Amsterdã - de cinzas e amarelos


Há tempos queria vir a Amsterdã com Ulisses e as crianças. Conheci a cidade há muitos anos e por pouco tempo. Apesar da passagem rápida, gostei tanto que anotei que voltaria. De lá pra cá as razões para visitar a Holanda se multiplicaram, e tudo que eu vi quis ver novamente porque saberia que, de certa forma, seria uma nova primeira vez.

Anos atrás, Amsterdã me parecia uma cidade moderna, descolada, com uns museus bacanas, bicicletas nas ruas e gente comendo batata com maionese. Agora, para além dos ares de cidade bem resolvida, olho e vejo ainda com mais carinho a velhice de seus prédios de tijolos aparentes e canais gelados. Os ciclistas continuam por toda parte, aparentemente indiferentes às baixíssimas temperaturas, e as ruas planas ao longo dos canais são um convite a longas e despreocupadas caminhadas. Os planos para voltar não me abandonarão, porque agora quero pedalar na primavera com as crianças e o Ulisses pelos arredores da cidade. Mas sem dúvida são os museus que mais do que tudo me fazem querer estar aqui - e, of course, são um programa bem decente em temperaturas beirando as negativas. Então lá vamos nós.


Dois livros que li em 2015 iniciaram a viagem pra mim: o Diário de Anne Frank e o Cartas a Théo. Começamos pela Casa de Anne Frank, em dia de fila rápida e tranquila (não conseguimos os ingressos online). Ter lido o Diário há tão pouco tempo temperou a experiência com doses extras de emoção. Não que seja necessário ter lido o livro para apreciar a casa - não é -, mas não há dúvida que cada cantinho do anexo secreto nos faz pensar nos tantos planos que ela registrou em seus escritos. Os habitantes do esconderijo têm personalidade e traços nítidos para os leitores do diário; têm manias, e sabemos quem Anne apreciava e quem gostaria de ter longe dela; sabemos que era uma garota interessante, inteligente e cheia de energia, tinha certo gênio forte e um olhar bem crítico sobre o comportamento de alguns moradores da casa; sabemos das birras com a mãe, da rotina cheia de ansiedade daquelas pessoas naqueles dois anos. Então cada quarto do anexo pesou em meu peito, porque eram os metros quadrados onde Anne viveu aquela experiência tão absurda em sua curta vida. Chorei o tempo inteiro, praticamente.


A casa convertida em museu permite uma visita tranquila. A fila na entrada é normalmente longa justamente porque evita-se lotação demasiada, então é perfeitamente possível avançar pelos cômodos com tranquilidade, sem muvuca. À medida que nos aproximamos do fundo do prédio, vamos relembrando os horrores do holocausto (na medida em que você quiser ver, não é necessário se prender em nenhuma passagem que o visitante considere mais pesada) e obviamente pensamos no fim que tiveram quase todas as oito pessoas que se esconderam ali, com exceção do pai de Anne, Otto Frank. Depois de passar pelos cômodos abertos ao público (não é possível visitar o sótão), várias galerias contêm reproduções de páginas do diário, fotografias de Anne e sua família, objetos pessoais (como brinquedos que ela doou antes de se esconder), vídeos com entrevistas e depoimentos, inclusive de Otto Frank. Há ainda registros de quando os moradores do anexo foram transferidos para campos de concentração, listas de judeus mortos na segunda guerra - tudo para que a gente se lembre do quanto podemos ser estúpidos. 

Numa das últimas galerias, estão os contos que Anne escrevia, ao lado de seus exercícios de francês: seus preparativos para a vida de escritora famosa e jornalista que ela achava que teria. Oh, dear. Poor girl. Por fim, o precioso diário. Em caixinha de vidro, apoiado em uma almofada, está lá a joia que ela construiu ao longo de dois anos, deixado para trás quando a polícia nazista os levou para o terrível destino de milhões de outros judeus durante a guerra. Tudo que a secretária de Otto Frank queria quando o recolheu, depois que seus amigos foram levados embora, era devolver o diário a Anne assim que ela fosse liberada, quando a guerra acabasse. Por fim, somente Otto sobreviveu - Anne e sua irmã morreram de tifo no campo de Bergen Belsen - e foi ele quem recebeu os escritos da filha. Não ter lido o diário não me impediu de me impressionar na primeira vez que entrei na casa, mas certamente vi tudo com lupa dessa vez.

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Da casa de Anne para a Casa de Rembrandt, tiramos o dia para visitar uzamigo. ;-) A casa onde Rembrandt morou foi um passeio que se mostrou mais divertido do que conseguimos prever. Esperávamos obras do pintor, mas isso fica para o Rijksmuseum; o que encontramos na casa foi...  a casa. Os móveis, os quadros que ele mantinha na parede (e que negociava, já que além de pintor atuava também na venda de obras de outros artistas), os muitos objetos de arte e outras quinquilharias que ele colecionava, vindos do mundo inteiro (que inclusive o levaram à ruína financeira - Rembrandt era um gastador incorrigível), sua cozinha, seu quarto e, pontos altos da visita, os cômodos onde ele trabalhava. 


Uma demonstração de quase meia hora ensina ao público os segredos da gravura, arte que Rembrandt valorizava tanto quanto a pintura, na mesma sala onde ele imprimia as suas. Amanda e Arthur imprimiram à moda antiga, girando essa geringonça para transferir o desenho da placa de cobre para o papel. No ateliê do artista, sala onde ele pintava quadros que hoje nos arrebatam museus mundo afora, Amanda ajudou a preparar a tinta como se fazia no século XVII (e que ainda pode ser feito hoje, se você não quiser ir ali na lojinha comprar um tubinho ou potinho). 

Força no braço, menina. Amanda mistura óleo de linhaça ao pó de pedra previamente triturada. 


O azul mais lindo extraído da pedra lápis lazuli, trazida do Afeganistão. Um processo químico separa os grãozinhos azuis e apenas quatro por cento da pedra resulta em pigmento para preparo da tinta. 

Há ainda uma sala onde Rembrandt recebia os alunos sortudos para aulas de pintura, fonte de renda importante, mas que não o livrou da quebradeira. Não era mestre em organização, mas pintava direitinho. :-)

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Cartas a Théo é mais do que uma lupa sobre o Museu de Van Gogh. É um amigo que te leva quadro a quadro sussurrando "lembra como ele estava feliz quando pintou esse quadro", "olha, aquele que o deixou tão ansioso". E, especialmente, é o amigo que fica em silêncio enquanto você se emociona diante daqueles jardins de pinceladas incrivelmente coloridas. Difícil saber de nós quatro quem curtiu mais o museu do querido Vincent. Arthur e Amanda se agarraram ao gravadorzinho com informações sobre as obras e subiram, desceram, subiram de novo cada um dos andares do prédio, procurando quadro, misturando cores no aplicativo virtual, buscando detalhes escondidos nas obras. Ulisses e eu nos esbaldamos vagarosamente. Olhamos e lemos tudo. Ao contrário da visita a jato que fiz anos atrás, dessa vez morei no museu sem pressa, relembrando as cartas, descobrindo quadros que eu ainda não conhecia ou dos quais não me lembrava. Conversando com ele através do tempo e de sua obra, como tem de ser.

É evidente que as cartas guardadas por Théo são a fonte principal para a organização das obras ao longo do museu. Recomendo muito a leitura do livro para quem pretende visitar o lugar, mesmo que seja alguém já familiarizado com o trabalho de Van Gogh ou, ao contrário, alguém que vá movido mais por curiosidade do que por apreço ao(s) estilo(s) dele. Garanto que a experiência se torna infinitamente mais rica e recheada de detalhes para quem lê os relatos e devaneios naquelas cartas. Em um cantinho de uma das galerias, podemos ver o antigo baú do tesouro, o armário onde Théo guardava sua correspondência. Há ainda obras de outros artistas contemporâneos de Van Gogh (inclusive um Monet, muito amor) e de artistas que produziram suas obras após a morte do pintor, inspirados por ele e seus quadros. Minha querida amendoeira está lá, os pomares em flor, os poentes mais lindos, os campos infinitos de trigo, os autorretratos mais tocantes, os quadros sombrios dos primeiros anos, os povos do campo que tanto inspiravam Van Gogh. Emocionante, em pinceladas generosas. Imperdível. 

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Sansão em Frankfurt.

As temperaturas variam entre -2 e 5. Como chegamos via Frankfurt com -5 graus, estamos achando tudo muito normal. #not Na maior parte do tempo, um grau, filho único, nosso único grauzinho, congela nossos narizes enquanto a gente se desloca entre um museu e outro ou escolhe um restaurante para encher nossas barrigas sem fundo. Com coragem e determinação tiro as luvas e faço uma ou outra foto, Amanda torce pela neve que ainda não veio e Arthur busca novas técnicas ninja de amarração de cachecol. Os bondes que cortam a cidade pra lá e pra cá são nosso transporte quando queremos ir a algum lugar mais longe, mas na maior parte do tempo fazemos tudo a pé, já que nosso hotel fica na região dos museus.



Do lado de fora do museu de Van Gogh, longe dos azuis e amarelos, os tons são de cinza e marrom - e bem sei que ele também via beleza nesse lado da paleta. A previsão diz que pode nevar. Eu digo que nada precisa melhorar. 



     

2 comentários:

Tina disse...

Ai, que delícia de post, Rita. Quando estive em Amsterdam fomos duas vezes em cada museu. São tão sensacionais. O Rijks, do qual eu não sabia nada, foi uma surpresa tão grande e hoje está no meu top 3. Conheci a cidade na primavera, em uma semana ensolarada, e ainda quero voltar pra ver como fica na neve e visitar de novo a casa dos nossos amigos ;) e a cama do Rembrandt, aquele armariozinho? hahahah

Rita disse...

Ai, Tina, acabei de publicar post sobre o Rijks, também entre meus favoritos. Nossa, tudo pra ser visitar mais de uma vez, certamente. Cidade maravilhosa, Ulisses está com saudades (estamos em Berlim). Tudo, tudo de bom nossa passagem por Amsterdam.

 
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