A cozinha


Há tempos planejo uma reforma na cozinha que sequer sei se ocorrerá um dia. Já cheguei a encomendar projetos, assim, no plural. Já gastei algumas  horas comparando pedras e mármores e cores e portas e vidros. Sempre postergo, penso nisso depois. Compro passagens para as férias, e a cozinha fica, acumulando desníveis. Um forno que não encaixa, uma porta que nunca fecha, mais uma mancha.

Ontem o cano desencaixou. A água invadiu o armário, escorreu por alguma fresta da madeira e encharcou o tapete sob meus pés. Suspirei, peguei o rodo. Depois de secar o armário e observar a ferrugem tatuada na prateleira, decidi me livrar de algumas panelas velhas. E fiquei me perguntando por que razão mantive por tanto tempo: uma chaleira cuja tampa não abre mais, uma leiteira sem cabo, uma frigideira das cavernas, uma panela de pressão assustadora. Quase agradeci ao cano inconveniente pelo novo arranjo, algum conforto para as peças efetivamente em uso.

Foto daqui.
Minha cozinha precisa de reformas. É, mesmo assim, um dos meus cantinhos favoritos da casa, ainda uma metáfora para certas fases da vida. Ela tem uma janela que me deixa ver a passarada, com um beiral sempre florido porque os vasinhos se entendem e revezam o tempo das cores; ela é aberta, a casa inteira parece ao alcance da mão, incluindo o jardim lá fora que me acena das janelas no outro lado da sala. Ontem, ela tinha cheiro de limão siciliano. Ela tem idade como algumas memórias e incômodos, mas sempre me acolhe com toalha bonita e caneca de café quentinho. Ela me recebe quando chego de meias, é minha cúmplice na fome noturna. Ela sabe umas coisinhas. Ela aceita os ímãs na porta do freezer, resignada diante das lembranças das viagens que adiam sua reforma. Ela é como uma alma, em nossos melhores momentos.

Quero tentar tratar assim minha própria história: ser paciente com os incômodos, curtir os perfumes, celebrar apesar dos desníveis. Nos momentos de angústia, tratar as manchas e jogar fora o que não me serve. Olhar para as lembranças do que fiz como aquilo que realmente são: escolhas. Como aqueles ímãs, ao invés de um piso brilhante. E cuidar do principal, tratando com cuidado daquilo que de fato me alimenta.

Há tempos planejo reformas que sequer sei se ocorrerão um dia. Coleciono projetos. A vida segue, acumulando delícias. Se um dia uma grande reforma vier, que o principal se mantenha: alimentos feitos com afeto.

6 comentários:

Renata Lins disse...

que delícia de cozinha e de texto, Rita. Sábio....

Rita disse...

Obrigada, flor. Espero você prum café.

Luciana Nepomuceno disse...

fiquei dividida: provar as delícias na cozinha novamente ou te encontrar nas delícias das andanças, numa esquina qualquer. só sei que quero.

Mi disse...

Não se sinta só. Comecei uma mini-reforma em casa ano passado, e então me livrei do sofá e da mesa de jantar para serem substituídos... e desde então (1 ano), a minha "é uma casa muito engraçada", não tem mesa e não tem sofá. Quero muito comprá-los, mas também tenho preferido usar o dinheiro para viajar, e o tempo para sonhar acordada rsrs
(nem me pergunte como estamos nos virando sem mesa e sofá)
Quando/se um dia vier, que traga bons momentos em família.

Foureaux disse...

Muito bom o texto, carregado de emoção.

Anônimo disse...

Que texto delicioso, daqueles que dá vontade de ler sem parar. Gostei muito :)
Sílvia

 
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