Bisbilhotices literárias


Vinte e seis anos de correspondência produzida em máquina de escrever, endereçada ao escritor Fernando Sabino, imaginem. O Rio é tão longe - Cartas a Fernando Sabino, de Otto Lara Resende (Cia das Letras), tem conversa fiada pra mais de metro. Quatrocentas páginas de impressões sobre quase tudo, da literatura ao cigarro. Escritas entre 1944 e 1970, as cartas a Sabino cobrem os períodos em que Otto atuou como adido cultural do Brasil na Europa, ora em Bruxelas, ora em Lisboa, intercalados com períodos passados no Rio. São cartas, mas aqui e ali são a boa e velha literatura. 

Embora na maior parte do tempo Otto se lamente sobre as agruras da rotina no trabalho, o barato do livro está camuflado entre uma reclamação e outra, no meio dos apelos quase chorosos por notícias do Brasil. Aliás, são muitos os apelos, às vezes melodramáticos, para que seu amigo interlocutor escreva, escreva logo - "Fernando, seu silêncio repulsivo não merece comentário", "Fernando, eu inundo você de cartas e você nada!", e por aí vai.  Entre um choramingo e outro, estão relatos que envolvem estrelas da literatura e do jornalismo brasileiro da época, descrições de viagens e casos curiosos no meio editorial, toda sorte de críticas feitas em cochichos, aqueles comentários que guardamos para os ouvidos nos quais confiamos - os dois mineiros foram amigos de vida inteira, desde a juventude compartilhada em Belo Horizonte. 

Pelas cartas de Otto, vemos Sabino ganhando fama, sua literatura se espalhando, o Brasil entrando nos anos da ditadura, Clarice publicando, Vinícius arrasando corações, João Cabral virando estrela, Rosa encantando a todos. Cá do nosso mundinho de leitores sedentos, tudo parece um abuso: é um tal de interromper carta porque Vinícius está ao telefone, cof cof. Em alguns momentos é como fofocar com charme. :-)



As cartas reproduzidas em O Rio é tão longe foram organizadas e editadas, em um primeiro momento, pelo próprio Fernando Sabino. A proposta para publicação foi feita a Otto mais de uma vez, mas ele recusou ou adiou o feito. Somente após a morte de Sabino, em 2004 (Otto já falecera em 1992), a edição foi resgatada pelo Instituto Moreira Salles e publicada em 2011. 

Eu me diverti, torci o nariz, reclamei, conversei com o autor enquanto bisbilhotava suas cartas que não eram pra mim. Pensei "céus, que cara chato", "ah, que lindo", "de novo, esse assunto?", "ah, meu, cê tá é doido" ou "tá, nisso concordamos" etc. E fiquei com uma vontade danada de correr pros contos e crônicas do Sabino outra vez. 

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Um docinho (carta escrita no Rio, para Sabino em Londres):

"Estou lendo sem parar o Grande sertão. Como eu vou à Escandinávia, ando numa ansiedade danada, aquela agulha debaixo da pele, o coração apertado, fisicamente apertado, então meu seio materno, eu criança saciada, dormindo e de quando em quando arrepiada com aquele repuxão, então agarro no seio e começo a mamar, o seio é a literatura do Rosa, me fecho no banheiro, quede que eu vou cuidar da vida, vou é ler o Zé Bebelo, o Riobaldo, aquela coisa. (...) Eu falo com ele [Guimarães Rosa] todo dia de manhã. Quem mandou você ir embora pra Londres?" :-)

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