O menino que colecionava besouros



Yours, very faithfully.
Numa carta datada de 14 de novembro de 1838 e enviada à sua noiva, Emma Wedgwood, Charles Darwin escreveu: 


"rogo-te que não leias minhas cartas para ninguém, pois assim posso imaginar-me sentado ao lado de minha querida futura esposa, & diante dela, não me importam as tolices que eu possa dizer"

Esse trecho salta da página 115 da edição traduzida d'As Cartas de Charles Darwin*, dando uma reforçada naquela sensação bisbilhoteira que a gente sente (a gente = eu) quando lê biografias epistolares. Cento e setenta e oito anos e tantos fósseis descobertos depois, vamos supor que ele nem se importaria, right? Ok.

A primeira carta nessa seleção foi escrita pelo Darwin de 16 anos, aluno de medicina da Universidade de Edimburgo, curso que logo trocaria por um bacharelado em Cambridge. Seu pai esperava que ele concluísse os estudos necessários para se tornar um clérigo, mas aos 22 anos Darwin conseguiu apoio paterno para embarcar no Beagle - e deu início à odisseia científica que mudaria os rumos de sua vida e, mais tarde, lançaria as bases da biologia evolutiva.

As cartas escritas durante a viagem do Beagle formam um trecho pequeno do livro, cerca de 50 páginas. A primeira e a última cartas dessa época foram enviadas de "Bahia ou S. Salvador" (o Beagle passou por nossa costa na ida e na volta). Não há cartas enviadas de Galápagos, mas sobram relatos sobre enjoos (tadinho). Creio que o Diário escrito a bordo seja bem mais rico e interessante do que as cartas. 

A viagem do Beagle, contudo, alimenta boa parte do conteúdo das cartas escritas ao longo das décadas seguintes - e aí está a diversão para leitores interessados no Darwin cientista. Há também várias sobre assuntos mais íntimos, problemas de saúde seus e de familiares, por exemplo. Mas é do processo de descobertas científicas de Darwin que tratam muitas das linhas mais interessantes da seleção: a rotina de estudos, os critérios, as minúcias, o avanço necessariamente lento. Lento e cuidadoso, como que ciente da grandeza do desenho que estava fazendo. Me emocionam, especialmente, a paciência e o empenho em coletar coletar coletar. Observar a natureza, decifrá-la, coçar a cabeça diante dos enigmas, consultar outros especialistas, confrontar dados incansavelmente: a beleza do estudo, da busca. Me encanta a honestidade intelectual das perguntas: por quê, cargas d'água? como? E, claro, tão bom dar uma espiadela no que deve ter sido um entusiasmo quase sufocante:


"... e nunca parei de colecionar dados. Por fim, surgiram alguns raios de luz, e estou quase convencido (contrariando a opinião com que comecei) de que as espécies não são (isto é como confessar um assassinato) imutáveis." (1844) 

As cartas de Darwin nos fazem humildes. Ou deveriam. Uma vida inteira dedicada a observar a natureza e a tentar desvendar alguns de seus mecanismos mais extraordinários. Mas observar de verdade, olhando desarmado dentro dos olhos do mundo, com um único objetivo: entender. Um homem de saúde frágil, com uma mente brilhante e uma coragem imensa. É verdade que não precisávamos de sua correspondência; ele viveu o suficiente para publicar e revisar várias edições de seu livro revolucionário. Publicou vários outros escritos, temos seu Diário do Beagle. Darwin teve voz ativa na comunidade científica, foi enterrado com honras de Estado, seu legado estaria a salvo independente das cartas que hoje bisbilhotamos. Mesmo assim, fica aquele gostinho de ter chegado um pouco mais perto, de ter passeado por aquela sala cheia de coleções de besouros, de ter navegado um pedacinho assim de mar com ele. De ter também se sentido minúsculo diante da "floresta gloriosa". Aí é só forçar um pouquinho mais e posso me ver sussurrando sobre seus ombros enquanto ele disseca mais um besouro: thank you, Sir. 

***
* As Cartas de Charles Darwin - Uma Seleta 1825-1859, Editora UNESP / Cambridge University Press, Tradução Vera Ribeiro. 

6 comentários:

Renata Lins disse...

que lindo isso. e essa frase sobre colecionar dados. colecionar dados, agrupá-los, olhar pra eles com respeito. tentar não impingir aos dados o que você quer que saia dali. tentar olhá-los por si, mesmo que te digam coisas que você preferiria não ver. como, por exemplo, que a Bíblia não podia estar certa.
Beijos.

Luciana Nepomuceno disse...

gosto tanto do jeito que você resenha livros. e amo ler correspondências, parece que a gente pega as pessoas de pijama.

BethS disse...

esse livro vai chegar nas minhas mãos, comprei na estante virtual semana passada. quero muito ler, adoro diários e cartas e biografias.
e você resenha tão bem que só fico com mais vontade.
beijo!

Marissa Rangel-Biddle disse...

Eh um perigo vir aqui ler resenhas de livros e, ainda por cima, cartas!

Roberta de Felippe disse...

Fiquei com vontade de ler, seu estilo de resenhar é genial. Cheguei no seu blog através da Central do Textão e quero acompanhá-lo pois gostei bastante. Um beijo.

Rita disse...

Melhor coisa do CT foi trazer de volta esse convescote nas caixinhas de comentários. <3

Isso que a Renata falou é digno de nota mesmo: a verdadeira pesquisa não tenta colar nos dados as expectativas de quem conduz as perguntas. É difícil, somos humanos. Mas o resultado das análises honestas é o que importa, no final. E as cartas do Darwin mostram como ele foi enorme nisso, na honestidade, no cuidado. Muito amor.

Roberta, seja bem vinda, vai ficando. :-)

 
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