De Troia a Roma - Eneida


Diz o mito que quando Troia ardeu em chamas e virou cinzas Eneias reuniu troianos sobreviventes e viajou rumo ao Ocidente para fundar na Itália as bases de Roma, a "Troia renascida". As façanhas de Eneias durante a travessia dos mares ao sul da Itália e costa siciliana, o malfadado amor de Dido - rainha de Cartago - a descida ao Inferno, a luta pela posse da terra dos latinos e, claro, as muitas interferências dos deuses do Olimpo na peleja são o tema dos 9.826 versos do Poema Eneida, de Virgilio. É ler e reconhecer pegadas de tantos que seguiram o poeta. Pra mim, foi ler e reencontrar os mitos da infância via Lobato, e ver um pouco mais de perto a origem de lemas e lendas que relemos mil vezes espalhados pela literatura ocidental. Um pequeno deleite nesses dias em que as guerras e os deuses são outros, mas a humanidade segue oscilando caprichosamente entre a beleza e o terror. Li a tradução de Carlos Alberto Nunes, na edição caprichadíssima da Editora 34, com notas (sempre bem vindas) organização e apresentação de João Angelo Oliva Neto.

O poema Eneida é composto por doze livros (ou capítulos, se quiser). Pode-se dizer que os seis primeiros se assemelham em atmosfera à Odisseia, voltados para a longa viagem desde a Troia destruída até a terra dos latinos. A segunda metade foca na matança propriamente dita (e aqui, claro, a referência é a Ilíada). Portanto Eneida tem de tudo: aventuras, amores, ninfas, deuses intrometidos; e tem também batalhas (incluindo o famoso episódio do cavalo de Troia, narrado por Eneias a Dido quando ele relembra o massacre de que escapou, um dos livros mais legais do poema), cabeças espetadas como troféus, herói invadindo a terra alheia (pra gente ter mixed feelings pelo herói), duelos sanguinolentos, tudo narrado de mãos dadas com as musas - "Como? Falas em vivo escapar, quando vejo que te enfeitaste com as armas dos meus?". Porque, claro, no meio de tudo está a poesia. 

Tudo é trágico, grande, dramático, mexicano, exagerado. Todos os deuses são mais humanos do que eu e você, todos os humanos são capazes das façanhas mais inimagináveis, tudo é absurdo e, para mim, absolutamente sedutor. Não sei quanto a vocês, mas nos anos 80 aquele volume d'Os Dozes Trabalhos de Hércules, do Lobato, me levou para o Olimpo e eu nunca mais voltei (vou lendo Virgilio e pensando em como a Emília xingava Juno). Adoro os dramões. E as explicações de Virgílio para o surgimento e ascensão de Roma podem nem ser exatamente factíveis (não acredito muito que Apolo guiava as lanças...), mas sem dúvida são as mais legais. 

A edição que li é bilíngue, mas meu latim, cof cof... Limitei-me à lindeza da tradução de Nunes. Farei o caminho inverso e só daqui a pouco vou ler a Ilíada. Quem liga? Um clássico é um clássico é um clássico etc. 

2 comentários:

Renata Lins disse...

nunca mais voltei tb, Ritinha. O combo O Minotauro + Os 12 trabalhos me abriu um mundo no qual só fiz mergulhar mais. Passava mitologia na minha frente? Eu lia. Outra forma de contar as histórias dos deuses, os trabalhos de Hércules, o nascimento de Roma? Tamos dentro. Os vínculos familiares, quem era pai de quem, quem era filho de quem, quem ficou com quem, quem teve ciúme de quem...? Como não se encantar? Como não incorporar?
Estudar astrologia provavelmente veio daí também. Não sei o que Lobato diria se soubesse que foi, de certa forma, responsável pelo meu gosto por astrologia... que, claro, não tem nada a ver com os astros. Mas tudo a ver com os mitos.
(P.S. Nunca li a Eneida, só as referências. Será que chego nela em 2017?)

Rita disse...

Renata, se você decidir ler, sugiro essa edição. Um mimo.

 
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