Plano de fundo


Quero contar à parte de você que vive em mim o que fiz no dia do seu aniversário.

Não tivemos pressa de sair da cama, Ulisses e eu. Aproveitamos com folga a manhã de domingo, sentindo um a companhia do outro, saboreando o conforto de estarmos juntos. Quando a fome veio, passamos um café fresquinho, comemos qualquer coisa e voltamos pra cama. Deixamos um pouco da claridade entrar por uma fresta da cortina e, no silêncio de uma casa com crianças ainda dormindo, lemos nossos livros, fizemos planos para a semana que começa já. Quando as crianças acordaram, arrumamos uma coisa aqui, outra ali, e fomos juntos ao mercado. De volta pra casa, Ulisses fez nosso almoço. Comemos juntos, brindamos. Passei toda a tarde na cozinha fazendo bolos. Acho que você iria preferir o de laranja, é um palpite forte. No início da noite, fomos ao cinema. Voltamos pra casa falando que você faria 76 anos hoje. Amanda cantou parabéns. Arthur me deu um abraço. 

Tenho muito carinho pelo banal desse dia. Nada aparentemente grandioso, pequenos prazeres sem muito barulho. E, no entanto, é o melhor de mim. Minha bolha da qual eu tanto gostava de falar com você. Gosto do que vejo em primeiro plano, mas sei também do plano de fundo, sua mão. Em seu último aniversário, há seis anos, eu disse que trazia sua mão sempre segurando a minha. Ainda é assim. Então é banal, mas é tão bonito.

O dia 03 ainda é seu dia, todos os anos.
***

Há dias uma neblina paira sobre os morros que cercam meu bairro. De nosso quintal vemos uma nuvem estacionada sobre a mata, como algodão doce, contrastando com o fundo azul do céu. É um fenômeno meteorológico certamente comum; e tão bonito. 

8 comentários:

Luciana Nepomuceno disse...

o banal é o real da minha existência. às vezes sonho castelos, expedições e miragens, mas no fim do dia gosto mesmo é do entrelaçar dos dedos, o cheiro de comida no fogo e o ruído festeiro da rua chegando mansinho entre persianas.

já o seu banal é extraordinário, e que bom que você sabe e usufrui disto <3

TinaLopes disse...

Que lindo, Rita, e nada banal.

Renata Lins disse...

e nesse post descubro que sua mãe teria a idade da minha e choro do começo ao fim do post.
acendendo velas ao deus das pequenas coisas.
nada é banal quando dito com tanta delicadeza.
beijo grande, querida.

BethS disse...

tão lindo, rita...
e essas coisinhas miúdas e quase invisíveis, e nem um pouco banais, são o que fazem a vida valer a pena.
e você diz tudo com tanta beleza.
obrigada por compartilhar.
beijo enorme!

Anônimo disse...

Eu diria, essencial Rita! Linda homenagem...um carinhoso abraço. Hilda

Rita disse...

Obrigada pelo carinho, pessoas. (Recebo como um carinho a ela. Obrigada mesmo.)

Beijos

Val disse...

Lindo Rita! Tenho muito boas lembranças de sua mãe!

Marissa Rangel-Biddle disse...

"Quero contar à parte de você que vive em mim o que fiz no dia do seu aniversário."

Nao da para nao chorar.

 
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