O genial espalhafatoso


Havia na biblioteca de minha mãe uma bíblia dividida em doze pesados volumes encadernados em capa dura, com páginas ricamente ilustradas. Acredito que essa tenha sido mais uma das coleções compradas fascículo a fascículo e encadernadas posteriormente. Era uma prática comum "naqueles tempos". Foi assim com algumas coleções que tínhamos em casa nos anos 70-80; a enciclopédia Conhecer, por exemplo, com seus imensos volumes em vermelho vivo, ou a Enciclopédia do Estudante, que vi se formando aos poucos e que adorava folhear sempre que era incumbida de limpar os muitos livros da estante de madeira escura.

Um dos volumes que costumavam atrasar a faxina era o último daquela tal bíblia ilustrada, todo dedicado a templos católicos mundo afora. Era recheado de fotografias de imensas e pomposas igrejas, com informações sobre o lugar onde se encontravam, o santo/santa/entidade a quem eram dedicadas, e que tais. Eu folheava aquilo e ficava impressionada com a beleza de algumas construções que mais pareciam castelos incríveis. No meio daquilo, havia a Sagrada Família, de Barcelona.

Nunca fui a Barcelona, mas vem dos tempos da faxina na estante de minha mãe a curiosidade em relação àquele prédio. Sempre que leio ou vejo algo sobre o templo, fico ali imaginando a imensidão e maravilhosidade daquilo, daquela floresta de torres. Enquanto não rola Barcelona, fui ao MASC dar uma espiada na exposição Gaudi Barcelona 1900.

O moço dos arcos, sulcos, tríglifos, métopas, arquitraves, cornijas, estilóbatos... (oi?) 
A exposição vai além de maquetes e fotografias de obras do próprio Gaudi. Como o nome bem diz, é um retratinho da Barcelona do início do século XX. Então a gente espia um tiquinho das ideias extravagantes do dito cujo e também um pouco da obra de outros artistas contemporâneos das abóbadas espetaculares.   

Acho que ela ouviu um barulho. (Ramon Casas)
Há mobília e adornos, portas e puxadores, algumas fotografias de interiores de casas projetadas por Gaudi. Tudo exuberante, tudo... muito. As cadeiras, no entanto, são puro charme.



Talvez para quem entende a teoria por trás da concepção artística de Gaudi a exposição tenha apelos que nem desconfio. Para mim, resta o respeito ao que me parecem coisas criadas por uma mente que girava em rotações que desconheço. A certa altura, paramos diante de uma placa que explica o sistema de cálculos usado por Gaudi em um de seus projetos. O sistema "simples" é descrito assim: 

Desenhava a planta desejada e pregava um barbante em dois pontos da planta. O cordão pendurado formava um arco, uma catenária. Colocava saquinhos com pequenos pesos de chumbo que correspondiam ao peso que receberia um determinado ponto da catenária, por compressão. A catenária ia se deformando e adotando a forma final, traçando um arco funicular. Após completar todas as linhas estruturais do edifício com cordões, Gaudi preenchia com telas os espaços entre os cordões para obter a textura definitiva do edifício. Uma vez concluída toda a planta, fotografava o conjunto pendurado e invertia a fotografia para obter a forma final do edifício.

Lendo assim, parece fácil e divertido, uma brincadeira de criança. Aí a gente olha as fotos e vê que, well, melhor não tentar em casa. 




Diz-se da obra de Gaudi ser "odiada por alguns, admirada por muitos". Ulisses disse ser fácil imaginar quem o odiava: os pedreiros... Eu sequer consigo imaginar como se colocam aquelas coisas de pé. Sigo com vontade de visitar Barcelona, entrar na inacabada floresta de torres... e olhar pra cima.



A exposição no MASC/CIC/Floripa está aberta até 30/10/2016. 


4 comentários:

Renata Lins disse...

que lindeza. e eu jamais tinha visto a cara do moço... bonito, ele.
beijo!

Cláudio Luiz disse...

agora eu me senti.
sei muito pouco, mesmo, talvez por isso, mas dos autores que li sobre arquitetura nenhum conseguiu enquadrar Gaudi num movimento adequadamente.
Barcelona vale mais do que uma visita. Eu só fui uma, por isso preciso voltar. eheheheheh

duasfridas disse...

Acho que conheci Gaudi via Caetano mesmo, e pensando bem, foi uma apresentação muito atraente. Minha vontade de Barcelo aumentou depois deste post.
Beijo,
Helê

TinaLopes disse...

Você vai ficar MUITO LOUCA na Sagrada Família. Só digo isso.

 
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