"Palavra por palavra"


"Manhã noiteira, sem sol..."

***

Vou tentar dizer, certamente vou falhar. Um livro-passeio. Vamos ali, num mundo outro feito todo de palavras-natureza. Ler Sagarana é em parte isso: ver a linguagem misturada com a natureza. Tenho a impressão em minhas parcas leituras que Guimarães Rosa ilustra como ninguém essa coisa de criar o mundo enquanto o descreve, essa coisa muito mágica de revelar a lacuna entre coisa e palavra ao mesmo tempo em que manipula a linguagem de tal forma que toda ela vira/revela mundo. Viram, falhei já. Não sei dizer. 

E nem foi como ler Grande Sertão, não foi, não foi. Foi talvez como ler A Terceira Margem do Rio, às vezes, um abandono. Em outros momentos, foi gargalhada alta. E foi também silêncio e mão à boca para calar o susto, como no dolorido Conversa de Bois, o penúltimo dos nove contos do livro. Na maior parte do tempo foi prazer simples diante do tecido dos textos. Há a história, mas há especialmente o trabalho de artesão de quem tem na língua o barro a seu bel prazer. E que mãos... 

O Burrinho Pedrês, primeiro dos contos, manteve a liderança em minha preferência, mesmo depois de ler A Hora e a Vez de Augusto Matraga, que encerra o livro com todas as honras; mesmo depois de tanto Sertão, tanta boiada, tanta fala sertaneja, tanto pasto e o cheiro das fazendas invadindo o cérebro, tanta chuva grande e linda, e tanta dor e valentia; mesmo depois de todas as estradas de chão e suas crianças boiadeiras; mesmo assim, foi para as páginas d'O Burrinho Pedrês que voltei várias vezes, pra ver de novo os cavalos todos que já haviam "vadeado o córrego e descambado a serra".  

A edição que li, da Nova Fronteira, traz, além da linda capa aí em cima, o famoso poema publicado por Drummond três dias após a morte de Rosa.

"(...)Vegetal ele era ou passarinho
sob a robusta ossatura com pinta
de boi risonho?" (...)

Traz ainda prefácio de Paulo Rónai, escrito em 1946, ano da publicação de Sagarana; e uma carta do autor ao escritor João Condé em que Rosa fala da gênese do livro, incluindo comentários específicos sobre cada um dos contos. 

Pra ler rapidinho - prefácio, poema, carta - e se demorar mesmo, no tempo dos bois, diante de cada amanhecer e entardecer da linguagem, ouvindo a chuva "farfalhando rumorosa" e ver o devagar das coisas, onde mora toda a poesia dos mundos.

"E, com isso, deixaram todos de caber no dia, que rodou e se foi, redondo e repleto, com a tarde cair rente, uma tarde triste de tempo frio."

1 comentários:

Luciana Nepomuceno disse...

eu fico genuinamente feliz ao ler eta resenha. eu, que sou inútil nesta escrita, mas imensa no amor por este livro. é tão bom vê-lo bem-dito.

 
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