De medos, risos e labirintos


Enfim passei alguns dias na tal abadia italiana do século XIV. Segui os passos de Adso de Melk e do frei Guilherme de Baskerville em meio aos torreões da biblioteca-labirinto, entre um assassinato e outro. Em cada coluna da abadia, que imaginei linda, vi soberba, desejo, hipocrisia, fé, perguntas; e, especialmente, poder e medo (quanto mais se impõe o segundo, mais se ganha o primeiro, desde tempos imemoriais, não é mesmo?). Sei que vocês já sabem, mas me deixem repetir: O Nome da Rosa (Umberto Eco, Ed. Bestbolso, tradução de A. F. Bernardini e H. F. Andrade) é uma delícia de livro.

"Stat rosa pristina nomine, nomina nuda tenemus."

Deve caber sob o rótulo de "romance policial", talvez igualmente se preste à denominação de "romance histórico", cada leitor que se divirta do seu jeito. Pra mim, a trama policial serve de boa fachada, vá lá, mas o livro foi como uma catedral que além do colorido dos vitrais vistos de fora me ofereceu o jogo de luz ainda mais interessante lá dentro da nave. A gente vai brincando de polícia e ladrão, imaginando o barato que seria desvendar as esquinas da labiríntica biblioteca da abadia, maravilhando-se diante do trabalho dos escrivães da época (e como não?), mas no fim ninguém se engana: de página em página, o velho novelo da imposição do medo a dominar corações e mentes vai se desenrolando. E aos pouquinhos a gente vai descobrindo as verdadeiras caras do "diabo". Das leituras que a gente deixa pra depois porque não sabe o que está perdendo, não sabe o tanto que a obra diz sobre a força... do riso. Saboroso.

***  

A edição da Bestbolso traz nas páginas finais algumas considerações de Eco sobre o processo de criação do livro. Traduzido como "Apostilas a O nome da rosa" (datadas de 1983; a primeira edição do livro é de 1980), são 35 páginas de brinde para quem está lamentando ter terminado a leitura. As breves seções desse texto são pitadas do próprio Eco sobre as pesquisas para a escrita, sobre a Idade Média e a "criação do mundo" da história, as revisões da obra, a voz do narrador, o leitor imaginado, o romance policial etc.
"(...) Um título deve confundir as ideias, não enquadrá-las."

"(...) Descobri, então, que um romance nada tem a ver, em primeira instância, com as palavras. Escrever um romance é uma tarefa cosmológica, como a relatada pelo Gênese (temos, afinal, que escolher algum modelo, dizia Woody Allen)" - Aqui Eco nos conta que passou todo o primeiro ano de trabalho em torno do livro dedicado à "construção do mundo".

"(...) A luta contra a emoção foi duríssima."

"(...) E eu, que leitor modelo queria, ao escrever?  Um cúmplice, claro, que topasse meu jogo." 
 o/

"(...) Há dois anos venho me recusando a responder a questões ociosas. Do tipo 'sua obra é aberta ou não?' Que sei eu, isso não é comigo, isso é com vocês. Ou então: 'com quais de seus personagens você se identifica?' Oh, Deus, mas com quem se identifica um autor? Com os advérbios, é óbvio." 

"(...) cada um tem uma sua ideia própria, geralmente errada, sobre a Idade Média. Somente nós, monges daquela época, conhecemos a verdade. Só que, ao dizê-la, somos às vezes levados à fogueira." 
:-)

***

Quando Eco morreu, em fevereiro deste ano, lamentei. Hoje, lamento muito, muito mais. 

4 comentários:

Renata Lins disse...

Eco era um amigo. Aquele cara que faz bom você saber por ali. Conheci primeiro lendo os livros de semiótica. Em italiano, porque assim eles estavam. Li, amo e recomendo sempre "como fazer uma tese". Eu, que adoro manuais e formas de fazer explicada, que adoro palavras e suas mecânicas... ali tinha tudo, naquele livrinho cujo objetivo era tão direto. Aí depois, bem depois, cheguei ao Nome da Rosa.
Um alumbramento.
Chorei um monte quando ele morreu. Fiquei com vontade de chorar de novo.
Eco, arrivederci! <3

Rita disse...


Eu gostei de Cemitério de Praga, mas nem de perto do jeito que gostei d'O nome da rosa. Já me vejo dando uma segunda chance ao Baudolino, que comecei e larguei anos atrás. O Pêndulo de Foucault também mora na minha estante, dado de presente ao Ulisses há tanto tempo. Ou seja: ai, que beleza. :-)

BethS disse...

eu amo umberto eco, que foi meu companheiro de estudos e discussões na faculdade, com a "obra aberta" e "apocalipticos e integrados". depois li o que veio a seguir. e gosto de quase tudo. o 'cemiterio de praga', 'a rainha loana', 'pendulo de foucoult', 'zero', 'a historia da beleza' (maravilhoso livro que dei pra fal), 'a historia da feiura', o 'baudolino' (que é um livro leve e engraçado, você deve ler). os dois 'diários mínimos'...
fiquei muito mexida com a morte dele, era como um amigo querido e sempre presente.
meu 'o nome da rosa' é velhinho, todo riscadinho e de paginass amareladas... fiquei a fim de reler...
beijo!

Rita disse...

Beth, a Fal também me indicou a Rainha Loana; vou à cata dos história da beleza/feiura na Estante Virtual, vejamos se estou com sorte. Beijos!

 
©A Estrada Anil - Todos os direitos reservados. Layout por { float: left; }