Na terra de flores diminutas


A Fazenda Africana, Karen Blixen, Círculo do Livro (Trad. Per Johns)

A única coisa verdadeira na capa acima é o subtítulo entre parênteses. Isak Dinesen é na verdade pseudônimo usado pela escritora dinamarquesa Karen Blixen; Entre Dois Amores é o nome que o filme produzido a partir de A Fazenda Africana recebeu; e por mais que eu goste de Meryl Streep, e gosto muito, a fotografia do olhar apaixonado diz nada sobre o que se esperar quando o leitor abre o livro.

A Fazenda Africana foi escrito em 1934 a partir da experiência de Blixen no Quênia, onde viveu por quase duas décadas. É engraçado pensar em um livro autobiográfico publicado sob um pseudônimo, mas eu diria que essa não é a única peculiaridade d'A Fazenda. É uma autobiografia onde a narradora se mostra mais pelas descrições que faz do ambiente onde viveu do que por meio de qualquer autorretrato que ela pudesse nos oferecer. O resultado é um retrato mais amplo, todo formado pelos elos que uniam a escritora ao lugar

"Até então eu fora uma parte desse cenário, 
e a seca fora como uma febre e o florescimento dos plainos na savana 
como um novo vestido." 

"Tive uma fazenda na África, aos pés das montanhas Ngong." - Assim iniciamos nosso passeio guiados por uma espécie de diário de bordo. Cada capítulo se volta a um elemento em particular daqueles anos: o convívio de Blixen com nativos das etnias kikuyu e massai, o plantio de café, o corte das árvores, os safáris, as festas, os bichos, o açude, os conflitos que a autora intermediou, as chuvas, os temíveis ganfanhotos que destruíam tudo. A escrita clara de Blixen prendeu minha atenção em todos os temas, fosse ele o cozinheiro da fazenda ou um filhote de antílope. Porém, a cada página virada, eu esperava pela beleza nas descrições da paisagem que cercava a fazenda - minhas passagens favoritas.

"Vezes sem conta observei o avanço das girafas através dos plainos, 
com seus inimitáveis e estranhos movimentos vegetativos, extremamente graciosos, como se não fosse um agrupamento de animais e sim uma família rara de gigantescas flores malhadas e de longas hastes em lento avanço." 
(as girafas nunca foram tão lindas)

Alguém que se refere a um pedaço de carvão vegetal como "pequena e negra múmia da floresta" tem um repertório aparentemente infinito de imagens para seduzir o leitor. Junte-se a isso a abundância da paisagem, fauna e flora africanas e o resultado é uma sequência igualmente infinita de suspiros.

O personagem vivido por Robert Redford no cinema, Denys Finch-Hatton, está no livro. Mas, assim como ocorre com todos os demais personagens, evidencia-se mais a relação de Denys com a África do que com a protagonista - como se as pessoas e a terra formassem, afinal, um mesmo organismo. E mal Blixen começa a falar de Denys, logo se demora em descrições de sua casa no litoral, em Mombaça, na baía de Takaunga: 

"A costa abaixo da casa oferecia uma fileira de grutas e cavernas recortadas na pedra onde se podia ficar sentado na sombra, observando a distante e faiscante água azul. (...) O tempo era de lua cheia quando estive em Takaunga e a beleza das noites imóveis e radiantes era tão perfeita que o coração se desfazia sob seu encanto."

Blixen foi para o Quênia logo após se casar com um barão, de quem se divorciou anos depois; viveu suas tragédias pessoais na infância, ainda na Dinamarca - o pai se suicidou quando ela tinha apenas 10 anos; nascida em família aristocrática, estudou em escolas suíças de renome - mas essas e outras informações colhemos em outras fontes. Em A Fazenda Africana, Blixen preferiu se mostrar a partir de sua relação com o microcosmo da fazenda. E é na sua maneira de enxergar aquele mundo que a percebemos mulher sensível, de alma livre e coração aberto. Alguém que olha para a savana e vê "cores secas e queimadas como as cores de uma cerâmica", que nas folhagens das árvores enxerga "navios de velas desfraldadas"

O livro se encerra com seu retorno à Dinamarca, e percebi que não senti curiosidade em saber que vida Blixen levou após sua experiência na África - sei que sofreu com distúrbios alimentares graves no fim da vida, mas não sei muito mais do que isso. Vou me ater ao recorte autobiográfico que ela escolheu para nos mostrar e, sempre que pensar nela, vou visualizar as planícies cobertas pelas pequenas flores azuis que ela tanto amou.

***

"Minha" rara flor gigantesca malhada de longa haste em lento avanço 
- África do Sul, 2012.


5 comentários:

Luciana Nepomuceno disse...

eu amei esse livro e amei o filme com amores diferentes, que eu nunca soube explicar direito. lendo seu post, quase vislumbrei a resposta, mas ela escapuliu. talvez o que me falte é tempo, como o que qualifica, discreto ou intenso, os espaços narrados.

Tina disse...

Eu sabia 😉

Renata Lins disse...

quero muito ler.... e adorei a descrição inicial do post.
senti falta do nome do(a) tradutor(a), já que pelo que entendi você leu em português: a linda frase sobre as girafas não é bem da Blixen, né? É de quem trouxe pra gente aqui.... :)
mas ri quando vi que você ansiava pelas descrições da fazenda: por mais que eu possa achar essas passagens lindíssimas, espero pelas pessoas. leio "esperando passar". e me dei conta disso lendo seu post.

Rita disse...

Renata, o nome do tradutor (ou tradutora, não sei) é Per Johns e está na legenda da foto que abre o post. Faço questão de colocar, inclusive na lateral do blog, onde indico o que estou lendo no momento e o que li recentemente.

Bj

Rita disse...

(Falando nisso, não tenho indicado os tradutores das obras do Freud porque não encontro nos arquivos online que tô lendo; são traduções de traduções - alemão-inglês-português - e não encontro os nomes dos tradutores inglês-português.)

 
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