Espanholas


Sobre dois romances históricos que li agorinha: 
 Joana, a louca, Linda Carlino. Ed. Europa, tradução de Isabel Nunes, e 
Inês de minha alma, Isabel AllendeEd. Bertrand Brasil, tradução de Ernani Ssó.

***

Terminei a leitura de Joana, a louca, e pensei: grazadeus. Andei dizendo por aí que largaria o livro caso ele não me fisgasse até a página trinta, mas era balela. Encarei as quatrocentas páginas na esperança de que o pano de fundo histórico compensasse a narrativa mequetrefe, mas nem isso. O pouco que aprendi sobre a pobre rainha aprisionada não valeu o tanto de suspiros enfadados que soltei nos últimos dias. Enfim, sobrevivi. 

Na real, eu queria era dar uma espiada no "lado de lá". Antes de Joana, li Inês de minha alma, sobre a "conquista" do Chile pelos espanhóis - aí, sim. Ainda que não seja Allende em sua melhor forma, Inês tem savoir faire. Vamos combinar que Allende sabe contar uma história, a danada. Inês pode não ter me seduzido como a escrava Zarité no ótimo Ilha sob o mar, mas Allende, pra mim, ainda tem seu valor

A narrativa em Inês vem na voz de Inês de Suárez, uma das poucas mulheres espanholas cuja participação na invasão das Américas se destacou na História. Enquanto ela dita a carta que escreve à sua filha Isabel, a gente vai cruzando o Atlântico, descendo a mata, ouvindo o espanto do povo que já estava ali, vendo Santiago surgir. Inês conta e a gente conhece o "conquistador" Pedro de Valdivia, sua bravura e ganância, e também sua crueldade. Talvez as cenas de batalhas não sejam o forte de Allende, talvez elas se repitam mais do que eu gostaria (terei eu gastado meu estoque de "leitura de batalhas" em Game of Thrones?? Oh, dear...), não sei. É certo que ficou a sensação de "bom, mas li melhores"; ainda assim, gostei.

Aí veio a pobre Joana. O livro de Linda Carlino me chamou na estante porque sua história se desenrola na mesma época daquela vivida por Inês de Suárez. Tendo acabado de ler sobre os espanhóis que vieram pro lado de cá, quis ler sobre os que comandavam tudo do lado de lá, no mesmo momento histórico. Parecia uma boa ideia, mas foi só um livro ruim. Não por falta de enredo - a história da Rainha de Castela (declarada louca, separada dos filhos, confinada em Tordesilhas por décadas) tem elementos de sobra para um romance daqueles. A narrativa de Carlino, contudo, me desagradou lindamente. Fatos alinhavados, descrições cruas demais, um dramalhão aqui e ali, enfim. Não rolou amor. No fim das contas, acho que ainda saí no lucro: fiquei aqui vibrando por não ter pertencido a nenhuma realeza naqueles tempos nada gloriosos para a imensa maioria das mulheres. Socorro, que esse é mundo é louco faz tempo. Joana só combinava bem com o ambiente, tadinha.

Soubessem uma da vida da outra, talvez ficasse Joana a invejar a liberdade de Inês, enquanto esta, em dias de fome e sede, sonharia com a mesa posta daquela. Vai saber.

2 comentários:

Mi disse...

Estou terminando de ler Inês da Minha Alma, naquelas páginas finais que fico economizando para estender o prazer da leitura. Adorei, quase tanto quanto a envolvente história da Zarité. A coragem de Inês, numa época que mulher não podia ousar ser corajosa, me fala profundo na alma. Ando encantada com Isabel, a Allende, e seu jeito de contar histórias tão profundas e verdadeiras. Já estou matutando a qual próximo Isabel devo me entregar...
bjs,
Mi (Mirtes Aquino)

Rita disse...

Que bom, Mi. Se ainda não leu o autobiográfico Paula, não deixe de ler. Abraços.

 
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