O tempo, os ventos e o solo (de clarineta)


Um contador de histórias, assim se definia Erico Verissimo. Depois de contar muitas delas - mais de vinte romances, contos, livros infantis e os sete volumes d'O Tempo e o Vento - decidiu contar a história do contador. Solo de Clarineta, volumes I e II, encerrou a carreira do gaúcho. Com sua morte, a autobiografia, projetada para ser lançada em três volumes, foi interrompida durante a preparação do segundo livro. "Vou fazer o possível para continuar vivo e ativo por muito tempo", escreve ele em conversa com o espelho que o interroga: o ato de escrever a biografia é, afinal, uma despedida?

Não deveria ser. Verissimo deixou escritos, listas e rascunhos que apontavam para novos projetos. Morreu aos setenta anos. Ainda que cansado e convivendo com o fantasma do problema cardíaco que o acompanhava há anos, a impressão que fica é a de que ainda tinha histórias para contar.

E ele gostava de contar. Diante de seus relatos cheios de minúcias, parece evidente que a fonte era farta. Nas passagens em que descreve jantares e conferências, dos tempos em que atuou junto ao Departamento de Assuntos Culturais ligado à OEA ou de sua passagem por Portugal em 1959, a leitura chegava a ser, para mim, cansativa. Cada nome, rosto ou detalhe recebe uma descrição, uma nota que seja. Felizmente, o contador logo retoma um ritmo mais amigável - eu seguia lendo, com alegria. 


O primeiro volume cobre desde a chegada dos Verissimos ao Brasil, vindos de Portugal no início do século XIX, ao lançamento d'O Tempo e o Vento (Continente). Foi de longe meu volume favorito pela narrativa com tons de "contação" de história, como se diz aqui no sul do Brasil. A infância do menino com uma árvore no quintal e um livro no colo, um lar com as dores de um casamento infeliz, o colégio e os horrores da matemática (Verissimo era péssimo com números, destetava-os), a farmácia da família, a transformação do pai bonachão em persona non grata, os fantasmas que nasceram com a derrocada do pai, a rotina do pequeno município de Cruz Alta no interior do Rio Grande do Sul nas primeiras décadas do século XX... tudo é elemento digno das melhores histórias. No caso, uma história que caminha para um final feliz, de sorte e acertos, mas nem por isso livre de grandes e imponentes sustos e dores. Gostei de saber da trajetória vitoriosa do rapazote que escrevia contos em papel de embrulho, escondendo-se do chefe do armazém onde trabalhava, e se transformou em ícone da literatura de um país. Uma história boa.

O início do segundo volume nos apresenta ao grave problema cardíaco do escritor já famoso. Recuperado de um enfarte, Verissimo se lançou em viagens pela Europa. Os relatos dessas viagens praticamente preenchem todo o segundo volume da autobiografia. Como apreciei muito as narrativas do primeiro, mais voltadas à vida e à obra do escritor propriamente ditas, fiquei mais distanciada do segundo - que tem mais cara de livro de viagens do que de biografia. Ainda assim, fiz lá umas marquinhas em minhas passagens favoritas. E se um dia visitar Portugal, certamente voltarei a ele. Verissimo virou Portugal de cabeça para baixo. Tem-se a impressão de que não houve cidade não visitada, escritor português não mencionado, universidade ou templo não contemplado. É quase uma homenagem ao país de Eça. E de Camões. Pessoa. Camilo. Todos.

Ao longo dos dois volumes, a presença/ausência do pai Sebastião Verissimo nos dá uma ideia do gigantesco papel que ele teve na vida do autor - cada referência ao pai é tocante, ainda que tantas vezes carregada de dor. Em todos os capítulos, o tom que vi era o de um homem deveras solene, erudito, amante das artes e da liberdade. Humanista agnóstico, Verissimo gostava de templos (como eu - e o entendo tanto nessa aparente contradição) e definia sua rejeição à violência e seu amor à liberdade e a ideiais de justiça social como uma experiência religiosa, de comunhão. 

A edição dos dois volumes pela Cia das Letras tem muitas fotografias, além de desenhos, rascunhos e roteiros do escritor. O segundo volume traz ainda algumas cartas datilografadas, entre elas uma para o casal Clarice Lispector & Maury Gurgel Valente (1957), outra para (minha adorada) Lygia F. Telles (1970). A segunda parte desse mesmo volume traz nota explicativa do organizador da edição, Flavio L. Chaves, marcando a interrupção da escrita devido à morte de Erico. Flavio sinaliza o que é rascunho, e o que era texto já editado nas páginas finais. Por fim, presenteia o leitor com duas versões para a finalização do livro, o tal diálogo com o espelho (mesmo sem ter escrito todos os capítulos, Erico já havia preparado o desfecho do último volume; uma segunda versão foi encontrada, entre rascunhos). E então entendemos o porquê de a obra se chamar Solo de Clarineta.

É sobre a vida no interior do Rio Grande no século XX; é sobre o amor à literatura; é sobre ser artista; é sobre a liberdade; é sobre relações pai/filho; é sobre os ventos que levaram o contador a viajar pela Europa - ventos da Grécia, Portugal, Holanda, Espanha; é sobre o repúdio às ditaduras; é sobre o lar que buscamos ter. E é sobre a obra do Verissimo que, enfim, quero ler. 

1 comentários:

Daniela disse...

Oi Rita,

Obrigada por despertar a minha vontade de ler esse livro. Eu já li muitos Veríssimos antes, no início do ano reli Clarissa, mas acho que nem sabia que Solo de Clarineta era biografia. Vai furar a fila, com certeza. Eu tenho um carinho especial pelas biografias, gosto de ler para saber a vida do autor e para conhecer o contexto da época em que ele viveu (e ver como tem coisas que continuam sempre atuais).

Daniela

 
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