essa foi uma semana de aulas bem produtivas. Do pouco que tive a chance de observar, percebi que a turma do meu filho avançou nos seguintes quesitos (todos muito úteis naquela matéria conhecida como "vem, vida, tô encarando"):

- Saber ouvir. Foram semanas de discussões acaloradas sobre os logos das camisetas, levantamento e uso de patrocínio, o que fazer no desfile da equipe na abertura dos jogos etc. A cada dia, ver a necessidade de balancear sua opinião com a vontade do outro. Dos exercícios mais desafiadores, e acho que se saíram com louvor. 

- Ser parte de um todo. "Todos juntos somos fortes" nunca sai de moda. Colocar o coletivo acima do individual é exercício para os grandes, e nossos quase adolescentes experimentaram o desafio: querer jogar, mas ceder a vez para quem teria mais chances de vencer; querer sumir, mas ficar lá, torcendo até o fim; querer desistir, mas segurar as pontas pelo grupo; querer ir na frente, mas entender que a outra formação é melhor. No quesito que ensina que o brilho de todos é melhor que o meu, foram dias de glória para vários deles. 

- Saber ver a beleza. Valorizar o que cada um tem de melhor e, ao mesmo tempo, oferecer ao grupo seu próprio capricho. E nisso foi um banho: não faltou quem soubesse desenhar, combinar cores, pesquisar sobre o tema da equipe, apresentá-la ao público, coreografar, levantar o moral da galera - para tudo havia um elogio no final do percurso. Seja se vestindo de mascote ou disputando na cara e na coragem partidas individuais, seja chamando pra si a responsabilidade ou indo lá na margem da pista gritar o nome do amigo na hora da corrida, vi nesses meninos e meninas aquele olhar que o esporte nos dá. Se era pra ser lindo, foi.

- Saber perder. O exercício mais difícil, porém talvez o mais valioso. É preciso aprender a lidar com a frustração, não é o que dizemos? Então nossos filhos e filhas foram lá e viram o placar que não queriam. E tal como atletas de ponta, choraram diante da derrota; e diante da tentação de duvidar da justiça dos números, aprenderam que há dias e dias, que não se ganha sempre, e que o lugar mais baixo do pódio pode ser tão digno quanto o primeiro - desde que percebam o valor que cada dia dessa semana teve para eles.  

- Saber vencer. Vibrar (com respeito a quem perdeu). Soltar o grito diante do amigo que, uau, saltou gloriosamente! Abraçar a corredora bailarina que venceu sua bateria. Berrar o nome do amigo que se destacou no lançamento de peso. Tá, admito: essa lição é mais fácil, a gente aprende rapidinho a delícia da vitória. Dá pra ir além, porém: usar cada conquista para lembrar que a gente pode muito nessa vida. Torço que eles não se esqueçam dessa parte, nunca, nunca. 

Li por aí que o objetivo de uma olimpíada não é revelar os melhores atletas, mas mostrar ao mundo nossa capacidade de superação. Não sei se a olimpíada que acabo de ver revelou algum atleta (quem sabe...), mas vi de camarote (mentira, vi sentada na grama) nossos meninos e meninas lutando pela tal superação. Foram pequenos guerreiros. Pra vocês, 6º ano 3, meus sinceros parabéns! Seus lindos!
 
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