Vasto



Viajar pelo mundo registrando o modo de vida e trabalho de diferentes povos; passar por mais de 120 países e deles levar imagens que traduzem a diversidade humana; ressaltar as profundezas da dor e da solidão nos campos de refugiados, focar nos horrores da exploração de trabalhadores mundo afora; captar a beleza das esquinas ainda intocadas do planeta; contar histórias em branco e preto que muitas vezes revelam mais do que relatos tortuosos; revelar a pluralidade das relações do homem com a natureza, da simbiose quase poética à (auto)destruição mais burra: Sebastião Salgado fez tudo isso. No livro Da minha terra à Terra, escrito com a jornalista Isabelle Francq (Ed. Paralela, tradução de Julia da Rosa Simões), ele conta um pouco das histórias por trás das fotografias que o consagraram como um dos maiores fotojornalistas do mundo. Há quem o admire incondicionalmente; há quem questione o que consideram a escolha de ter no sofrimento do outro o objeto de sua arte; a discussão me parece válida e difícil. Não sei as respostas e eu mesma tendo a fugir das imagens que me chocam. Quando procuro por fotografias de Salgado, opto por me refugiar nas imensidões outras, de vales e rios, montanhas e bichos. O que isso diz sobre minhas fraquezas, sei lá. Salgado diz que não temos o direito de não saber o que se passa em nosso tempo - e suspeito que ele tenha razão. O que me pega é saber que o que pra mim é arte para o retratado é só dor. Resolvam aí a questão pra mim, por favor. 

Da minha terra à Terra é sucinto, meio tímido. Os capítulos curtos abrem o apetite, mas não saciam nossa fome. Eu queria saber mais sobre os oito anos de viagens que culminaram na exposição/livro Genesis (que tive a sorte de ver no Rio, em 2013, como contei aqui). Queria ler mais sobre as semanas passadas em meio aos zo'és nas entranhas da Amazônia. Queria detalhes das caminhadas que o fotógrafo fez pelos vales da Etiópia; queria capítulos e capítulos sobre as várias visitas a Ruanda que o permitiram acompanhar períodos tocantes e dolorosos da história daquele país. Acho que apenas os relatos das passagens de Salgado pelos países do continente africano já renderiam um longo livro. Mas talvez aí esteja o ponto: a linguagem de Salgado é outra, sua forma maior de contar é a fotografia. 

Fuçando a rede aqui e ali, encontrei um bom artigo sobre obra e contradições de Salgado. Da minha terra à Terra segue um pouco pela tangente de questões mais espinhosas, talvez; é antes um convite para olharmos para nossa casa, para o processo impressionante da formação de nosso planeta e de nossa espécie - de todas as espécies. O trabalho de Salgado, especialmente em Genesis, seu projeto mais recente, com fotografias de partes do planeta ainda intocadas pela industrialização, me parece uma declaração de amor e encantamento pela vida e sua evolução. O livro ...Terra em si pode ser mínimo, uma olhadela pela fresta da janela. O que ele aponta, contudo, é pura vastidão.

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