Para 2016: "O conjunto será, portanto, uma sinfonia em azul e amarelo"


Não é bom quando amigos percebem nossos vacilos e gentilmente nos dão aquele empurrãozinho? Algumas vezes me peguei na livraria lendo a contracapa de Cartas a Théo. Nunca comprei, sempre adiei para "depois". Uma amiga percebeu o vacilo e colocou em minhas mãos um exemplar: "leia". Este post é um agradecimento, mais um.

2015 foi um ano de boas leituras. Alguns livros divertidos, como os de Bill Bryson; boa ficção, como os Fante, minha querida Lygia F. Telles ou Mary Ann Shaffer; passeios por áreas diversas da Ciência, como o imperdível Assim Caminhou a Humanidade, uma das leituras mais envolventes do ano pra mim. Li várias e boas biografias - descobri Doris Lessing e Oliver Sacks - e me emocionei com relatos como o Diário de Anne Frank e o dolorido É isto um homem?; me impressionei a cada página do chocante A Grande Guerra pela Civilização, do jornalista Robert Fisk (ave, Fisk). Entre esses e dezenas de outros, é bom me despedir deste dezembro com um livro que guardarei com carinho por seu conteúdo precioso e por ter me revelado tanto sobre alguém tão admirável. 

É bom e fácil, penso eu, gostar das pinturas de Van Gogh, sorrir diante do laranja vibrante, em pinceladas que, de perto, quando quase encostamos nossos narizes na obra, são pouco mais que o resultado de golpes rápidos sobre a tela, mas que nos calam como mágica quando damos dois passos para trás e percebemos a dança de cores. É bom. É quase automático, talvez. Olhar para essas mesmas pinturas depois de conhecer suas cartas será sempre, acredito, uma experiência tão mais intensa quanto foi envolvente ler seus relatos de artista solitário. Cartas a Théo (Ed. L&PM, tradução de Pierre Ruprecht) tem muito mais do que eu supunha, minha amiga estava certa. Reencontrei o senhor da amendoeira, dos mil amarelos de trigo, dos girassóis e ciprestes, do olhar de dor. Descobri o homem para quem a arte era uma espécie de comunhão com a natureza e com a humanidade. Descobri a profunda solidão de alguém cuja sensibilidade foi sua própria desgraça. 

Sabe-se que apenas um quadro de Van Gogh foi vendido enquanto o artista era vivo; o que eu não sabia era que, se pudesse, ele não venderia mesmo nenhum - mesmerizado diante das cores, rejeitava ideais de fama e prestígio, ainda que torcesse pelo reconhecimento de seus contemporâneos impressionistas. Mas era preciso vender, pobre coitado, e assim pagar o generoso auxílio de Théo, evitar os forçados jejuns, comprar telas e cores - para ao menos pintar sem fome. E, acima de tudo, era preciso conviver com a própria loucura. Como alguém que pertence a dois mundos, Van Gogh via mais de si mesmo e da natureza ao seu redor - e isso nem sempre era bom. E em meio ao tormento, deixou-nos centenas de janelas através das quais podemos tentar compartilhar de seu olhar, de sua percepção do que é o mundo, de onde mora a beleza, do que encanta e acolhe e nos torna possíveis, apesar de nossa inexorável solidão. 

Que 2016 nos venha como seu Van Gogh favorito, colorido e vibrante, ou suave e acolhedor, ou ainda alegre e quase dançante. Ou tudo junto, na sua medida, adicionado de suas próprias cores. Que os meses nos brindem com mais arte no mundo, menos ódio e egoísmo - "não há nada de mais realmente artístico que amar as pessoas" (Van Gogh, setembro de 1888). - Feliz ano novo, pessoas queridas!

***

"Seja na figura, seja na paisagem, eu gostaria de exprimir não algo sentimentalmente melancólico, mas uma profunda dor. Em suma, quero chegar ao ponto em que digam de minha obra: este homem sente profundamente, e este homem sente delicadamente." - 1882

"Continuo sempre à procura do azul." - 1883



"...um das coisas mais belas dos pintores de nosso século foi pintar a obscuridade, que apesar de tudo é cor" - 1884-1885



 "...prefiro pintar os olhos dos homens, mais que as catedrais..."
 


"Estou num furor de trabalho, já que as árvores estão em flor e que eu gostaria de fazer um pomar da Provence de uma alegria monstruosa.' - 1888

"Como é belo o amarelo!" - 1888

"E num quadro eu gostaria de dizer algo consolador como uma música" - 1888

 (1889 - único quadro vendido em vida)

"Fiquei doente no momento em que estava fazendo as flores de amendoeira. Se eu tivesse conseguido continuar a trabalhar, você pode deduzir que eu teria outras árvores em flor. Agora, as árvores em flor já quase acabaram, realmente eu não tenho sorte." - abril, 1890

"Dizem que na pintura não se deve procurar nada, nem nada esperar, além de um bom quadro e uma boa conversa e um bom jantar como felicidade máxima..." - maio de 1890, dois meses antes de tirar a própria vida.
 
 (maio 1890)

 (junho 1890, um mês antes de morrer)
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"E eu me deixarei ir não sem reflexão, mas sem insistir em lamentar coisas que poderiam ter acontecido."



Christmas card


As muitas dores do ano, com suas guerras pequenas e grandes; os muitos mares de lama, simbólicos ou dolorosamente reais; os olhares dos imigrantes; as balas perdidas ou cruelmente direcionadas; nossas perdições, todas elas. Todos os sustos, todas as vezes em que não soubemos o que dizer antes do choro. Para além de tudo isso, ou talvez por causa de tamanho penhasco, quero olhar com atenção para meus filhos brincando. 

E então ver as conquistas do ano, grandes ou minúsculas; ver os sonhos que resgatamos e os novos projetos, loucos e ousados ou mesmo tímidos; cada dia passado às gargalhadas com os amigos, cada brinde; cada passagem comprada, simbólica ou com malas prontas; cada palavra escrita, cada capítulo lido com o coração aos pulos; cada silêncio compartilhado em cumplicidade; cada vez que a receita deu certo, cada novo passinho da Ciência; cada dia em que o amigo conquistou, celebrou, decidiu; cada dia em que o mundo nos revelou um campo dourado aos pés do penhasco.

Para além das celebrações do solstício de inverno transformadas em festa cristã; para além dos ritos, símbolos, versos - eu quero o abraço. Que venha de perto ou em palavras, que venha em minhas saudades, que venha em mensagem ou telefonema, que fique no pensamento, que dance no vento, na rua, em mim. Abraço que nos lembre que não sabemos quase nada, mas que, seja lá qual for o caminho, ele será no mínimo mais divertido se a gente se lembrar de não caminhar sozinho.

Do jeito que for pra você, qualquer que seja o significado do seu natal, que ele seja feliz e grande. Pretextos para desejar um mundo melhor, como não agarrar? 

Feliz natal, queridos. 




"Às vezes parecia que de tanto acreditar..."


Eu nem acreditei quando o moço atendeu o telefone. Em 1992 não havia celulares, o telefone da minha casa no interior do Paraíba era de disco. Cada tentativa de ligação significava girar os sete números na maior velocidade possível (não muito rápido, não tinha como) e torcer muito para não ouvir o famigerado sinal de ocupado do outro lado. Não havia botão de redial. Eu já havia tentado aquela ligação inúmeras vezes, sem muita fé, apenas por teimosia. Vai que o cara da rádio atende. Atendeu. Era minha grande chance. Bastava acertar a resposta e o ingresso seria meu. Eu não sabia a resposta, obviamente, mas resolvi arriscar. Liguei decidida a responder "Marcelo Bonfá", quem sabe teria sorte. Não havia internet, não tinha como "pesquisar no google". O ingresso para o show da Legião Urbana em João Pessoa seria meu se eu acertasse qual dos integrantes da banda era também desenhista. Nunca vou entender porque no último momento decidi mudar a resposta e falar "Renato Russo". A resposta certa era Bonfá. Sem dinheiro para comprar o ingresso, sem autonomia para ir sozinha a João Pessoa, fiquei na vontade. Perdi a única chance de ver de perto a banda favorita dos meus vinte anos.

Anos depois eu soube que no mesmo dia, em João Pessoa, Ulisses ganhou da irmã o ingresso. Nós ainda não nos conhecíamos. Do lado de fora do Espaço Cultural, lugar do show, ele se encontrou com os amigos, mas nenhum deles tinha ingresso. Ninguém tinha grana pra comprar e estavam ali passando vontade enquanto os milhares de sortudos entravam para ver Renato Russo e cia. Ulisses então decidiu vender o único ingresso do grupo e ficar com os amigos do lado de fora, ouvindo dali o que conseguissem. Converteram o valor da venda num garrafão de vinho para brindarem juntos a amizade, a falta de grana e a música que vinha de dentro do caldeirão do show. Um deles botou a garrafa no chão de mau jeito e quebrou a preciosa, o vinho se foi no concreto. Nem Legião, nem vinho, ficaram os amigos. 

Quatro anos depois, Ulisses e eu estávamos juntos, namorando há dois anos, quando Renato Russo morreu. Um amigo nos ligou e nos contou. Fim.

*** 

Então ontem foi incrível. Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá estão em turnê para celebrar os trinta anos de criação da Legião. Na passagem por Florianópolis receberam no palco alguns convidados (a atração mais divulgada era a Paula Toller, mas não foi nem de longe a mais legal) e, com André Frateschi no vocal, deram ao público sortudo um presente tão valioso quanto foi ter nossa juventude embalada por aquelas canções. Ulisses e eu, juntos, vingamos o vinho derramado e a resposta errada na promoção da rádio. E berramos que o amor tem sempre a porta abeeeerta.

De cara já gostei: a faixa etária do público era a dos "órfãos" do Renato. As músicas que tocavam antes do show eram de bandas contemporâneas da Legião, dando o clima. Um casal de amigos, com suas histórias de discos preciosos e lembranças pontuadas pela trilha da banda, compartilhou conosco a emoção de ouvir a mesma guitarra, a mesma bateria, berrou junto em cada música. Aí André Frateschi soltou a voz em Será e a gente viu com alegria que a noite seria muito maior do que esperávamos. Frateschi é incrível no palco, tem uma voz maravilhosa e, principalmente, atitude. Nasceu pro palco e honrou a chance de cantar ao lado de Dado e Bonfá. Foi uma imensa e grata surpresa. 

A banda tocou todo o primeiro disco, de hinos como Ainda é Cedo, Teorema e Geração Coca-Cola, e enlouqueceu o público. Entre uma canção e outra, relembrávamos, como se nunca tivéssemos dito isso antes: "caramba, esse era o primeiro disco, eles eram pirralhos de 19, 20 anos!!" Então vieram os convidados, sempre no vocal. Um moça cujo nome não gravei cantou Dezesseis, do disco Tempestade, lançado quando Renato já estava doente. Em seguida, um ótimo cara do Ceará (preciso descobrir o nome dele) arrasou quarteirões cantando a maravilhosa e indefectível Duas Tribos. A voz da Paula Toller encheu o lugar perguntando Quem inventou o amoooorrr, me explica por favoooor!!. Além de Antes das Seis, cantou também a baladinha delicinha O Mundo Anda Tão Complicado. Quando ela saiu, não lamentei muito. O clima rock & roll voltava a mil com o André Frateschi. A partir daí, os três - André, Dado e Bonfá - se revezaram nos vocais. E foi Bonfá quem puxou Pais e Filhos pra gente se lembrar com mais força porque ama tanto o Renato. 

Um dos "problemas" do show era a sequência de hinos. Era tanta catarse que o entusiasmo foi minando minha garganta. Quando os acordes de Índios começaram, saquei o telefone para gravar pro Arthur, que costuma cantar "nos deram espelhos, e vimos o mundo doeeeeente" aos berros no chuveiro. Para mostrar que não tá de brincadeira, Frateschi conduziu Faroeste Caboclo com energia de vulcão, outro momento sensacional. Ainda houve Tempo Perdido, Por Enquanto (ah, que lindo!!), Quase Sem Querer, Há Tempos, Eu Sei. E outras e outras. Despediram-se ao som de Perfeição

Alguém no meio da galera erguia a capa do vinil do primeiro disco. No fundo do palco, um painel em preto e branco exibia imagens de jornais dos anos 80 e 90, além de letras das canções, talvez na caligrafia do Renato. Entre nós, continuamos lamentando sua morte prematura, mas comentamos que ele nem precisaria ter escrito mais nada. Suas canções ainda refletem nosso país (infelizmente, muitas vezes). Sua poesia nunca morreu e a banda que ele fundou foi para milhares de brasileiros uma das maiores alegrias de minha geração. 

Vinte e três anos depois do vinho derramado, Ulisses e eu finalmente entramos, ingressos na mão, e foi (quase) exatamente como a gente achou que teria sido em 1992. Inesquecível. Um dia quem sabe escrevo um conto em que acerto a resposta e os amigos dele conseguem ingressos. A gente entra no show de João Pessoa, Renato canta Se Fiquei Esperando Meu Amor Passaaaar...  quem sabe. Não que precise. É claro que a gente gostaria muito de ter tido essa chance de novo, mas não é esse um dos poderes da arte? A imortalidade? A gente pensou nele o tempo todo.

Obrigada, Renato. Valeu, meninos. 

Redoma

 
Há dias venho montando minha redoma. É transparente, para que eu ainda possa ver o mundo por onde caminho; espaçosa, para que meus amores caibam nela; e silenciosa, para que eu possa ouvir apenas o passado que eu eleger. Um ritual não exatamente escolhido, mas acolhido com inteireza e entrega. Há dias venho me cercando de você, minha proteção e abrigo. Ainda escrevo assim, na segunda pessoa, como se você pudesse me ouvir, porque gosto do poder das palavras e mantenho assim o canal que inventei pra nós, tão verdadeiro quanto os afagos que vinham de sua voz quando habitávamos juntas o mesmo mundo. É 09 de dezembro outra vez, crio meu refúgio como quem viaja em busca de seu abraço - como nos velhos tempos.
 
Minha amiga e eu falamos de você dia desses. Falávamos de perdas, vida e morte, da beleza do cosmos, do absurdo dos átomos, de como nos percebemos pessoas, das buscas, das flores, do tempo, do que é grande, do que não sabemos. Falamos do amor universal e da unidade. Falávamos, e em tudo cabia você. Falávamos, e a redoma se formava, e cada vez mais eu vinha pra cá, onde estou agora, nesse cantinho de mim que você habita. Aqui, onde você ainda segura minha mão.
 
Penso na idade deste mundo tão velho e me encanto com seus incríveis passos muito lentos rumo a belezas impensáveis. Penso no tempo das montanhas. Penso no pó das estrelas e dos longos ciclos sem fim dos átomos em minhas mãos. Aí penso que nossa passagem é tão breve e que talvez seja por isso que nos perdemos tanto. Então a mágica acontece, e cinco anos sem você parecem um tempo difuso em todo o tempo do mundo: misturo tudo, você viva, você lembrança, você sempre. Que o eterno é o amor que faz, mãe.
 
(Que saudade.)
 

 
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