"É muito melhor esquecer e sorrir"


A Grande Guerra pela Civilização, de Robert Fisk (Editora Planeta, trad. Sandra Martha Dolinsky), me atropelou quando o li no ano passado. São 24 capítulos sobre conflitos internacionais que Fisk cobriu como jornalista ou sobre os quais pesquisou com esmero ao longo de décadas. Os relatos muitíssimo bem documentados são construídos a partir de entrevistas, incursões em campos de guerra durante o desenrolar dos conflitos (como no Afeganistão ou Palestina, por exemplo) ou de investigações longas e profundas sobre tragédias mais antigas (como o genocídio armênio, que ele chama de primeiro holocausto). Por ser escrito a partir do testemunho próprio e por narrar os procedimentos das pesquisas, o livro de Fisk é também um livro de memórias. E talvez por isso seja tão valioso: o olhar do autor não é apenas jornalístico, é antes humano, perplexo.

Chamo esse livro de pequeno curso de História, e é também certamente um minicurso de jornalismo. Fisk se esmera em trazer à tona tantas narrativas conflitantes quanto seja possível, nenhum relato é maniqueísta. O jornalista solidário com o povo invadido é o mesmo que arrisca a vida para tentar retratar a crueldade das retaliações. Seu rol de entrevistados inclui gente como Arafat, Bin Laden e outros líderes, religiosos, déspotas, soldados, generais, políticos, enfermeiros e muitos civis pegos em fogo cruzado - famílias, órfãos, viúvos, sobreviventes da loucura. Fisk chora por todos, e escreve sobre a desolação e a luta pelo poder, pela terra, pela sobrevivência, sobre o ódio e sobre o amor. O livro é um golpe forte em qualquer visão romantizada que talvez tenhamos sobre os valores que empurram a humanidade na linha do tempo. É difícil de ler - não pela teia do texto, nada disso: a escrita fluente e direta de Fisk é didática até; é difícil porque é doloroso. Várias vezes interrompi a leitura, mão na boca, nó no peito, às lágrimas. Não somos um mundo bonito, visto de alguns ângulos, e encarar isso faz do espelho um lugar bem incômodo.

Tenho pensado muito nesse livro nessas semanas por causa de Aleppo. Há um capítulo em A Grande Guerra pela Civilização que, de certa forma, costura todos os outros do livro. No capítulo 19 Fisk não fala exatamente do Irã, do Iraque, dos EUA ou dos EAU, nem da Palestina ou de Israel, ou da Argélia, nem de Sabra e Chatila. Ele fala do mercado internacional de armamentos de guerra, um capítulo fruto de anos de pesquisas sobre o comércio de armas no Oriente Médio. Acho que nenhuma guerra civil ou internacional se explica por um ou dois fatores apenas. Então o mercado de armas certamente não basta para explicá-los, tampouco. Mas ajuda a entender o mundo em que vivemos. E, infelizmente, talvez ajude a responder uma pergunta que tenho visto se repetir nas redes sociais nesses dias: como a "comunidade internacional" pode permitir que a guerra na Síria chegue a esse ponto? Eu não sei o que é a "comunidade internacional" exatamente, mas desconfio que o capítulo 19 do livro do Fisk tenha uma ou duas linhas a acrescentar nessa conversa. A Grande Guerra pela Civilização foi lançado em 2005, mas, de certa forma, ele é sobre a Síria também, nem que seja porque nos ajuda a fugir das narrativas mais fáceis e ingênuas.

"Que linguagem pode abarcar a ciência, a morte e os ganhos de capital em tal escala?"

Voltei ao livro agora para esse post e vou revendo pequenas passagens que destaquei. A linguagem de Fisk é por vezes implacável, em outros momentos tão terna. É pouco provável que seus leitores fiquem imunes aos relatos feitos de dentro dos hospitais infantis iraquianos depois da última invasão estadunidense, assim como ninguém lê o que ele nos conta sobre as prisões de Saddam sem se chocar. Muita coisa ainda será escrita sobre a guerra na Síria, uma história que parece não ter mocinhos, só bandidos e vítimas. Terei sempre muito respeito pelos relatos que o Fisk porventura fizer desse capítulo horroroso de nosso tempo.

***

O título do post é de um poema que emociona Fisk e com o qual ele encerra seu incrível livro. Chama-se "Birthday", de Christina Rossetti. Fisk tem um coluna no jornal inglês Independent (na seção Voices) e tem escrito por lá sobre o conflito na Síria.

De Troia a Roma - Eneida


Diz o mito que quando Troia ardeu em chamas e virou cinzas Eneias reuniu troianos sobreviventes e viajou rumo ao Ocidente para fundar na Itália as bases de Roma, a "Troia renascida". As façanhas de Eneias durante a travessia dos mares ao sul da Itália e costa siciliana, o malfadado amor de Dido - rainha de Cartago - a descida ao Inferno, a luta pela posse da terra dos latinos e, claro, as muitas interferências dos deuses do Olimpo na peleja são o tema dos 9.826 versos do Poema Eneida, de Virgilio. É ler e reconhecer pegadas de tantos que seguiram o poeta. Pra mim, foi ler e reencontrar os mitos da infância via Lobato, e ver um pouco mais de perto a origem de lemas e lendas que relemos mil vezes espalhados pela literatura ocidental. Um pequeno deleite nesses dias em que as guerras e os deuses são outros, mas a humanidade segue oscilando caprichosamente entre a beleza e o terror. Li a tradução de Carlos Alberto Nunes, na edição caprichadíssima da Editora 34, com notas (sempre bem vindas) organização e apresentação de João Angelo Oliva Neto.

O poema Eneida é composto por doze livros (ou capítulos, se quiser). Pode-se dizer que os seis primeiros se assemelham em atmosfera à Odisseia, voltados para a longa viagem desde a Troia destruída até a terra dos latinos. A segunda metade foca na matança propriamente dita (e aqui, claro, a referência é a Ilíada). Portanto Eneida tem de tudo: aventuras, amores, ninfas, deuses intrometidos; e tem também batalhas (incluindo o famoso episódio do cavalo de Troia, narrado por Eneias a Dido quando ele relembra o massacre de que escapou, um dos livros mais legais do poema), cabeças espetadas como troféus, herói invadindo a terra alheia (pra gente ter mixed feelings pelo herói), duelos sanguinolentos, tudo narrado de mãos dadas com as musas - "Como? Falas em vivo escapar, quando vejo que te enfeitaste com as armas dos meus?". Porque, claro, no meio de tudo está a poesia. 

Tudo é trágico, grande, dramático, mexicano, exagerado. Todos os deuses são mais humanos do que eu e você, todos os humanos são capazes das façanhas mais inimagináveis, tudo é absurdo e, para mim, absolutamente sedutor. Não sei quanto a vocês, mas nos anos 80 aquele volume d'Os Dozes Trabalhos de Hércules, do Lobato, me levou para o Olimpo e eu nunca mais voltei (vou lendo Virgilio e pensando em como a Emília xingava Juno). Adoro os dramões. E as explicações de Virgílio para o surgimento e ascensão de Roma podem nem ser exatamente factíveis (não acredito muito que Apolo guiava as lanças...), mas sem dúvida são as mais legais. 

A edição que li é bilíngue, mas meu latim, cof cof... Limitei-me à lindeza da tradução de Nunes. Farei o caminho inverso e só daqui a pouco vou ler a Ilíada. Quem liga? Um clássico é um clássico é um clássico etc. 

Seis anos


Ontem vi A Chegada, um filme terno que me emocionou muito, que me fez chorar por causa da beleza. Há muito o que se dizer sobre ele, eu poderia passar horas conversando sobre, é um daqueles que a gente revê ao longo da vida e fala sempre ah, esse filme. Boa, a sensação de reencontro com a arte, sempre é. Pra mim, foi assim. Mas foi também outra coisa.

Olha aí o dia 09 outra vez. Fala-se sobre muitas coisas interessantes em Chegada - tempo, construção de sentido, linguagem, alteridade. Mas esse não é um post sobre o filme. Então eu queria só dizer que em certo momento a protagonista faz uma escolha. Há várias maneiras de a gente ler essa escolha. Uma delas é vê-la como uma opção pela presença do outro em nossas vidas, mesmo que isso implique, talvez, dor. Eu queria dizer, mãe, que eu continuo escolhendo isso também. Eu brinco de dobrar o tempo e sua mão fica bem pertinho. Claro que dói às vezes, mas só eu sei como é ouvir meu nome em sua voz. Nem que seja quase. I embrace it. Seis anos, um cisco no tempo do mundo. Mas imagina o tanto que poderíamos ter conversado nesse intervalo. Hoje seria sobre Chegada. E eu diria: ah, mãe, tem uma cena tão linda em que ela entende o que a filha dela é. E você diria algo como: eu sei o que uma filha é, ora. E eu diria: eu sei que sabe. E a gente ia rir e falar do clima. Ou do tempo e da distância. E eu ia voltar a falar do filme e você ia dizer que me amava dobrando o espaço e me tocando como agora dobro o tempo e abraço você.

Que saudade das nossas conversas, Dona Berna. 

Ithaca Road


Em 2013 a Cia das Letras enviou alguns autores brasileiros a cidades de vários continentes para que ambientassem romances nesses lugares. O projeto Amores Expressos enviou escritores para Lisboa, Paris, Cidade do México, Praga e outras beldades geográficas. Depois de acaloradas discussões sobre financiamento, que, segundo li, acabou bancado pela editora e pelo produtor Rodrigo Teixeira, o projeto seguiu. Não sem percalços. Houve desistências e pelo menos um lançamento acabou saindo por outra editora, e nem todos escritores envolvidos conseguiram concluir suas obras no tempo previsto. Alguns romances foram rejeitados pela Companhia. Lendo por aí, encontrei referências sobre as dificuldades de se escrever sob encomenda, e bem imagino o quanto a pressão de tempo e tema desafiam escritores. Há resumos da maioria das obras neste link, mas não encontrei relatos sobre os demais livros da série, nem sei se de fato foram lançados. Deles li apenas um, Ithaca Road, do escritor gaúcho Paulo Scott. (Scott esteve em Florianópolis recentemente no 6º Festival do Conto em uma oficina relâmpago que acabou se transformando num ótimo bate-papo sobre as delícias e agruras que cercam a escrita.) 

Ithaca Road se passa em Sydney durante poucos dias na vida da protagonista Narelle, garota neozelandesa que vai à capital australiana para administrar temporariamente o bar do irmão. A narrativa é rápida, a linguagem é crua; os diálogos, inseridos no corpo de longos parágrafos, logo nos fazem prestar atenção à conversa. É difícil saber o quanto da "encomenda" do projeto Amores Expressos pesou nas escolhas do autor, mas Ithaca Road apresenta uma Sydney de gente jovem e cosmopolita - dois adjetivos bem casados no imaginário que cerca a cidade mais badalada da Austrália. Mas Scott vai mais fundo, o livro avança e logo a superfície de modernidade se rasga. Então a gente enxerga nas camadas submersas as brechas do sistema e, lá como cá, os remendos nada nobres nas feridas da população nativa em alusões a conflitos raciais tanto na Austrália como na Nova Zelândia. Na trama central que sustenta a narrativa Narelle não demora a se dar conta de que o negócio do irmão está em apuros e que o buraco pode ser bem down under; entre negociações um tanto tensas com a Justiça e relações quebradiças com o namorado (que se encontra no Brasil) e amigos próximos, Narelle conhece Anna. E em meio a diálogos de quem tem pressa em endereços cool, são o silêncio e o olhar da autista Anna que vão guiar Narelle. 

Certo ar de mistério rondando diálogos finais pode tanto agradar quem curte pontas abertas quanto desagradar o leitor que anseia pela mão do autor nas resoluções todas. Mas foi um outro fator que me saltou aos olhos durante a leitura e me fez lembrar o tempo todo da genealogia do livro. Ithaca Road está recheado de indicações geográficas de Sydney. Se o intuito era apresentar a cidade, o livro é quase um mapa. E se, por um lado, me diverti reconhecendo os lugares que visitei em férias com minha família, por outro lamentei o excesso de referências. Lembrou-me algo que experimentei lendo Travessuras da menina má, do peruano Vargas Llosa - era tanta Paris, quase um overdose (soa absurdo, eu sei). Pois bem, Ithaca Road tem Sydney demais, e isso me soa igualmente absurdo - afinal, concordo com "a beleza arrasadora" da cidade; no livro, contudo, tanto nome de rua e praça e praia quebrou um pouco a fluência do bom texto de Scott. Vai ver Sydney e Paris são armadilhas: é tanta beleza que a gente empacota as histórias nos lugares que nos tiram o fôlego.

*** 

(Falando em Ithaca, terra de Ulisses, ando lendo a tradução de Carlos Alberto Nunes para a Eneida, de Virgilio. E, olha, que coisa maravilhosa. Falo disso já já.)

As meninas invisíveis


No prefácio de Por que ler os clássicos  (1991), de Italo Calvino, a pergunta o que é um clássico? é respondida a partir da várias perspectivas, cada resposta corroborando a anterior e a ela acrescentando nova camada. Fiz uma brincadeira e tentei vincular cada uma dessas "camadas" da definição de literatura clássica a autoras cujas obras, em algum momento, me tocaram. (Parafraseei várias definições, simplificando-as muitas vezes; quando copiei as exatas palavras do tradutor Nilton Moulin, usei aspas.)

Clássicos são livros que relemos com frequência - para mim, alguns contos de Katherine Mansfield.

Clássicos são livros que se revelam ainda melhores se lidos quando estamos "prontos" para eles, livres das "distrações" da juventude - bom, eu continuo distraída, mas acho que fiz bem em ler Virginia Woolf recentemente. Não sei se teria gostado tanto de Mrs. Dalloway em minha adolescência, tampouco apreciado a maravilha do(a) protagonista de Orlando.

Clássicos "se ocultam nas dobras da memória", invadem o inconsciente coletivo - Mary Shelley teria algo a dizer aqui.

"Toda releitura de um clássico é uma leitura de descoberta como a primeira" ou "Toda primeira leitura de um clássico é na realidade uma releitura" - acho que aqueles que já memorizaram passagens inteiras de Wuthering Heights, a obra prima de Emily Brontë, concordariam com essa premissa.

"Um clássico é um livro que nunca terminou de dizer aquilo que tinha para dizer" - há vezes em que, mesmo tendo já nos despedido de alguns personagens na última página, eles continuam sussurrando em nossos ouvidos; penso no garoto que encara o desafio do túnel em Through the tunnel, de Doris Lessing. Pensei nele por dias depois de ler sobre essa pequena e delicada aventura de desejo pela maturidade.

"Os clássicos são aqueles livros que chegam até nós trazendo consigo as marcas das leituras que precederam a nossa e atrás de si os traços que deixaram na cultura ou nas culturas que atravessaram" - pensei numa certa Mme. Simone.

Clássicos têm sempre uma nuvem de crítica pairando sobre eles - Woolf, novamente.

"Os clássicos são livros que, quanto mais pensamos conhecer por ouvir dizer, quando são lidos de fato mais se revelam novos, inesperados, inéditos" - todo mundo fala da Sylvia Plath. Mas é só quando a gente silencia e lê que entende por quê.

Child Your clear eye is the one absolutely beautiful thing. I want to fill it with color and ducks, The zoo of the new Whose names you meditate --- April snowdrop, Indian pipe, Little Stalk without wrinkle, Pool in which images Should be grand and classical Not this troublous Wringing of hands, this dark Ceiling without a star.
"Chama-se de clássico um livro que se configura como equivalente do universo, à semelhança dos antigos talismãs" - Calvino não faz qualquer referência à literatura brasileira, mas vou forçar a barra e chamar Ciranda de Pedra, de Lygia F. Telles, de meu livrinho-talismã. Não sei bem o que Calvino quis dizer com "equivalente do universo", então me agarro às sutilezas de uma história que trata de uma menina e alcança muito além dela. 

"O "seu" clássico é aquele que não pode ser-lhe indiferente e que serve para definir a você próprio em relação e talvez em contraste com ele" - penso num reconhecimento. Algo como ler os contos em Laços de Famíla, da Clarice.

"Um clássico é um livro que vem antes de outros clássicos; mas quem leu antes os outros e depois lê aquele, reconhece logo o seu lugar na genealogia" - demorei para ler Karen Blixen; creio que as imagens que ela cria e descreve n'A Fazenda Africana devem ter inspirado dezenas de escritores depois dela. 

"É clássico aquilo que tende a relegar as atualidades à posição de barulho de fundo, mas ao mesmo tempo não pode prescindir desse barulho de fundo" - Ou, como diria Emily Dickinson:

'Hope' is the thing with feathers—

That perches in the soul—

And sings the tune without the words—
And never stops—at all—

And sweetest—in the Gale—is heard—
And sore must be the storm—
That could abash the little Bird
That kept so many warm—

I've heard it in the chillest land—
And on the strangest Sea—
Yet, never, in Extremity,
It asked a crumb—of Me. 


"É clássico aquilo que persiste como rumor mesmo onde predomina a atualidade mais incompatível" - por exemplo, sempre haverá lugar para a fina ironia de Jane Austen, acho eu.

***


Por que ler os clássicos  (1991) reúne ensaios escritos por Italo Calvino entre 1954 e 1985 e publicados anteriormente em outros meios. Alguns são dedicados a um poema, outros a um ou dois contos de um mesmo autor, outros ainda a um breve panorama da obra de alguém, aqui focando em um aspecto comum a várias produções, ali debulhando uma variedade de elementos que ele julgou dignos de nota. Gosto muito desse livrinho. É possível ler os artigos aleatoriamente, claro, como já fiz algumas vezes. Ou, como o fiz agora, passear pelo livro todo como se os artigos fossem partes de uma unidade maior e formassem uma sequência idealizada pelo autor. Fui lendo, sublinhando, anotando: quero ler isso aqui, isso não me interessa etc. 

E verifico que mesmo o livro tendo reunido textos produzidos ao longo de mais de três décadas; mesmo que esses textos abranjam da poesia à prosa em várias modalidades; mesmo que as obras e autores resenhados se situem num intervalo de tempo tão amplo que inclua de Homero a Borges; e, por fim, mesmo que seu olhar afiadíssimo nos faça viajar por diversos países - EUA, Argentina, Espanha, Itália (claro), França, Inglaterra, Rússia; ainda assim, nenhuma escritora foi incluída na compilação.


A seleção de textos foi feita por Esther Calvino, viúva do escritor - Calvino morreu em 1985, seis anos antes da publicação de Por que ler os clássicos.  Não sei se Calvino escreveu artigos ou ensaios sobre escritoras, não incluídos na seleção de Esther. Sei que falar sobre faz diferença, o que chamamos de História se faz assim. Outro dia li que em O Cânone Ocidental, de Bloom, dentre seus 26 "autores fundamentais", apenas três são mulheres. O silenciamento de escritoras em livros como esses escreve uma história da literatura toda feita por homens. Homens, por sinal, que admiro muitíssimo, que me inspiram e ampliam meu mundo. Assim como tantas mulheres. 

Por que ler as mulheres? Pelas mesmas razões que temos para ler os homens. Porque os clássicos que elas produzem estão também enraizados em nossa memória, ampliam nossa visão de mundo, permanecem. Não nos apequenemos sob a ideia de que tudo se resume a gosto pessoal: Calvino não escreveu apenas sobre seus autores "favoritos". Essa é uma das riquezas de seus artigos, às vezes demorando-se sobre um autor não porque goste particularmente de seu estilo ou argumento, mas porque reconhece nele o lugar que ocupa na história da literatura - mas, de novo, essa história é também feita por livros como o de Calvino. Nesse caso em particular, um livro valioso, mas que parece tratar de um mundo onde mulheres não escrevem.

Voltarei a ele muitas vezes, um velho livrinho de boas dicas. Torcendo, contudo, que a crítica literária faça cada vez mais aquilo que os clássicos fazem de melhor: amplie o mundo, olhe para os lados. As meninas não são invisíveis.

De trilhas sonoras confusas e contas erradas


Hoje errei sua idade. Falei que você ia fazer tantos anos, mas eram outros tantos. Depois pensei que a gente nem conta nada. Quando conta, precisa de concentração: quantos anos juntos mesmo? Aí nos lembramos e dizemos algo como "caramba". Eu só reitero: era um sonho bom esse de seguir com você. Então acho que tá certo: em vez de ficar prestando muita atenção na conta, vamos celebrando. Todo dia, uma celebraçãozinha no coração. 

Mas hoje a gente enfatiza. Feliz aniversário, meu amor. Que a gente ainda tenha muitos e muitos anos juntos. Afinal, a discografia dos Beatles é imensa, ainda tem muita música pra você xingar; e aparentemente aquela banda japonesa mequetrefe que você cismou de ouvir nunca mais vai sair do nosso carro, preciso de você pra me ouvir reclamar. 

No mais, te amo sem reservas, um absurdo. Seja feliz, sempre. 



O que escreve quem


Ando relendo os capítulos de Por que ler o clássicos, do Ítalo Calvino (Cia das Letras, tradução de Nilson Moulin). Um livro sobre livros, combustível para aquelas listinhas que mantemos na caderneta dentro da bolsa, naquele arquivo em word chamado "dicas de leitura", ou coisa que o valha. Ou simplesmente um livro sobre palavras, palavras, palavras, como diria Hamlet. Vou passeando pelos capítulos, pequenos recortes de produções literárias em tempos vários e pensando, meu deus, como a gente fala. Que bom, nesse caso.

Passando os olhos pelo índice, vejo que minhas visitas a esse livro anos atrás se limitaram quase sempre aos capítulos que tratavam de livros ou autores que me fossem familiares. Que bom que os livros nos esperam, pacientemente. Bom mesmo tem sido agora, descobrir que posso vir a me interessar por nomes com os quais nunca flertei. A fala clara de Calvino, sem qualquer afetação, nos abre mil janelas tentadoras, quem sabe o que posso encontrar naqueles campos que nunca cogitei pisar? Ovídio, Defoe, Diderot, vou antevendo as conversas.

E nessa de livro que fala de livro, gente que fala de gente que já foi, nos conta Calvino que lá iam Dante e Virgilio por sei lá qual círculo do Inferno quando se depararam com Francesca e Paolo. O casal, condenado à danação eterna por ter se entregue às tentações terrenas, conta que o beijo que os uniu foi inevitável - Paolo teria cedido à tentação depois de ler o beijo entre Guinevere e Lancelote. Catei da estante minha edição mixuruca da Divina Comédia, só pelo prazer de conferir: 

"Líamos um dia - mero passatempo - o relato de como Lancelote resultara vencido pelo amor. Estávamos sós, desarmados de malícia. Por vezes, nossos olhares, encontrando-se, fizeram suspender a leitura e mudar a cor das faces. Um trecho nos fez sucumbir: ao lermos como a ansiante amada fora beijada pelo febril amante, este que de mim jamais se aparta, toda a tremer, beijou-me a boca. Culpado pois, o livro e seu autor - eis que, aquele dia já não lemos mais."


Calvino que fala de Dante que descreve o efeito de Lancelote na história de Francesca. :-) Gosto desse novelo doido de livro escrevendo o mundo.

Só melhora


Dos três lidos até aqui, História de quem foge e de quem fica (Elena Ferrante, Ed. Biblioteca Azul, tradução de Maurício Santana Dias) foi o que mais me deixou aflita. Enriquecido pelo realce do ambiente político que circunda as personagens e pelo engajamento delas nas convulsões sociais da época, além da entrada "oficial" do pensamento feminista na história das meninas, considero o melhor dos três livros. 

É claro que as transições sociais já faziam parte da narrativa da infância e adolescência das meninas nos dois primeiros. Vem daí, inclusive, boa parte da riqueza dos livros de Ferrante, essa leitura e interação das personagens com os conflitos que cercam e às vezes esmagam suas vidas. Mas em História de quem foge a vida adulta as empurra inexoravelmente para o olho do furacão, para dentro da fábrica, as ruas, para o plano político gritando no ouvido. As formas ao mesmo tempo distintas e entrelaçadas como esse outro plano toca e revira a vida das duas protagonistas nos mantém agarradas ao livro. 

E, claro, existe Nino; e toda a rede de personagens secundários transitando em volta das duas, o riquíssimo mosaico criado por Ferrante, cada criança, cada professor, cada amor, cada amigo ou amiga adicionando dor e cor; e ódio. E no meio da tormenta... o que dizer daqueles laços que aparentemente nunca se desfazem? Como olhar a maternidade nessa muvuca? Mas e aquelas rupturas que vêm como um soco? 

O que será daquele bairro no quarto livro? Que forma terá o mundo delas? Oh, dear. 

O misterioso caso dos títulos esquecidos



Meu filho de 11 anos descobriu uma brincadeira boa da qual fui adepta durante um tempo em minha adolescência: seguir os passos de Hercule Poirot. Nunca descobrir o assassino antes da revelação final, aprender uma ou outra expressão em français, interpretar pistas da forma mais equivocada possível, chamar tia Agatha de "dama do crime" - the whole package. 

Eu indicaria todos que li décadas atrás, se me lembrasse dos nomes. Tento resgatar os títulos do fundo de alguma gaveta da memória - Morte no Nilo? Alguma coisa na Mesopotâmia? - mas em minha lembrança ficou mais a sensação de prazer que eu tinha com aqueles livros do que o título das histórias. 

O primeiro que indiquei - e desse me lembrava - foi Assassinato no Expresso Oriente. Devorou e adorou. Devidamente fisgado, leu O Natal de Poirot. Sugeri que deixasse Cai o Pano para depois. Não sugeri Trabalhos de Hércules, porque achei bem ruim; e esgotaram-se os exemplares que tenho em casa.

Antes de correr pra livraria, resolvi consultar os amigos do Face e vou guardar aqui a lista de sugestões dos favoritos. Fiquem à vontade para pitacar, a casa agradece. Nem todos são exatamente indicáveis para alguém com 11 anos, talvez role uma triagem básica, ou não. Veremos. Segue a lista pra facilitar a vida.


O caso dos dez negrinhos (ou E não restou nenhum; líder absoluto nos comentários entre meus amigos no Face)

Um gato entre os pombos

Punição para a inocência

O assassinato de Roger Ackroyd

Os elefantes não esquecem

O caso do pudim de Natal

Treze à mesa

Morte no Nilo

Convite para um homicídio

A casa torta

O misterioso caso de Styles

Morte na praia

O mistério do trem azul

Tragédia em três atos

:-)
Thanks.

Camping na casa do Saci


Os dois últimos dias de trabalho antes das minhas curtas férias de outubro foram tão cansativos que cogitei desistir do acampamento. Na noite da terça, véspera do feriado do dia 12, tudo que eu queria era uma cadeira, uma almofada e paz. Mas depois de uns trinta minutos de cadeira, almofada e paz, liguei pra amiga e fiz um bolo. Aí tirei umas comidinhas do armário, olhei para o "kit camping", falei vumbora e arrumei as mochilas. A previsão do tempo era louca e desisti de me preocupar com ela; na dúvida, peguei casacos e biquinis, galochas e chinelos, protetor solar e sombrinha. Na manhã da quarta-feira prendemos as bikes no carro e pegamos a estrada.

A loucura da previsão se confirmou com chuva, ventania, frio, lua, sol e calor. A decisão de ir se mostrou acertadíssima. 

As bikes



As crianças (quatro no primeiro dia, onze no último) passaram praticamente todo o tempo montadas nas bicicletas. Descobriram (ou inventaram) uma casa mal assombrada para onde pedalavam animadas e encarnavam o espírito stranger things. Precisaram ser proibidas pela administradora do camping de invadir a tal casa (onde já se viu, tia, deixa eles...), detalhe. No frio ou no calor, de dia ou de noite, elas foram de bike.





A luneta

Estávamos pensando na sorte que temos com a lua: parece que ela resolve ficar cheia quando decidimos acampar. Graças a Amanda, agora temos um motivo a mais para celebrar essa sorte. Sua luneta entrou oficialmente para a tralha do camping. Como se já não bastasse tomar um vinhozinho ao ar livre vendo a lindona lá em cima, agora curtimos suas crateras "de pertinho". Brinquedão de todos nós.


  


As trilhas

Dessa vez trocamos a praia por trilhas. Bem, as trilhas levam à praia, mas curtimos mais a caminhada do que o destino. Queríamos meio do mato. E pensar que cogitei não ir.
 
Partiu.
Chegou.

 


A cara de quem sabe que acertou no passeio.
O prêmio.
No dia seguinte à primeira trilha, o grupo ficou maior e decidimos repetir a dose. Fomos pela mata, mas voltamos pela encosta.

Partiu de novo.
A praia toda nossa outra vez.
O visual da volta.

 



Os bichos

Nos dois dias de caminhadas, cachorros nos seguiram. Como guia cuidadoso, a figurinha aí da foto não deixava ninguém pra trás. Ele (ela?) e seus amigos receberam muitos nomes das crianças e conquistaram todo mundo. Ninguém ligou pras pulgas.


Um abraço de muito obrigado. Ninguém. ligou. pras. pulgas.
O gavião exibido fez showzinho só pra nós.

 
Naquela árvore abaixo da lona havia um ninho. O dono do ninho entrava e saía indiferente à nossa barulheira. Eu particularmente o achei um vizinho bem simpático, já que a gente conversava até tarde e ele nunca reclamou



Dos outros bichos (barata voadora e mosquitos) não tenho nada muito louvável a dizer. Nem fotinhas, era só o que faltava.

Os sacis


É fato sabido e indiscutível que os sacis nascem e vivem nos bambuzais. A foto aí em cima mostra a entrada de nossa barraca e uma casa de sacis. Na primeira noite do acampamento, este bambuzal e o outro, ao lado da barraca de minha amiga, foram palco de muitas conversas de sacis. Devia estar rolando alguma conferência, uma sacizada bem animada. Foi engraçado ver Amanda no meio da noite sentada no saco de dormir, tentando ver quem cargas d'água estava batendo papo ao lado da barraca àquela hora. Minha amiga, por sua vez, chegou a perguntar várias vezes se a filha estava chamando durante a noite. Algumas pessoas mais incrédulas do grupo tentaram nos convencer de que tudo não passava do barulho da ventania balançando os bambus e causando o range-range. Mas eu e minha amiga sabemos da verdade, eram os sacis. Inclusive, um deles sumiu com o pote de canela.

O andarilho

O camping estava praticamente vazio. Prefiro assim, pra ser bem sincera. Acampar, pra mim, tem mais de refúgio do que de festa. Gosto do sossego. Dessa vez, tínhamos por companhia apenas um outro campista solitário, o Rafael. Aproximou-se do grupo ali pela churrasqueira, no espaço comum onde preparávamos as refeições. Sua barraca minúscula, armada a muitos metros das nossas, já havia chamado a atenção das crianças. Amanda, inclusive, incluiu-a como "ponto de referência" no mapeamento que fez para as andanças dos stranger things kids. Pois bem, conversa vai, conversa vem, Rafael nos conta que aqueles eram os dias iniciais de sua viagem de três anos pela América Latina. Seguirá por aí com a barraca e uma mochila, pegando carona, acampando ou em couchsurfing. Além do amigo que se juntará à jornada em Buenos Aires, vai criando vínculos mais ou menos soltos pelo caminho. Fomos seus primeiros "parceiros" nessa aventura e desejamos que sua viagem seja um sucesso. Ninguém se tocou de fazer uma foto sequer com o Rafael, mas não é difícil reconhecê-lo se vocês o encontrarem por aí: ele é aquele moço com cara de tranquilo, um mochilão desse tamanho, comendo brócolis. Boa sorte, Rafael! Não se esqueça de ligar pra sua mãe de vez em quando.

O fim da festa


Desmontar as barracas, fazer a última refeição em grupo, desamarrar as cordas, dobrar as lonas, recolher as bikes, passar o último café, perder o chinelo, ver a cor das unhas das crianças e falar "jesus...". Existe esse momento nos acampamentos em que a gente se sente... satisfeito. Acho que é isso. 

A gente foi embora, e uma nova tempestade, dizem, rondou a região. Nosso grupo não viu, já estávamos em Floripa. Mas aposto que os sacis conversaram um monte. 

My baby just loves to dance, she's got to dance, she wants to dance...


A megatalentosa professora da Amanda antes de conduzi-la aos bastidores do teatro. 
Azamiga beijoqueiras.

We love to dance, we love to dance, uuuhhuuuuu...

Sentada no escuro da plateia, insisto no modo automático, que evidentemente não dá conta de fotografar corpos em movimento na luz tão específica do teatro, e volto pra casa com imagens borradas. Nada de figuras claras e nítidas, apenas vultos que parecem se mexer e... espera aí. De repente gosto das fotos. Ah, nem reclamo mais. Faz de conta que é como se eu tivesse fotografado até a voz rouca da Zaz cantando outra vez Nous debout, debout, même les pieds dans la boue, on voit les étoiles jusqu'au bout.... Vocês tão leves, tão envolventes, colmeia de meninas bailarinas enchendo aquele palco de luz. Boba eu que não larguei a máquina, assim não teria perdido nem um segundinho. Mas deixa estar, logo vocês estarão lá outra vez. Por ora vou curtir meus borrões de luzinhas, meus retratos apressados. Que são como música, afinal. Soulève, soulève-toi, au-dessus des toits, des ardoises...





  


Parabéns, minha menina. Que negócio divertido esse tal de palco, né? 

Por onde anda o marca-páginas


Notas curtas sobre coisas que andei lendo esses dias.


História do Novo Sobrenome, Elena Ferrante. Ed. Biblioteca Azul (Tradução Maurício S. Dias) - melhor do que o primeiro da tetralogia; para mim, absolutamente envolvente. Vire a página e odeie quem você admira; ou vice-versa, mas não se apegue. Talvez a força dos livros da Ferrante venha muito de personagens muito bem elaborados - o que não significa identificação confortável. É possível admirar e rejeitar a mesma garota, sentir empatia e odiar o recalque ao mesmo tempo. Ver no que se transformaram as crianças Lenu e Lila foi uma atividade das mais prazerosas. Ainda que um pouco dolorida: como é imensa e funda a solidão humana. Como damos conta de crescer? E ainda, como pode um livro sobre duas garotas pobres no interior da Itália do pós-guerra dizer tanto sobre nossas próprias trajetórias de meninas-mulheres crescidas em ambientes e épocas tão distintos? E acho mesmo que esse livro o faz, para além de qualquer clichê sobre "boa literatura": Ferrante mira o local com seu olhar perpicaz e nele projeta outros mundos com linguagem cativante e vigor invejável. Recomendo ler nas férias, porque não dá vontade de largar. Ou leia agora e durma depois. O terceiro será lançado no Brasil em novembro, dizem. Aguardo.

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Pastoral Americana, Philip Roth, Cia das Letras (Trad. Rubens Figueiredo) - meu primeiro Roth, certamente não o último. A saga de um garoto perfeitinho, bonitão, com história familiar de sucesso, o sonho americano em várias camadas. E o soco no estômago vindo do centro desse sonho, a loucura do mundo atropelando até quem se imagina imune e nem se percebe causa - e a problematização mesma da ideia de "causa". Uma história apavorante sobre a (im)possibilidade de diálogo com nossos filhos, sobre o desafio de olhar nos olhos da loucura num mundo todo louco. Na reta final do livro senti certo exagero nos desvios da narrativa, queria logo resoluções, fiquei ansiosa. No mais, livrão. O conforto e a erudição com que Roth transita entre temas absolutamente díspares, mantendo a escrita fluente, quase galopante, é impressionante.



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A Resistência, Julián Fuks, Cia das Letras - procurei uma palavra que pudesse resumir com alguma honestidade minha relação com esse livrinho enquanto o lia. Escolhi cuidado. Fui lendo com cuidado porque assim me pareceu ter sido escrito. Há em A Resistência um tal critério com a escolha das palavras, talvez como quem faz um poema. A maior parte dos capítulos breves são quase estrofes feitas com vagar, ou assim me chegaram. Uma história sobre um irmão, sobre enxergar esse irmão e entender seu silêncio. Tão bonito o tom. Também uma história sobre uma família moldada pela ditadura argentina - no fundo do quadro, as avós da Praça de Maio, os sumidos. Um livro sobre buscas que escolhemos e outras que "esquecemos" na gaveta.


O aniversário mais legal das galáxias


Para comemorar os nove anos de idade, Amanda trocou festa por passeio. Quis aproveitar a data para matar a curiosidade que nasceu alguns meses atrás quando alguns amigos visitaram o museu Catavento em São Paulo. A visita agora seria seu presente, e a embalagem dourada com laço de fita seria um final de semana com a amiga que acabou de se mudar para lá. O aniversário era dela, mas no presente coube mais gente. O resultado? Melhor comemoração de aniversário de que se teve notícias nos últimos milênios em todas as galáxias conhecidas e observáveis. 

Enquanto para Amanda a "viagem de aniversário" trazia a chance de reencontrar a amiga que deixou Floripa, para nós trazia junto a chance de rever os pais dela, de quem nos despedimos sob protestos na época da mudança. Eles fazem falta por aqui, mas é claro que foi bom vê-los felizes e cheios de entusiasmo na cidade que escolheram para experimentar pelos próximos tempos. A gente perdoa a desfeita de ir morar longe. Enfim, foi um final de semana de muito aconchego.
 
Com essas crianças na foto, vocês não vão reparar nas nossas caras lambidas e sem maquiagem, néam?
Vejo ninfas: é nóis, mano!


O tal Catavento não decepcionou. Amanda era pinto no lixo, Arthur pegou carona, a amiga curtiu junto, e a irmãzinha da amiga matou todo mundo de fofura - bebês felizes e fofuchos salvam o mundo, vamos combinar?

Pinto no lixo
Pinto no lixo no escuro.
O Arthur sabe que o mundo pode ser uma bolha.
Amanda auxiliando no laboratório de química - a parte mais divertida da visita ao museu.
Quarteto de cientistas - se cuida, deGrasse!
Equipe vencedora da batalha de robôs de lego - aniversariante pé quente.
O Catavento foi tão divertido que voltamos a ele no dia seguinte para sessões (e seções) que não conseguimos ver no sábado. Na tarde de domingo, rumamos para a Paulista. E sei nada da cidade, mas que delícia aquela avenida aberta para ciclistas, pedestres, skatistas, bandas, barulheiros em geral. O dia ensolarado parecia mais um presente.
 
Gatinhos na Paulista.
Em frente ao MASP, ainda reforçamos o grito de Fora, Temer! porque sim. E então entramos. Íamos à caça de Portinari. As crianças seguiram brincando por entre as obras - os adultos se renderam à exposição, não parávamos de ganhar presentes.
 
Imagem linda, foto ruim: Meninos soltando pipas

Mulher e criança

Marias
Mulata de vestido branco - a luz dos mestres no vestido. Arrebatador.

Ulisses e Criança morta. Nenhum silêncio dá conta.
 
Retirantes. Há tanto nesse quadro. Impossível não me lembrar das longas reportagens sobre a fome nos anos 80. O quadro é de 1944. A tristeza do mundo é longa.


Crianças brincando em frente ao Crianças brincando.

O lavrador de café.

Cabeça de mulato.

(Detalhe menor: gostei muito da disposição dos quadros, todos em um único salão do museu. É confortável, amigável, fácil de ver. A exposição está aberta até meados de novembro. Detalhe menor ainda: só tiro fotos tortas.) 

***

Em meio a tanta beleza e tanto carinho, minha amiga e eu celebramos a amizade e a sorte, juntamos nossos desejos de alegria, choramingamos nossas desesperanças - nós que nos entendemos tanto. Acima de tudo, festejamos aquilo que nos uniu, a amizade de nossos filhos. Amanda na verdade nos deu de presente esses amigos quando se aproximou da sua amiga na escola. O mínimo que a gente pode fazer pra retribuir é se reunir sempre que der. Pra tomar vinho, cerveja ou café. Pra falar da vida e planejar viagens absurdas. Pra resolver todos os problemas políticos do país. Pra brindar ao fato de que a gente nunca sabe, mas que a caminhada pra tentar aprender faz tudo valer a pena. Obrigada, seus lindos.


A casa deles é assim: um presente cheio de beleza, com promessas de um futuro também cheinho delas. :-)

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Feliz aniversário, Amanda (de novo)! E obrigada por ter nos proporcionado um final de semana inesquecível. Mais um. ;-) Te amamos, gatinha.
 
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