Do tecido


"O medo da morte (...) levou o homem do século XXI, com ajuda das biociências, a prolongar consideravelmente seu tempo de vida biológica, sem com isso tornar-se mais capaz de desfrutar da duração. Hoje é possível viver com saúde durante oito ou nove décadas sem perder a sensação de que o tempo continua curto, de que a vida é a soma de instantes velozes que passam sem deixar marcas significativas." (p. 148)

***
O que me faltou ao ler O tempo e o cão - a atualidade das depressões, da inspiradora Maria Rita Kehl (Ed. Boitempo), foi familiaridade com a terminologia mais técnica da psicanálise. Faltou traquejo para que eu pudesse migrar de um parágrafo a outro com o conforto do reconhecimento. Ao invés disso, tateei por boa parte do texto como leiga que sou, interrompendo, relendo, mastigando, estudando. Ao mesmo tempo, mergulhei nas outras camadas do texto, mais transparentes para não iniciados, que já revelam a acuidade do olhar de Kehl sobre nossas relações com o tempo. Para mim, foi um daqueles livros aos quais prometemos retornar, ainda que a primeira leitura já tenha sido tão valiosa. 

O foco do livro sinalizado em seu subtítulo - a atualidade das depressões - é o número impressionante de pessoas que se deparam com o buraco da depressão nos dias atuais. Kehl aborda o assunto com a perspicácia de quem sabe ler seu mundo e percebe a corrente de elos pessoais e sociais que seguidas vezes escurecem a vida de tanta gente. Como o ritmo alucinante de trabalho/produção que nos impomos (que nos impõem?) delimita nossa relação com a percepção do tempo? Quando limitamos a sensação de estarmos vivos a uma mera "sucessão de instantes presentes" que nos impede de experimentar verdadeiramente a passagem do tempo, o "tecido da nossa vida"? - a linda definição de Antonio Cândido é retomada por ela na segunda parte do livro: tempo não é dinheiro, é o tecido da vida. Como treinamos nossas crianças para que passem pelo mundo sem observá-lo, sem experimentar e degustar o ócio, o prazer da nada fazer, para que a imaginação preencha suas telas com suas pinceladas insubstituíveis? E por que o fazemos? O que nos move à ideia de que é preciso correr o tempo todo? Para onde vamos com tanta pressa, sem deixar que o tempo nos toque delicadamente?

Mais do que uma análise da atualidade das depressões, O tempo e o cão é um lembrete: o tempo é tudo que temos. E sob a luz da psicanálise, Kehl aponta para a "perspectiva de um percurso livre da pressa" que diminua nossa angústia e resgate nossa capacidade de reconhecer o que realmente nos define. Reconhecer que somos mais do que produtores ou fornecedores ou trabalhadores. Somos amores.

Na estrada, na barraca, no cânion



Por conta do aniversário de Florianópolis, o feriado de Páscoa se transformou em um feriadão com cara de miniférias. Mesmo encarando a previsão do tempo e seus anúncios de chuvas fortes espalhadas pelo final de semana, botamos a barraca no carro e seguimos para cinco dias de acampamento - nosso período mais longo em um camping até aqui. Usamos argumentos razoáveis como "vai que a chuva muda de ideia" e pegamos a estrada. A chuva não mudou de ideia e caiu poderosa, é verdade. No entanto, deu tudo tão certo que o aguaceiro virou personagem da história, mais do que contratempo. Teve lama, mas também teve sol e cores. E cânions. 

No dia 01 deixamos Floripa e dirigimos por três horas e meia pela BR 101 rumo à divisa dos estados de Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Por volta do meio-dia, chegamos ao município de Praia Grande/SC - que não é grande, nem tem praia, como bem observou Ulisses. Conforme planejado, almoçamos em um restaurante local antes de seguirmos para o camping - sempre melhor armar as barracas de barriga cheia. O restaurante Casa Nossa, escondido do mundo lááááá num ponto qualquer daquela estrada de chão, estava aberto e vazio. Em pouco tempo, com uma chuva fina já caindo lá fora, estávamos com pratos bem servidos de comida caseira delicinha, e as crianças já estavam com o pé na grama molhada, agarradas aos gatos da vizinhança.

Praia Grande não tem praia, mas tem uns morros mais ou menos. :-)
O primeiro de muitos.

Já havia no ar aquela vibe "que bom que a gente veio". Brindamos aos amigos que estavam ali e aos que não puderam ir e seguimos rumo ao camping.

Escolhemos uma área de camping dentro de um resort, decisão que se mostrou acertada dois dias depois quando a chuvarada despencou. O lugar estava praticamente vazio, porque ninguém com juízo sairia de casa para acampar com aquela previsão do tempo, não é verdade? Como campistas, tínhamos acesso à área de lazer do lugar e usufruímos dela com gosto. Transferimos toda a tralha para a churrasqueira coletiva (que acabou sendo usada só por nosso grupo), estrategicamente situada ao lado do salão de jogos, e comemos e jogamos e brincamos enquanto os céus desabavam. À noite migramos para nossas barracas e dormimos embalados pelas gotas grossas tamborilando nas lonas, pensando "amanhã a chuva passa".



Mas estou atropelando as coisas, porque isso foi na sexta-feira. Antes, tivemos uma linda quinta-feira de sol e fomos dar uma olhada num daqueles lugares que nos lembram como vivemos em um planeta tão, tão incrível. Fomos ver o cânion do Itaimbezinho, no Parque Nacional Aparados da Serra.

Vamos subir?
Durante cerca de uma hora, subimos por uma estrada de chão sinuosa (com pequenos trechos de asfalto no início da subida) e cheia de placas simpáticas.


À medida que subíamos e perdíamos a fé de que um dia chegaríamos a algum lugar, o visual dava dicas do que o morro escondia. Aqui e ali ouvíamos um barulhinho de água correndo pelas pedras, enquanto as copas inconfundíveis das araucárias chamavam "venham".


Guiados por borboletas brancas que se exibiam sobre os carros, e muitas curvas emocionantes depois, chegamos ao Parque. A entrada é paga (oito reais por adulto, além de cinco reais como taxa de estacionamento), mas crianças têm acesso gratuito. Consultamos a central de informações e optamos por uma trilha não muito longa (nossa trupe incluía seis crianças e um bebê de colo) e fomos. Agora não sei contar mais. Só me lembrar da enorme garganta aberta na rocha, expondo aqueles paredões gigantescos, a cascata despencando como uma língua de alegria celebrando a natureza: nosso planeta é lindo, o mundo é incrível e o tempo é um escultor dos mais talentosos. Ave, vida. Obrigada por tanta beleza.







Mundo, mundo, vasto mundo.


Só vejo flores.



Portanto não podíamos reclamar de mais nada. Na madrugada seguinte, quando a chuva prometida veio, pensei em toda nossa sorte - afinal ainda tínhamos dias pela frente e já havíamos visto tanto. Então comemos mais e aproveitamos o que estava ali. Revelamos novos talentos, inclusive.

Tudo profissa.
Aí a chuva parou - e ainda tínhamos dois dias. \o/


Le retour du soleil.


 
 
 

Tínhamos um bebê fofinho.
De pijaminha no acamps.
Tínhamos os morros em nossa volta - e só saber que os cânions estavam "logo ali" era como comungar com aquela beleza toda. 

  

Por falar em beleza, no sábado as nuvens abriram todas as cortinas e revelaram uma noite estrelada de fazer suspirar os mais carrancudos. As crianças desligaram as lanternas e olharam para o alto, Amanda disse nunca ter visto "uma noite assim". A trilha de tantas estrelas acenando de tão longe, destacadas pela escuridão do meio do camping e pontilhando o céu de uma ponta a outra, foi como uma canção: estrada tão bonita. Que bom poder mostrar aquilo para nossos filhos.

Mais tarde, ela também veio.
Por falar em beleza, de novo.



Quando o domingo nasceu e as barracas tinham pequenos ovinhos de chocolate na entrada, Ulisses e eu nos sentamos diante daquele verde e fizemos planos de acampamentos futuros - o que dá uma boa noção do quanto nos divertimos.
 
O cheiro do dia nascendo, os piados da passarada, o "conversê" que vinha da barraca onde estava o bebê - daqueles momentos que a gente guarda nas gavetas mais queridas do coração.


E enquanto estávamos cercados por amigos e pelas crianças (e pelos duzentos gatos que as crianças adotaram), o feriadão passou. Passou enquanto a gente coçava as picadas de mosquitos, tentava tirar a farpa que entrou no dedo, enchia o colchão que secou no meio da noite, lavava a lona da barraca toda suja de lama, lavava a lona da barraca do amigo com mais lama ainda, cuidava do filho de um e de outro, cozinhava com carinho e afeto, elevava a níveis estratosféricos a capacidade humana de se conversar abobrinha, discutia se o louva-a-deus é ou não venenoso, ressuscitava o dialeto do Mussum, compartilhava o prato, a roupa, o pano de chão. 

Passou o feriado e o tio Google me disse que o louva-a-deus, apesar de agressivo, não é venenoso. Já o bichinho do acampamento... quando pica, amigos e leitores, vicia. O antídoto: não resistir.

***

Aos amigos que trocaram o acampamento por momentos em família por razões de amor: vocês estavam com a gente e sabem disso. E, ó, ouvi dizer que os cânions estão ali há milhões de anos e não pretendem sair tão cedo. Que tudo tem seu tempo, né?

Espanholas


Sobre dois romances históricos que li agorinha: 
 Joana, a louca, Linda Carlino. Ed. Europa, tradução de Isabel Nunes, e 
Inês de minha alma, Isabel AllendeEd. Bertrand Brasil, tradução de Ernani Ssó.

***

Terminei a leitura de Joana, a louca, e pensei: grazadeus. Andei dizendo por aí que largaria o livro caso ele não me fisgasse até a página trinta, mas era balela. Encarei as quatrocentas páginas na esperança de que o pano de fundo histórico compensasse a narrativa mequetrefe, mas nem isso. O pouco que aprendi sobre a pobre rainha aprisionada não valeu o tanto de suspiros enfadados que soltei nos últimos dias. Enfim, sobrevivi. 

Na real, eu queria era dar uma espiada no "lado de lá". Antes de Joana, li Inês de minha alma, sobre a "conquista" do Chile pelos espanhóis - aí, sim. Ainda que não seja Allende em sua melhor forma, Inês tem savoir faire. Vamos combinar que Allende sabe contar uma história, a danada. Inês pode não ter me seduzido como a escrava Zarité no ótimo Ilha sob o mar, mas Allende, pra mim, ainda tem seu valor

A narrativa em Inês vem na voz de Inês de Suárez, uma das poucas mulheres espanholas cuja participação na invasão das Américas se destacou na História. Enquanto ela dita a carta que escreve à sua filha Isabel, a gente vai cruzando o Atlântico, descendo a mata, ouvindo o espanto do povo que já estava ali, vendo Santiago surgir. Inês conta e a gente conhece o "conquistador" Pedro de Valdivia, sua bravura e ganância, e também sua crueldade. Talvez as cenas de batalhas não sejam o forte de Allende, talvez elas se repitam mais do que eu gostaria (terei eu gastado meu estoque de "leitura de batalhas" em Game of Thrones?? Oh, dear...), não sei. É certo que ficou a sensação de "bom, mas li melhores"; ainda assim, gostei.

Aí veio a pobre Joana. O livro de Linda Carlino me chamou na estante porque sua história se desenrola na mesma época daquela vivida por Inês de Suárez. Tendo acabado de ler sobre os espanhóis que vieram pro lado de cá, quis ler sobre os que comandavam tudo do lado de lá, no mesmo momento histórico. Parecia uma boa ideia, mas foi só um livro ruim. Não por falta de enredo - a história da Rainha de Castela (declarada louca, separada dos filhos, confinada em Tordesilhas por décadas) tem elementos de sobra para um romance daqueles. A narrativa de Carlino, contudo, me desagradou lindamente. Fatos alinhavados, descrições cruas demais, um dramalhão aqui e ali, enfim. Não rolou amor. No fim das contas, acho que ainda saí no lucro: fiquei aqui vibrando por não ter pertencido a nenhuma realeza naqueles tempos nada gloriosos para a imensa maioria das mulheres. Socorro, que esse é mundo é louco faz tempo. Joana só combinava bem com o ambiente, tadinha.

Soubessem uma da vida da outra, talvez ficasse Joana a invejar a liberdade de Inês, enquanto esta, em dias de fome e sede, sonharia com a mesa posta daquela. Vai saber.

Vasto



Viajar pelo mundo registrando o modo de vida e trabalho de diferentes povos; passar por mais de 120 países e deles levar imagens que traduzem a diversidade humana; ressaltar as profundezas da dor e da solidão nos campos de refugiados, focar nos horrores da exploração de trabalhadores mundo afora; captar a beleza das esquinas ainda intocadas do planeta; contar histórias em branco e preto que muitas vezes revelam mais do que relatos tortuosos; revelar a pluralidade das relações do homem com a natureza, da simbiose quase poética à (auto)destruição mais burra: Sebastião Salgado fez tudo isso. No livro Da minha terra à Terra, escrito com a jornalista Isabelle Francq (Ed. Paralela, tradução de Julia da Rosa Simões), ele conta um pouco das histórias por trás das fotografias que o consagraram como um dos maiores fotojornalistas do mundo. Há quem o admire incondicionalmente; há quem questione o que consideram a escolha de ter no sofrimento do outro o objeto de sua arte; a discussão me parece válida e difícil. Não sei as respostas e eu mesma tendo a fugir das imagens que me chocam. Quando procuro por fotografias de Salgado, opto por me refugiar nas imensidões outras, de vales e rios, montanhas e bichos. O que isso diz sobre minhas fraquezas, sei lá. Salgado diz que não temos o direito de não saber o que se passa em nosso tempo - e suspeito que ele tenha razão. O que me pega é saber que o que pra mim é arte para o retratado é só dor. Resolvam aí a questão pra mim, por favor. 

Da minha terra à Terra é sucinto, meio tímido. Os capítulos curtos abrem o apetite, mas não saciam nossa fome. Eu queria saber mais sobre os oito anos de viagens que culminaram na exposição/livro Genesis (que tive a sorte de ver no Rio, em 2013, como contei aqui). Queria ler mais sobre as semanas passadas em meio aos zo'és nas entranhas da Amazônia. Queria detalhes das caminhadas que o fotógrafo fez pelos vales da Etiópia; queria capítulos e capítulos sobre as várias visitas a Ruanda que o permitiram acompanhar períodos tocantes e dolorosos da história daquele país. Acho que apenas os relatos das passagens de Salgado pelos países do continente africano já renderiam um longo livro. Mas talvez aí esteja o ponto: a linguagem de Salgado é outra, sua forma maior de contar é a fotografia. 

Fuçando a rede aqui e ali, encontrei um bom artigo sobre obra e contradições de Salgado. Da minha terra à Terra segue um pouco pela tangente de questões mais espinhosas, talvez; é antes um convite para olharmos para nossa casa, para o processo impressionante da formação de nosso planeta e de nossa espécie - de todas as espécies. O trabalho de Salgado, especialmente em Genesis, seu projeto mais recente, com fotografias de partes do planeta ainda intocadas pela industrialização, me parece uma declaração de amor e encantamento pela vida e sua evolução. O livro ...Terra em si pode ser mínimo, uma olhadela pela fresta da janela. O que ele aponta, contudo, é pura vastidão.

 
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