Na estrada, na barraca, no cânion



Por conta do aniversário de Florianópolis, o feriado de Páscoa se transformou em um feriadão com cara de miniférias. Mesmo encarando a previsão do tempo e seus anúncios de chuvas fortes espalhadas pelo final de semana, botamos a barraca no carro e seguimos para cinco dias de acampamento - nosso período mais longo em um camping até aqui. Usamos argumentos razoáveis como "vai que a chuva muda de ideia" e pegamos a estrada. A chuva não mudou de ideia e caiu poderosa, é verdade. No entanto, deu tudo tão certo que o aguaceiro virou personagem da história, mais do que contratempo. Teve lama, mas também teve sol e cores. E cânions. 

No dia 01 deixamos Floripa e dirigimos por três horas e meia pela BR 101 rumo à divisa dos estados de Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Por volta do meio-dia, chegamos ao município de Praia Grande/SC - que não é grande, nem tem praia, como bem observou Ulisses. Conforme planejado, almoçamos em um restaurante local antes de seguirmos para o camping - sempre melhor armar as barracas de barriga cheia. O restaurante Casa Nossa, escondido do mundo lááááá num ponto qualquer daquela estrada de chão, estava aberto e vazio. Em pouco tempo, com uma chuva fina já caindo lá fora, estávamos com pratos bem servidos de comida caseira delicinha, e as crianças já estavam com o pé na grama molhada, agarradas aos gatos da vizinhança.

Praia Grande não tem praia, mas tem uns morros mais ou menos. :-)
O primeiro de muitos.

Já havia no ar aquela vibe "que bom que a gente veio". Brindamos aos amigos que estavam ali e aos que não puderam ir e seguimos rumo ao camping.

Escolhemos uma área de camping dentro de um resort, decisão que se mostrou acertada dois dias depois quando a chuvarada despencou. O lugar estava praticamente vazio, porque ninguém com juízo sairia de casa para acampar com aquela previsão do tempo, não é verdade? Como campistas, tínhamos acesso à área de lazer do lugar e usufruímos dela com gosto. Transferimos toda a tralha para a churrasqueira coletiva (que acabou sendo usada só por nosso grupo), estrategicamente situada ao lado do salão de jogos, e comemos e jogamos e brincamos enquanto os céus desabavam. À noite migramos para nossas barracas e dormimos embalados pelas gotas grossas tamborilando nas lonas, pensando "amanhã a chuva passa".



Mas estou atropelando as coisas, porque isso foi na sexta-feira. Antes, tivemos uma linda quinta-feira de sol e fomos dar uma olhada num daqueles lugares que nos lembram como vivemos em um planeta tão, tão incrível. Fomos ver o cânion do Itaimbezinho, no Parque Nacional Aparados da Serra.

Vamos subir?
Durante cerca de uma hora, subimos por uma estrada de chão sinuosa (com pequenos trechos de asfalto no início da subida) e cheia de placas simpáticas.


À medida que subíamos e perdíamos a fé de que um dia chegaríamos a algum lugar, o visual dava dicas do que o morro escondia. Aqui e ali ouvíamos um barulhinho de água correndo pelas pedras, enquanto as copas inconfundíveis das araucárias chamavam "venham".


Guiados por borboletas brancas que se exibiam sobre os carros, e muitas curvas emocionantes depois, chegamos ao Parque. A entrada é paga (oito reais por adulto, além de cinco reais como taxa de estacionamento), mas crianças têm acesso gratuito. Consultamos a central de informações e optamos por uma trilha não muito longa (nossa trupe incluía seis crianças e um bebê de colo) e fomos. Agora não sei contar mais. Só me lembrar da enorme garganta aberta na rocha, expondo aqueles paredões gigantescos, a cascata despencando como uma língua de alegria celebrando a natureza: nosso planeta é lindo, o mundo é incrível e o tempo é um escultor dos mais talentosos. Ave, vida. Obrigada por tanta beleza.







Mundo, mundo, vasto mundo.


Só vejo flores.



Portanto não podíamos reclamar de mais nada. Na madrugada seguinte, quando a chuva prometida veio, pensei em toda nossa sorte - afinal ainda tínhamos dias pela frente e já havíamos visto tanto. Então comemos mais e aproveitamos o que estava ali. Revelamos novos talentos, inclusive.

Tudo profissa.
Aí a chuva parou - e ainda tínhamos dois dias. \o/


Le retour du soleil.


 
 
 

Tínhamos um bebê fofinho.
De pijaminha no acamps.
Tínhamos os morros em nossa volta - e só saber que os cânions estavam "logo ali" era como comungar com aquela beleza toda. 

  

Por falar em beleza, no sábado as nuvens abriram todas as cortinas e revelaram uma noite estrelada de fazer suspirar os mais carrancudos. As crianças desligaram as lanternas e olharam para o alto, Amanda disse nunca ter visto "uma noite assim". A trilha de tantas estrelas acenando de tão longe, destacadas pela escuridão do meio do camping e pontilhando o céu de uma ponta a outra, foi como uma canção: estrada tão bonita. Que bom poder mostrar aquilo para nossos filhos.

Mais tarde, ela também veio.
Por falar em beleza, de novo.



Quando o domingo nasceu e as barracas tinham pequenos ovinhos de chocolate na entrada, Ulisses e eu nos sentamos diante daquele verde e fizemos planos de acampamentos futuros - o que dá uma boa noção do quanto nos divertimos.
 
O cheiro do dia nascendo, os piados da passarada, o "conversê" que vinha da barraca onde estava o bebê - daqueles momentos que a gente guarda nas gavetas mais queridas do coração.


E enquanto estávamos cercados por amigos e pelas crianças (e pelos duzentos gatos que as crianças adotaram), o feriadão passou. Passou enquanto a gente coçava as picadas de mosquitos, tentava tirar a farpa que entrou no dedo, enchia o colchão que secou no meio da noite, lavava a lona da barraca toda suja de lama, lavava a lona da barraca do amigo com mais lama ainda, cuidava do filho de um e de outro, cozinhava com carinho e afeto, elevava a níveis estratosféricos a capacidade humana de se conversar abobrinha, discutia se o louva-a-deus é ou não venenoso, ressuscitava o dialeto do Mussum, compartilhava o prato, a roupa, o pano de chão. 

Passou o feriado e o tio Google me disse que o louva-a-deus, apesar de agressivo, não é venenoso. Já o bichinho do acampamento... quando pica, amigos e leitores, vicia. O antídoto: não resistir.

***

Aos amigos que trocaram o acampamento por momentos em família por razões de amor: vocês estavam com a gente e sabem disso. E, ó, ouvi dizer que os cânions estão ali há milhões de anos e não pretendem sair tão cedo. Que tudo tem seu tempo, né?

6 comentários:

Renata Lins disse...

Que delícia, Rita! Melhor acampamento pra mim é assim: você vai, acampa e eu leio e fico feliz porque você gostou tanto. E ainda vejo suas fotos lindas.
:)
Beijo, querida aventureira!

Rita disse...

Hahahaha! Tinha vinho também, um tanto bom. ;-)

Marina disse...

Amiga, amei! Ler o seu post me deixou desesperada para ir acampar lá (e se Deus quiser e o tempo ajudar, nós vamos!). Que lindo registro, lindas fotos, sensação muito boa! Parece que até acampei com vocês. Parabéns! Beijão.

Rita disse...

Marina, espero que sua experiência por lá seja tão gostosa quanto foi a nossa. Se joga!! :-)

Anônimo disse...

Obrigada, Rita. Em meio a tanto noticiário ruim, é bom relembrar que a vida, a boa, segue aí do nosso lado. Seu post foi um pouquinho de alegria.
Beijos, Felicia

Luiz Campista disse...

Bela acampada e ótimo relato, parabéns. Saudações campistas.

 
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