Lírios - e seu prefácio


A edição de Olhai os Lírios do Campo que li (Ed. Globo) traz um prefácio do próprio autor, Erico Verissimo, em que ele diz com todas as letras "não tenho muita estima por esse romance".  O prefácio foi escrito em 1966, quase trinta anos após o lançamento do livro que marcou uma grande reviravolta na vida do escritor. Foi Lírios que o tirou do anonimato e permitiu que ele passasse a viver exclusivamente da literatura. Foi também Lírios que vendeu de carona os lançamentos anteriores, até então encalhados nas livrarias. O Erico que escreve o prefácio de 66 é já o escritor consagrado pela trilogia O Tempo e o Vento e outros livros. Não li O Tempo e o Vento ou qualquer outro romance do autor posterior a Lírios, mas devo dizer que concordo muito com o prefácio de 66.

Muitas obras da literatura parecem pairar acima do tempo. A gente vê na trama do texto as marcas da época em que foram escritas, mas algo na história, na linguagem ou nas reflexões que provocam (ou seja lá o que for que toca o leitor) faz com que nunca percam a validade. "Tinham dado onze horas no cuco da sala de jantar", escreveu Eça de Queiroz em 1878, e o que segue nas páginas d'O Primo Basílio tem potencial para prender o leitor de 2016, mesmo com o cheirinho de mofo. São livros que se transformam numa janela confortável de onde espiamos os brilhos de outros tempos; livros-lunetas. Outros, porém, me parecem vencidos. Foi assim com Lírios. A história de Eugênio e da indefectível (zzzz...) Olívia não bastou para transformar a leitura num bom passeio pela década de 30 do século passado. Eu via quase tudo datado, vencido, aborrecido.

Digamos que a experiência foi salva pela autobiografia do autor que li recentemente. Foi interessante ver a inserção de fatos e personagens da infância e adolescência de Verissimo na construção da história. A profissão de sua mãe emprestada ao pai de Eugênio, ou o professor neurótico de guerra, do colégio interno da vida real, transplantado para o colégio do protagonista, por exemplo. Além disso, é instrutivo ver as referências à ascensão do fascismo e nazismo na Europa de 1938 e o deslocamento do personagem judeu Simão - o horror do holocausto já apontava na próxima esquina da história e essas referências antecipatórias são inquietantes. No entanto, os personagens são quase caricatos. O ganancioso fascista arrogante, o covarde e egocêntrico Eugênio, a insuportavelmente otimista-abnegada-cheia-de-fé Olívia - olha, nem Pollyanna. Concordo com Erico em seu prefácio: alguns traços de seus personagens "parecem inumanos" (referia-se especificamente a Olívia aqui; tenho a mesma impressão de outros personagens também).

Por fim, o livro perde o fôlego no meio do caminho. Quase nada da intensidade de eventos na primeira metade se mantém na metade final. Erico parece por vezes abandonar a história (que já parece mesmo resolvida) e passa a desfilar relatos curtos, paralelos - como se interrompesse a escrita para contar casos. A experiência, pra mim, foi semelhante aos fillers no meio de uma temporada das séries de TV. Erico resume em seu prefácio: "... a história se dilui numa série de episódios anedóticos sem unidade emocional".

Nem tudo é canseira. Há algumas cenas tocantes, alguns bons diálogos. Gosto do Seixas, o amigo de Eugênio com quem ele troca breves ponderações filosóficas no finalzinho do livro, personagem talvez mais solto e convincente do que a Oliviazzzzz. E, no fim das contas, gostei de ter lido - agora sei do que se trata. Já Erico foi mais duro: "Sua popularidade [do livro] às vezes chega a me deixar constrangido." Talvez não fosse pra tanto. Mas entendo e aprecio o olhar crítico e corajoso do escritor mais velho sobre sua própria obra.

Meu primeiro Verissimo foi Saga - desisti no início. Depois, em Solo de Clarinetavi que ele o considerava seu pior livro. Agora, Lírios... Mas sou teimosa. Ainda vou passear por Antares, dizem que o negócio é mais animado por lá. A ver. 

9 comentários:

BethS disse...

que fantástico: sabe que nunca tinha lido esse prefacio do verissimo? li esse livro faz bastante tempo, será que a edição não tinha esse prefácio? interessante...
vc diz diz bem sobre o livro, as vezes bem piegas... não é o melhor dele...
mas não desista de erico verissimo - incidente em antares e o tempo e o vento são infinitamente melhores!
beijo grande, querida.

Rita disse...

Não desistirei. :-)

TinaLopes disse...

Mas guria, vai logo pra o que interessa, todo O Continente.

Luciana Nepomuceno disse...

estou com a Tina

Rita disse...

Eu vou, eu vou. Mas agora voltei pra Nápoles...

Renata Lins disse...

Que coisa...
Eu guardo uma lembrança tão maravilhada desse livro.
Não vou reler, agora, de medo de ver essas coisas aí que tu contou.

Rita disse...

Renata, deixa assim. :-) Acho que esse lance da leitura tem muito muito a ver com o momento em que a gente lê mesmo. Fico pensando como teria sido meu envolvimento com Mulherzinhas, por exemplo, se eu o tivesse lido na adolescência. Porque pra mim foi, né... quase nada. Li agora há pouco; pra mim ficou o filme. Sua experiência com Olhai os Lírios é tão bacana, né. Mexe não. Bj!

Renata Lins disse...

Hahahaha mas Mulherzinhas eu leio e releio. E continuo amando... :)

Rita disse...

Eu achei bonitinho.

 
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