O que escreve quem


Ando relendo os capítulos de Por que ler o clássicos, do Ítalo Calvino (Cia das Letras, tradução de Nilson Moulin). Um livro sobre livros, combustível para aquelas listinhas que mantemos na caderneta dentro da bolsa, naquele arquivo em word chamado "dicas de leitura", ou coisa que o valha. Ou simplesmente um livro sobre palavras, palavras, palavras, como diria Hamlet. Vou passeando pelos capítulos, pequenos recortes de produções literárias em tempos vários e pensando, meu deus, como a gente fala. Que bom, nesse caso.

Passando os olhos pelo índice, vejo que minhas visitas a esse livro anos atrás se limitaram quase sempre aos capítulos que tratavam de livros ou autores que me fossem familiares. Que bom que os livros nos esperam, pacientemente. Bom mesmo tem sido agora, descobrir que posso vir a me interessar por nomes com os quais nunca flertei. A fala clara de Calvino, sem qualquer afetação, nos abre mil janelas tentadoras, quem sabe o que posso encontrar naqueles campos que nunca cogitei pisar? Ovídio, Defoe, Diderot, vou antevendo as conversas.

E nessa de livro que fala de livro, gente que fala de gente que já foi, nos conta Calvino que lá iam Dante e Virgilio por sei lá qual círculo do Inferno quando se depararam com Francesca e Paolo. O casal, condenado à danação eterna por ter se entregue às tentações terrenas, conta que o beijo que os uniu foi inevitável - Paolo teria cedido à tentação depois de ler o beijo entre Guinevere e Lancelote. Catei da estante minha edição mixuruca da Divina Comédia, só pelo prazer de conferir: 

"Líamos um dia - mero passatempo - o relato de como Lancelote resultara vencido pelo amor. Estávamos sós, desarmados de malícia. Por vezes, nossos olhares, encontrando-se, fizeram suspender a leitura e mudar a cor das faces. Um trecho nos fez sucumbir: ao lermos como a ansiante amada fora beijada pelo febril amante, este que de mim jamais se aparta, toda a tremer, beijou-me a boca. Culpado pois, o livro e seu autor - eis que, aquele dia já não lemos mais."


Calvino que fala de Dante que descreve o efeito de Lancelote na história de Francesca. :-) Gosto desse novelo doido de livro escrevendo o mundo.

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