Ithaca Road


Em 2013 a Cia das Letras enviou alguns autores brasileiros a cidades de vários continentes para que ambientassem romances nesses lugares. O projeto Amores Expressos enviou escritores para Lisboa, Paris, Cidade do México, Praga e outras beldades geográficas. Depois de acaloradas discussões sobre financiamento, que, segundo li, acabou bancado pela editora e pelo produtor Rodrigo Teixeira, o projeto seguiu. Não sem percalços. Houve desistências e pelo menos um lançamento acabou saindo por outra editora, e nem todos escritores envolvidos conseguiram concluir suas obras no tempo previsto. Alguns romances foram rejeitados pela Companhia. Lendo por aí, encontrei referências sobre as dificuldades de se escrever sob encomenda, e bem imagino o quanto a pressão de tempo e tema desafiam escritores. Há resumos da maioria das obras neste link, mas não encontrei relatos sobre os demais livros da série, nem sei se de fato foram lançados. Deles li apenas um, Ithaca Road, do escritor gaúcho Paulo Scott. (Scott esteve em Florianópolis recentemente no 6º Festival do Conto em uma oficina relâmpago que acabou se transformando num ótimo bate-papo sobre as delícias e agruras que cercam a escrita.) 

Ithaca Road se passa em Sydney durante poucos dias na vida da protagonista Narelle, garota neozelandesa que vai à capital australiana para administrar temporariamente o bar do irmão. A narrativa é rápida, a linguagem é crua; os diálogos, inseridos no corpo de longos parágrafos, logo nos fazem prestar atenção à conversa. É difícil saber o quanto da "encomenda" do projeto Amores Expressos pesou nas escolhas do autor, mas Ithaca Road apresenta uma Sydney de gente jovem e cosmopolita - dois adjetivos bem casados no imaginário que cerca a cidade mais badalada da Austrália. Mas Scott vai mais fundo, o livro avança e logo a superfície de modernidade se rasga. Então a gente enxerga nas camadas submersas as brechas do sistema e, lá como cá, os remendos nada nobres nas feridas da população nativa em alusões a conflitos raciais tanto na Austrália como na Nova Zelândia. Na trama central que sustenta a narrativa Narelle não demora a se dar conta de que o negócio do irmão está em apuros e que o buraco pode ser bem down under; entre negociações um tanto tensas com a Justiça e relações quebradiças com o namorado (que se encontra no Brasil) e amigos próximos, Narelle conhece Anna. E em meio a diálogos de quem tem pressa em endereços cool, são o silêncio e o olhar da autista Anna que vão guiar Narelle. 

Certo ar de mistério rondando diálogos finais pode tanto agradar quem curte pontas abertas quanto desagradar o leitor que anseia pela mão do autor nas resoluções todas. Mas foi um outro fator que me saltou aos olhos durante a leitura e me fez lembrar o tempo todo da genealogia do livro. Ithaca Road está recheado de indicações geográficas de Sydney. Se o intuito era apresentar a cidade, o livro é quase um mapa. E se, por um lado, me diverti reconhecendo os lugares que visitei em férias com minha família, por outro lamentei o excesso de referências. Lembrou-me algo que experimentei lendo Travessuras da menina má, do peruano Vargas Llosa - era tanta Paris, quase um overdose (soa absurdo, eu sei). Pois bem, Ithaca Road tem Sydney demais, e isso me soa igualmente absurdo - afinal, concordo com "a beleza arrasadora" da cidade; no livro, contudo, tanto nome de rua e praça e praia quebrou um pouco a fluência do bom texto de Scott. Vai ver Sydney e Paris são armadilhas: é tanta beleza que a gente empacota as histórias nos lugares que nos tiram o fôlego.

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(Falando em Ithaca, terra de Ulisses, ando lendo a tradução de Carlos Alberto Nunes para a Eneida, de Virgilio. E, olha, que coisa maravilhosa. Falo disso já já.)

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