Espírito corujolímpico


Essa foi a semana das Olimpíadas do colégio, a primeira da turma do meu filho. A concentração nas salas foi trocada pelo barulho das arquibancadas. No lugar dos livros, tabelas e banners, enquanto o uniforme de uma cor só dava lugar ao colorido das equipes. Mochilas foram esquecidas. Mas se é verdade que as salas ficaram vazias, não é nem de perto verdade que eles não tiveram aulas. Pois tiveram, algumas bem difíceis, inclusive. Aprendizado foi exatamente o que se viu, e tenho cá comigo que alguns ensinamentos desses dias de aparente "folga" ocuparão seus corações por muito tempo.

Eu tenho minhas birras com o modelo tradicional de ensino, que praticamente domina a metodologia do colégio onde meus filhos estudam. Então vi com gosto esses dias fora da curva, em que eles precisaram botar a mão na massa e sentir na pele o que é, de verdade, planejar, organizar, trabalhar em equipe, buscar um acordo, respeitar o voto do outro, treinar, trocar horas de sono por compromissos nas primeiras horas da manhã, bolar estratégias, compensar fraquezas, valorizar os pontos fortes de cada um. Não é pouca coisa.

Às vezes a gente leva tempo para perceber o valor de pequenas vitórias quando elas estão acompanhadas por derrotas mais evidentes. A reflexão normalmente só vem depois da frustração, mas ela chega. Então essa foi uma semana de aulas bem produtivas. Do pouco que tive a chance de observar, percebi que a turma do meu filho avançou nos seguintes quesitos (todos muito úteis naquela matéria conhecida como "vem, vida, tô encarando"):

- Saber ouvir. Foram semanas de discussões acaloradas sobre os logos das camisetas, levantamento e uso de patrocínio, o que fazer no desfile da equipe na abertura dos jogos etc. A cada dia, ver a necessidade de balancear sua opinião com a vontade do outro. Dos exercícios mais desafiadores, e acho que se saíram com louvor. 

- Ser parte de um todo. "Todos juntos somos fortes" nunca sai de moda. Colocar o coletivo acima do individual é exercício para os grandes, e nossos quase adolescentes experimentaram o desafio: querer jogar, mas ceder a vez para quem teria mais chances de vencer; querer sumir, mas ficar lá, torcendo até o fim; querer desistir, mas segurar as pontas pelo grupo; querer ir na frente, mas entender que a outra formação é melhor. No quesito que ensina que o brilho de todos é melhor que o meu, foram dias de glória para vários deles. 

- Saber ver a beleza. Valorizar o que cada um tem de melhor e, ao mesmo tempo, oferecer ao grupo seu próprio capricho. E nisso foi um banho: não faltou quem soubesse desenhar, combinar cores, pesquisar sobre o tema da equipe, apresentá-la ao público, coreografar, levantar o moral da galera - para tudo havia um elogio no final do percurso. Seja se vestindo de mascote ou disputando na cara e na coragem partidas individuais, seja chamando pra si a responsabilidade ou indo lá na margem da pista gritar o nome do amigo na hora da corrida, vi nesses meninos e meninas aquele olhar que o esporte nos dá. Se era pra ser lindo, foi.

- Saber perder. O exercício mais difícil, porém talvez o mais valioso. É preciso aprender a lidar com a frustração, não é o que dizemos? Então nossos filhos e filhas foram lá e viram o placar que não queriam. E tal como atletas de ponta, choraram diante da derrota; e diante da tentação de duvidar da justiça dos números, aprenderam que há dias e dias, que não se ganha sempre, e que o lugar mais baixo do pódio pode ser tão digno quanto o primeiro - desde que percebam o valor que cada dia dessa semana teve para eles.  

- Saber vencer. Vibrar (com respeito a quem perdeu). Soltar o grito diante do amigo que, uau, saltou gloriosamente! Abraçar a corredora bailarina que venceu sua bateria. Berrar o nome do amigo que se destacou no lançamento de peso. Tá, admito: essa lição é mais fácil, a gente aprende rapidinho a delícia da vitória. Dá pra ir além, porém: usar cada conquista para lembrar que a gente pode muito nessa vida. Torço que eles não se esqueçam dessa parte, nunca, nunca. 

Li por aí que o objetivo de uma olimpíada não é revelar os melhores atletas, mas mostrar ao mundo nossa capacidade de superação. Não sei se a olimpíada que acabo de ver revelou algum atleta (quem sabe...), mas vi de camarote (mentira, vi sentada na grama) nossos meninos e meninas lutando pela tal superação. Foram pequenos guerreiros. Pra vocês, 6º ano 3, meus sinceros parabéns! Seus lindos!

2 comentários:

Luciana Nepomuceno disse...

chorei. li de novo pra poder comentar e chorei de novo. tão lindo isso. todo mundo aprende, até quem assiste (minha especialidade).

BethS disse...

tão importante para as crianças eventos como esses.
e estudar numa escola que está atenta e com professores abertos e sinceros.
lindo demais o seu texto...
beito querida rita.

 
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