Quase sem querer - Arthur e a tocha


A caminho do café, o sinal fechou e parecia que nunca mais ia abrir. A gente ficou lá esperando, que remédio? Quando finalmente ficou verde, ninguém se mexeu. Arthur, com fome, reclamou. Aí estiquei o pescoço e vi os cones. O trânsito estava interrompido e a pista do lado, em sentido oposto, vazia. Certamente era a tocha, sabíamos que ela estava circulando pela cidade, apesar de não termos dado muita bola para a passagem. Cinco minutos antes tínhamos comentado que conduzir a tocha tem um significado bacana para quem se envolve de perto com esporte. O simbolismo é mesmo bonito - sair da Grécia, convocar a todos, venham ver homens e mulheres buscando seus limites, venham todos. Mas a gente levou o domingo em outras vibes. Até ali. 

O trânsito parado não nos deu escolha. Saímos do carro, o casal de amigos no carro à frente também. Ficamos curtindo o friozinho de final de tarde no canteiro que divide a rua. E lá veio ela. Não sei quem a conduzia naquele momento, mas aplaudimos, demos vivas. Arthur ficou animadíssimo, todos ríamos da coincidência - muita gente se organizou pra ver, esperou em vários pontos da cidade. A gente ganhou a tocha praticamente em nossas mãos, de presente. Foi bacana, apesar de tudo que ronda esses jogos (falo disso depois, talvez). Esporte é um troço, né, o frio na barriga. Por fim, a equipe de TV abordou o Arthur que, todo feliz, disse que nunca vai esquecer o momento em que viu a tocha olímpica pela primeira vez. Perdemos o pôr do sol que queríamos ver num café da Lagoa da Conceição, mas nem reclamamos.

***
 
(O engraçado da história: a repórter perguntou algo como "você, que esperou tanto pra ver, o que achou?". Depois, diante de nossos sanduíches, comentamos como seria engraçado se o Arthur tivesse dado uma resposta na vibe "o sincero" - "Na verdade, não esperei nada, até reclamei do trânsito parado porque tava como fome, mas, né, já que estávamos aqui e tal...")

3 comentários:

Maria Angélica disse...

hahaha essa resposta seria ótima. ;)
Mas que história legal. A felicidade dele. Estou tão dividida em relação às olimpíadas, tenho ingressos e queria repassar, não quero participar disso, mas quando envolve criança, muda tudo. Que difícil. Que bom que ele viu a tocha e curtiu.

Rita disse...

Maria Angélica, eu entendo o sentimento, o desconforto. Eu tô tentando separar as coisas - com um pouco de romantismo, talvez, mas what the hell. As Olimpíadas são o auge da carreira de muitos atletas. Aqui em casa gostamos muito de esportes então fica difícil eu cogitar que não vamos nos envolver. Com as disputas, as lutas, as corridas, as partidas. Eu acho possível fazer as duas coisas, sabe. Ser crítico quanto ao político-financeiro, ser torcedor pelo esporte. De perto é mais difícil, a gente não sabia muito sobre os rombos financeiros em Montreal ou Atenas, então era só magia, agora não temos esse luxo. Eu vou torcer com as crianças e conversar com elas sobre os abusos, os horrores, as desocupações. Não sei fazer diferente, acho. Não consigo torcer contra o evento como um todo, quando ele envolve a vida e o sonho de tanta gente. Sei lá, tô elaborando.

bj
Rita

Marissa Rangel-Biddle disse...

Eita! Rindo do Arthur sincerao!
Sempre que la vem Olimpiadas, penso em voce pois vc assiste a tudo e tal e comenta e eh massa. Espero seu post. Sua elaboracao. ou nao. Tambem estou dividida. Beijos

 
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