Os Pintassilgos



Talvez - vou dizer "muito provavelmente" - minha relação com O Pintassilgo (Donna Tart, Cia das Letras, tradução de Sara Grünhagen) esteja impregnada com minha viagem de férias no mês passado, uma rápida passagem pela Holanda, um certo namoro com a pintura daquela terra. Quando o livro foi lançado, joguei-o naquela lista meio eterna de livros que "queria ler um dia". Ao planejar a passagem por Haia em meu exercício de ser stalker do Vermeer, e ver que o quadro de Carel Fabritius estaria lá também, decidi fazer as duas viagens ao mesmo tempo. Naturalmente, andar de amores com a pintura holandesa não bastaria para gostar (ou não) do livro, apenas funciona como uma pincelada a mais de, neste caso, alegria.

Apesar do prestigiado prêmio Pulitzer, a crítica aqui e ali não foi nenhuma unanimidade. Como comentei enquanto ia lá a meio caminho em minha leitura, entendo perfeitamente quem torça o nariz para uma história com narrativa tão lenta. Donna Tartt gosta dos detalhes, das minúcias, aprecia a explicação pormenorizada dos eventos. Ninguém entra na sala, simplesmente; os personagens entram em meio a suas sensações mais conflituosas num ambiente que conseguimos visualizar como se estivéssemos nós mesmos diante de um quadro. Longe de me incomodar, no entanto, a tal "narrativa lenta" foi um prazer para mim. Porque se é bem feito, tanto melhor que seja longo, vagaroso, tão lindo. E gostei muito, muito da linguagem desse livro, da escolha de palavras, das imagens que me carregaram para cada ambiente, cada fase da adolescência e juventude do atormentado Theo Decker - e quando digo "escolha de palavras" naturalmente transfiro boa parte de meu elogio à tradutora, já que li o livro em português.

Aula de Anatomia, Rembrandt (em Haia, no Mauritshuis)
O Pintassilgo, começa quando Theo tem 13 anos e mora com sua mãe em Nova Iorque. A caminho de uma reunião na escola, os dois entram no MET para fugir da chuva e dar mais uma olhadinha numa exposição de arte holandesa. A mãe de Theo, há muito fã do quadro de Fabritius - que ela costumava espiar em um livro de arte quando criança -, arrasta o filho para as galerias do museu. E ali, em meio a obras de arte e turistas, sentindo medo de que sua mãe descubra que pode ser suspenso da escola, com fome porque ainda não tomara café, Theo vê uma garota. Vê também o senhor curvado que a acompanha, um avô, talvez? E no burburinho das galerias logo a perde de vista, enquanto a mãe se afasta para dar mais uma olhadela naquele Rembrandt que também figurava no mesmo livro da infância, Aula de Anatomia, "volto num segundo". E num segundo, daquele jeito que a vida tantas vezes nos sacode e ri de nossos "enormes" problemas, o rumo de Theo muda sem volta, sem arrego, sem piedade. Uma explosão no museu, sua mãe morta - essa informação está na orelha do livro, então não vamos classificá-la como spoiler, right?

A partir daí, a jornada de órfão de Theo (o pai abandonara a família tempos antes) será emoldurada pela ausência dolorida da mãe e pela presença do quadro de Carel Fabritius que, atendendo ao pedido do senhor curvado e moribundo, ele retira do museu num momento em que ainda acredita que reencontrará a mãe viva. E então Donna Tartt nos carrega com sensibilidade, ainda que com certa crueza, pelos dias que virão. E veremos como o senhor curvado o guia de volta à garota, a um mundo onde o antigo se refaz, onde artistas e artesãos há muito mortos ainda nos dizem muito sobre quem somos ou podemos ser.

O título do livro carrega em si o mesmo golpe de vista que o quadro holandês do século XVII: o pássaro preso por uma corrente em seu destino inescapável é também a imagem de Theo, cativo de sua enorme perda. O pássaro solitário de Fabritius que, visto de certo ângulo parece quase saltar da tela, quando visto de perto revela suas pinceladas grossas, a tinta, a ilusão. Assim é Theo em suas tentativas de tomar controle de sua vida enquanto se agarra de novo e de novo àquela tarde no museu.

O Pintassilgo, C. Fabritius (em Haia, no Mauritshuis)
- as luzes verdes na moldura são reflexo da iluminação
da sala do museu.
"Tirá-la, manuseá-la, olhar para ela, não era nada a ser feito despreocupadamente. Até no ato de estender a mão para pegá-la havia uma sensação de expansão, um flutuar e erguer-se; e em um estranho momento, depois de já a ter olhado por tempo o bastante, os olhos secos do ar do deserto refrigerado, todo o espaço entre mim e ela parecia desaparecer, de modo que quando eu erguia os olhos era a pintura e não eu que era real. (...) Às vezes eu prestava atenção na corrente do tornozelo do pintassilgo, ou pensava em como aquela era uma vida cruel para uma criaturinha viva - esvoaçando brevemente, sempre forçado a pousar no mesmo lugar desesperador." (p. 282-283)



Na década que se segue à explosão, Theo se deslocará entre o universo que lhe foi revelado pelo "avô" da garota e a casa da família do amigo abastado que lhe acolhe, entre a Las Vegas do pai ressurgido (o passado sempre ali na esquina) e a do "não muito limpo" amigo Boris, entre a Nova Iorque reencontrada e, quase naturalmente, Amsterdã. Em cada um desses meios, Theo transita com sua solidão, seus sustos e apegos, as sombras de "sua" pintura, suas próprias sombras. Quando a adolescência passa, o jovem Theo é ainda inexoravelmente o resultado daquela explosão no museu. Talvez o final do livro, com um toque extra de reviravoltas, agrade mais aos que porventura reclamem do passo mais lento ao longo do livro. Quanto a mim, agarrei-me ao desfecho da escrita, mais do que do enredo. Donna encerra o livro com algumas páginas destinadas ao olhar para a arte como o olhar para o mundo, o tempo, a vida. Em uma entrevista dada em Londres, ela escolhe justamente parte desse final para ler para o público (contém spoilers - não o trecho lido, mas a entrevista), talvez porque ali esteja mesmo o conjunto de cores que compõem a jornada de Theo. É a voz dele que nos conta tudo em primeira pessoa, revisitando sua história "na borda policromada entre a verdade e não verdade", como normalmente fazemos quando espiamos o passado.  Gostei tanto. 


"E, por mais que eu gostasse de acreditar que há uma verdade para além da ilusão, passei a acreditar que não há nenhuma verdade para além da ilusão. Porque, entre "realidade", de um lado, e o ponto onde a mente toca a realidade, de outro, há uma zona intermediária, uma borda de arco-íris onde a beleza ganha vida, onde duas superfícies muito diferentes se misturam e se confundem, para suprir o que a vida não oferece; e esse é o espaço onde toda arte existe, e toda mágica. E - eu também acrescentaria - todo amor." (p. 718)

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