Berlim



Nossa Berlim teve temperaturas entre 3 e 8 graus, nenhuma neve (poor Amanda), quase nenhuma chuva, alguns dias de céu claro. Teve longos passeios a pé, muitas idas e vindas no metrô, museus, monumentos, bichos, muita história sendo contada e outro tanto de história nossa sendo criada. Também teve comilança, dias de preguiça, museus que decepcionaram as crianças (Arthur queria mais Grécia, Amanda queria mais bicho), passeios dos quais não esperávamos muito, mas que acabaram sendo divertidíssimos (não sou muito fã de zoológicos, mas curtimos bem o de Berlim). Teve fósseis, iêba!, minha carteira roubada no metrô, damn it!, o Arthur dizendo "deu de museu", a Amanda caçando os macaroons da cidade. Teve segunda guerra e muro, lembranças de como não fazer; teve nós quatro andando pra lá e pra cá dizendo cara, que cidade legal. 

Teve Caravaggio na Germaldegalerie.

E como estava difícil tirar Amsterdam da cabeça, reencontrei meu Vermeer querido.

E meu Rembrandt.

Ah, se as piores marcas da guerra fossem as torres. Ainda assim, que pena.

Teve imponência.

Teve o silêncio pela dor.

Teve histórias de vitórias. 

O Neue Wache homenageia todas as vítimas de todas as guerras. No interior escuro e quase vazio, uma estátua de uma mãe com o filho morto nos braços. Um retrato das derrotas da humanidade, mesmo quando se vence a guerra.

Fazendo a egípcia diante dos hieróglifos de milhares de anos.

Teve muro derrubado e pisoteado. 

***

É bom não precisar escolher. Berlim não tirou, para as crianças, o pódio de Amsterdam. Nem pra nós. Mesmo assim, gostamos tanto. Há muito tempo eu queria conhecer a capital alemã e saí de lá com uma listinha de coisas que adoraria ter visto. Museus que descobri na última hora (o incrível Zeughaus, dedicado à história alemã, e que vi rapidinho, um pecado), pontos mais afastados da região central, cantinhos da cidade que a gente descobre sem pressa, caminhando meio sem rumo. Daquilo que vi, um cheirinho de tempo. Valeu demais.

Arthur e Amanda, em frente à universidade Humboldt; "homenageando" Einstein, que trabalhou ali. :-)


Agora vumbora, que o mundo é grande.


Haia




Haia entrou no roteiro exclusivamente por causa do Mauritshuis - que, como viemos a saber quando chegamos lá, foi a casa de Maurício de Nassau, nosso velho conhecido. Gostamos do que vimos da cidade, mas o que eu esperava se confirmou: o que eu queria mesmo estava dentro da casa do Maurício.  

Ela.

Roubando a cena, Woman writing a letter, de Gerard ter Borch. Lindo, lindo.

De Carel Fabritius. Naturalmente, com gostinho especial, já que estou lendo O Pintassilgo agorinha mesmo.  (Aliás, leitores de Donna Tartt, Lição de Anatomia, do Rembrandt, está lá também.)

O Homero de Rembrandt. Para perder a hora.

Etc etc etc. O acervo do Mauritshuis é maravilhoso. Foi minha Haia. 

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Batemos perna pela cidade antes de começarmos nossa jornada rumo a Berlim. A essas alturas, o Vermeer deve estar pensando que sou stalker, pois continuo seguindo o moço por onde vou. Vão vendo. 

Rijksmuseum


Acho que cada pessoa que visita o Rijksmuseum terá o seu próprio Rijksmuseum. Haverá quem se perca entre as galerias procurando os seus favoritos; quem tente ver tudo e descubra assustado no final da tarde que jamais conseguirá num dia só; quem escolha uma ala e lá se esqueça da vida, namorando o que lhe convier. Tudo pode. O meu foi um misto de quero ver muito, mas não posso correr riscos, eu tinha meus desejos antigos. Então fui com calma, mas antenada. Tive boas e grandes surpresas, arrumei novos amores. Quando cheguei ao grande salão onde sabia que o Vermeer estaria, fiz de conta que não era comigo. Comecei pelo outro lado. No meio do caminho, desisti. Pensei, ah, pra que esperar mais. E fui lá ver minha leiteira. Nosso Rijksmuseum, meu e do Ulisses, foi mais ou menos assim, de olhares em zoom e de passos para trás. 

Para as crianças, foi uma grande caça ao tesouro. Uma brincadeira que eu costumo fazer com eles em museus no Rijks ganhou uma nova dimensão. O aplicativo family quest no kit multimídia do museu tem a caça ao tesouro master, com direito a enigma a ser desvendado à medida que a criança "examina" determinadas obras e brinde no final. Nunca uma visita a um museu foi tão divertido para eles. Nota mil para o Rijks. 

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Rembrandt, always.






My sweet Vermeer.





Ele, que não pude fotografar em seu próprio museu (ao contrário do Van Goth, no Rijksmuseum é permitido fotografar as obras, como vocês podem perceber), tava lá me esperando.


Israels, que o Van Gogh me ensinou a admirar em Cartas a Théo. 


Claez Heda, meu novo espanto.


Etc etc etc.
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"... the sight of the stars makes me dream." - Van Gogh.



Amsterdã - de cinzas e amarelos


Há tempos queria vir a Amsterdã com Ulisses e as crianças. Conheci a cidade há muitos anos e por pouco tempo. Apesar da passagem rápida, gostei tanto que anotei que voltaria. De lá pra cá as razões para visitar a Holanda se multiplicaram, e tudo que eu vi quis ver novamente porque saberia que, de certa forma, seria uma nova primeira vez.

Anos atrás, Amsterdã me parecia uma cidade moderna, descolada, com uns museus bacanas, bicicletas nas ruas e gente comendo batata com maionese. Agora, para além dos ares de cidade bem resolvida, olho e vejo ainda com mais carinho a velhice de seus prédios de tijolos aparentes e canais gelados. Os ciclistas continuam por toda parte, aparentemente indiferentes às baixíssimas temperaturas, e as ruas planas ao longo dos canais são um convite a longas e despreocupadas caminhadas. Os planos para voltar não me abandonarão, porque agora quero pedalar na primavera com as crianças e o Ulisses pelos arredores da cidade. Mas sem dúvida são os museus que mais do que tudo me fazem querer estar aqui - e, of course, são um programa bem decente em temperaturas beirando as negativas. Então lá vamos nós.


Dois livros que li em 2015 iniciaram a viagem pra mim: o Diário de Anne Frank e o Cartas a Théo. Começamos pela Casa de Anne Frank, em dia de fila rápida e tranquila (não conseguimos os ingressos online). Ter lido o Diário há tão pouco tempo temperou a experiência com doses extras de emoção. Não que seja necessário ter lido o livro para apreciar a casa - não é -, mas não há dúvida que cada cantinho do anexo secreto nos faz pensar nos tantos planos que ela registrou em seus escritos. Os habitantes do esconderijo têm personalidade e traços nítidos para os leitores do diário; têm manias, e sabemos quem Anne apreciava e quem gostaria de ter longe dela; sabemos que era uma garota interessante, inteligente e cheia de energia, tinha certo gênio forte e um olhar bem crítico sobre o comportamento de alguns moradores da casa; sabemos das birras com a mãe, da rotina cheia de ansiedade daquelas pessoas naqueles dois anos. Então cada quarto do anexo pesou em meu peito, porque eram os metros quadrados onde Anne viveu aquela experiência tão absurda em sua curta vida. Chorei o tempo inteiro, praticamente.


A casa convertida em museu permite uma visita tranquila. A fila na entrada é normalmente longa justamente porque evita-se lotação demasiada, então é perfeitamente possível avançar pelos cômodos com tranquilidade, sem muvuca. À medida que nos aproximamos do fundo do prédio, vamos relembrando os horrores do holocausto (na medida em que você quiser ver, não é necessário se prender em nenhuma passagem que o visitante considere mais pesada) e obviamente pensamos no fim que tiveram quase todas as oito pessoas que se esconderam ali, com exceção do pai de Anne, Otto Frank. Depois de passar pelos cômodos abertos ao público (não é possível visitar o sótão), várias galerias contêm reproduções de páginas do diário, fotografias de Anne e sua família, objetos pessoais (como brinquedos que ela doou antes de se esconder), vídeos com entrevistas e depoimentos, inclusive de Otto Frank. Há ainda registros de quando os moradores do anexo foram transferidos para campos de concentração, listas de judeus mortos na segunda guerra - tudo para que a gente se lembre do quanto podemos ser estúpidos. 

Numa das últimas galerias, estão os contos que Anne escrevia, ao lado de seus exercícios de francês: seus preparativos para a vida de escritora famosa e jornalista que ela achava que teria. Oh, dear. Poor girl. Por fim, o precioso diário. Em caixinha de vidro, apoiado em uma almofada, está lá a joia que ela construiu ao longo de dois anos, deixado para trás quando a polícia nazista os levou para o terrível destino de milhões de outros judeus durante a guerra. Tudo que a secretária de Otto Frank queria quando o recolheu, depois que seus amigos foram levados embora, era devolver o diário a Anne assim que ela fosse liberada, quando a guerra acabasse. Por fim, somente Otto sobreviveu - Anne e sua irmã morreram de tifo no campo de Bergen Belsen - e foi ele quem recebeu os escritos da filha. Não ter lido o diário não me impediu de me impressionar na primeira vez que entrei na casa, mas certamente vi tudo com lupa dessa vez.

***

Da casa de Anne para a Casa de Rembrandt, tiramos o dia para visitar uzamigo. ;-) A casa onde Rembrandt morou foi um passeio que se mostrou mais divertido do que conseguimos prever. Esperávamos obras do pintor, mas isso fica para o Rijksmuseum; o que encontramos na casa foi...  a casa. Os móveis, os quadros que ele mantinha na parede (e que negociava, já que além de pintor atuava também na venda de obras de outros artistas), os muitos objetos de arte e outras quinquilharias que ele colecionava, vindos do mundo inteiro (que inclusive o levaram à ruína financeira - Rembrandt era um gastador incorrigível), sua cozinha, seu quarto e, pontos altos da visita, os cômodos onde ele trabalhava. 


Uma demonstração de quase meia hora ensina ao público os segredos da gravura, arte que Rembrandt valorizava tanto quanto a pintura, na mesma sala onde ele imprimia as suas. Amanda e Arthur imprimiram à moda antiga, girando essa geringonça para transferir o desenho da placa de cobre para o papel. No ateliê do artista, sala onde ele pintava quadros que hoje nos arrebatam museus mundo afora, Amanda ajudou a preparar a tinta como se fazia no século XVII (e que ainda pode ser feito hoje, se você não quiser ir ali na lojinha comprar um tubinho ou potinho). 

Força no braço, menina. Amanda mistura óleo de linhaça ao pó de pedra previamente triturada. 


O azul mais lindo extraído da pedra lápis lazuli, trazida do Afeganistão. Um processo químico separa os grãozinhos azuis e apenas quatro por cento da pedra resulta em pigmento para preparo da tinta. 

Há ainda uma sala onde Rembrandt recebia os alunos sortudos para aulas de pintura, fonte de renda importante, mas que não o livrou da quebradeira. Não era mestre em organização, mas pintava direitinho. :-)

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Cartas a Théo é mais do que uma lupa sobre o Museu de Van Gogh. É um amigo que te leva quadro a quadro sussurrando "lembra como ele estava feliz quando pintou esse quadro", "olha, aquele que o deixou tão ansioso". E, especialmente, é o amigo que fica em silêncio enquanto você se emociona diante daqueles jardins de pinceladas incrivelmente coloridas. Difícil saber de nós quatro quem curtiu mais o museu do querido Vincent. Arthur e Amanda se agarraram ao gravadorzinho com informações sobre as obras e subiram, desceram, subiram de novo cada um dos andares do prédio, procurando quadro, misturando cores no aplicativo virtual, buscando detalhes escondidos nas obras. Ulisses e eu nos esbaldamos vagarosamente. Olhamos e lemos tudo. Ao contrário da visita a jato que fiz anos atrás, dessa vez morei no museu sem pressa, relembrando as cartas, descobrindo quadros que eu ainda não conhecia ou dos quais não me lembrava. Conversando com ele através do tempo e de sua obra, como tem de ser.

É evidente que as cartas guardadas por Théo são a fonte principal para a organização das obras ao longo do museu. Recomendo muito a leitura do livro para quem pretende visitar o lugar, mesmo que seja alguém já familiarizado com o trabalho de Van Gogh ou, ao contrário, alguém que vá movido mais por curiosidade do que por apreço ao(s) estilo(s) dele. Garanto que a experiência se torna infinitamente mais rica e recheada de detalhes para quem lê os relatos e devaneios naquelas cartas. Em um cantinho de uma das galerias, podemos ver o antigo baú do tesouro, o armário onde Théo guardava sua correspondência. Há ainda obras de outros artistas contemporâneos de Van Gogh (inclusive um Monet, muito amor) e de artistas que produziram suas obras após a morte do pintor, inspirados por ele e seus quadros. Minha querida amendoeira está lá, os pomares em flor, os poentes mais lindos, os campos infinitos de trigo, os autorretratos mais tocantes, os quadros sombrios dos primeiros anos, os povos do campo que tanto inspiravam Van Gogh. Emocionante, em pinceladas generosas. Imperdível. 

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Sansão em Frankfurt.

As temperaturas variam entre -2 e 5. Como chegamos via Frankfurt com -5 graus, estamos achando tudo muito normal. #not Na maior parte do tempo, um grau, filho único, nosso único grauzinho, congela nossos narizes enquanto a gente se desloca entre um museu e outro ou escolhe um restaurante para encher nossas barrigas sem fundo. Com coragem e determinação tiro as luvas e faço uma ou outra foto, Amanda torce pela neve que ainda não veio e Arthur busca novas técnicas ninja de amarração de cachecol. Os bondes que cortam a cidade pra lá e pra cá são nosso transporte quando queremos ir a algum lugar mais longe, mas na maior parte do tempo fazemos tudo a pé, já que nosso hotel fica na região dos museus.



Do lado de fora do museu de Van Gogh, longe dos azuis e amarelos, os tons são de cinza e marrom - e bem sei que ele também via beleza nesse lado da paleta. A previsão diz que pode nevar. Eu digo que nada precisa melhorar. 



     

Pitadas do mundo


Caiu no meu colo o livro Uma breve história do mundo, do historiador australiano Geoffrey Blainey (Ed. Fundamento, sem indicação de tradutor(a) - aliás, hello, Ed. Fundamento, onde já se viu...). Pensei que não haveria erro - as muitas histórias da formação desse mundo maluco são tão mirabolantes que sempre há algo com o que se maravilhar, mesmo que quem as conte opte por pinceladas rápidas em temas que renderiam tratados. Assim, foi bom ter lido o livro do Blainey, sem dúvida. Desde que o leitor não nutra grandes expectativas sobre nenhum dos períodos ou regiões abordadas na seleção do autor, certamente encontrará algum prazer na leitura. 

Devo dizer que funcionou para mim, em termos. Logo no início, vi que não deveria esperar a graça do Bryson em História de quase tudo, ou o olhar sagaz de um Fisk quando escreve sobre o Oriente Médio. Ainda assim, houve momentos em que a vontade era largar o livro e correr para a internet para descobrir um pouco mais sobre assuntos interessantíssimos, mas apenas rapidamente mencionados por Blainey. Então foi bom, mas foi assim assim. 

Talvez os melhores capítulos sejam os dedicados aos caminhos que permitiram o crescimento de grandes religiões, como o Crisitianismo ou o Islã. De mais decepcionante, talvez o curtíssimo trecho do livro dedicado ao continente africano. No balanço final, acho que o problema do livro é mesmo o título - a gente acaba esperando mais mesmo. 

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Então foram pitadas de história. Agora vamos em busca de mais pitadas de mundo. Em breve, notícias de alguma terra baixa, casa do moço que pintava a luz, do povo que cultiva flores e dos gigantes que Dom Quixote desafiaria sem temor. ;-)


 
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