No meio do mato


Teve mato, correria, caminhada. Laguinho, peixinho, cachorro. Minhocas, cavalo, bola. Carne, canjica, pinhão. Vinho, papo, risadas. Fogueira, bandeirinhas, lua. Pão de queijo com doce de leite e cafezinho. Amigos e criançada. E foi só o primeiro dia. Férias, amore, você promete. 

Azamiga.

Uma flor.

Uma minhoquinha.

Uma lua.

Um sol.

"Quero ela pra mim."

Pocotó.

Pocotó.

A fogueira enorme queimou linda e aqueceu corações e mentes. Em casa limpamos o barro dos sapatos e guardamos nas gavetas legais os retratos desse sábado colorido de junho.  


Teimosia


Pendurei bandeirinhas no meu coração
E fiz meu próprio arraial de saudades.

Maior


Ontem numa mesa de amigas surgiu um papo sobre um aplicativo que calcula que idade aparentamos ter. Entre pizzas e risadas, resolvi ver o que o tal tinha a dizer sobre mim. Com informações colhidas no meu perfil do Facebook, a sentença foi maluca: 23 anos. Vibrei como se isso fosse uma vitória, mas logo avisei que, pera lá, vai que é a idade mental? Seria um consolo para as amigas que tiveram a idade lançada muitos anos à frente no calendário, mas a verdade é que tudo não passava de papo furado, ninguém deu muita bola pro negócio. Hoje, quando me lembrei do tal número 23, pensei: no way, não há o que se comemorar. De qualquer ângulo que se olhe, eu não iria querer voltar. 

Aos 23 anos eu já havia conhecido Ulisses e, com ele, esses pulos no peito com os quais convivo há mais de vinte. No entanto, ainda não havia criado minhas asinhas pequeninas e com elas conhecido lugares e palavras que ampliaram minha visão de mundo para além da minha calçada de maneira tão enriquecedora. Não tinha lido, visto, dançado, traduzido, escrito, vislumbrado tanta coisa. Aos 23 eu certamente era feliz (ou vamos dizer: animada, que definir "ser feliz" costuma dar trabalho), mas se soubesse da missa do futuro um terço, seria mais ansiosa que sorridente - tanta coisa para além do horizonte que eu enxergava dali. Arthur. Amanda. Aos 23 eu não sabia que Chopin tinha tanto poder, nem tinha chorado diante de um Monet. 

Ainda assim, sejamos justos com os 23, eles tinham lá seu charme vindo exatamente do não saber. Das possibilidades aparentemente infinitas, daquela satisfação besta que a juventude às vezes carrega no bolso da calça jeans. É bom que não haja um pódio, então posso olhar para os 23 e acenar daqui, vinte anos depois, e dizer "hey, beleza? já caiu na real?", sem rancores. Agora, se fosse uma competição (e já que o Ulisses veio junto de lá pra cá), eu ergueria no centro do ringue o braço suado e vitorioso desses 43. Eles chegam com mais rugas, tinta no cabelo e mais calos na alma, mas com asas maiores, nem que seja no coração. Que a vida é tão maior que os números que insistimos em dar pra ela.

***

A saudade sorri do canto da sala e diz: ah, Rita, você voltaria, sim. Nem que fosse por um breve momento, para receber o abraço dela. A saudade sabe das coisas. Ao menos brinquemos: faz de conta, mãe, que a gente se fala amanhã.   


Bios pra que te quero


Agora que a autorização prévia para escrever biografias não é mais necessária, será que o Roberto Carlos em Detalhes voltará às livrarias? Depois de ter lido O Réu e o Rei, torço que sim, mesmo que eu não tenha lá muito interesse pelo conteúdo da biografia proibida.

Falando nisso, ando de casinho com livros de não-ficção. Desde que 2015 começou, li, entre diários de viagem, entrevistas e biografias propriamente ditas, oito livros/livrinhos/livrões, e menos que isso em livros de ficção. Sejam livros mais "leves" como  Down Under e One Summer, ambos de Bill Bryson, ou textos tocantes como o Diário de Anne Frank, o fato é que relatos pessoais e históricos têm sido meu cup of tea do momento.


O Diário de Antonio Maria (Ed. Civilização Brasileira) veio na onda de bios indicadas por amigos fãs do gênero e me apresentou o cronista pernambucano - me mostrou sua solidão, essa velha conhecida de todos nós, certo? Um diário escrito como tentativa de sinceridade que se interrompe quando o autor percebe que já começou a se pintar mais bonito do que se vê. Tocante e imensamente solitário.

Em seguida me mudei para os EUA do início do século XX (como havia feito recentemente, em One Summer) e dei uma espiada na vida e obra de gente como Frank Sinatra, Mae West, Orson Welles, Hitchcock e o irresistível Fred Astaire, entre muitos outros. Em Saudades do Século 20 (Cia das Letras), Ruy Castro desfila toda sua adoração por esses e outros artistas da época que ele elegeu como uma espécie de Shangri-la das artes. Não precisamos concordar com certos preciosismos (e, cá pra nós, certo pedantismo, mas vai que sou só eu) do Castro para admirar seu texto robusto e cheio de boas histórias. Terminei o livro com uma lista infinita de filmes para ver e me perguntando como cargas d'água ainda não parei pra ver a obra inteira de Billy Wilder (já comecei, by the way).

Aí alguém compartilha o trailler da adaptação para o cinema de A Walk in the Woods e lá vou eu pros braços do Bryson outra vez. Li com mapas do Appalachian Trail abertos, rindo da tentativa de Bryson em cruzar a trilha que corta vários estados da costa leste dos EUA ao longo de aproximadamente 2.200 milhas (mais de 3.500 km). O relato já tem quase vinte anos, mas já estão lá a escrita leve e minuciosa, o detalhamento histórico e as curiosidades científicas que fazem das descrições do autor relatos tão ricos, como aconteceria quase dez anos depois no maravilhoso Breve História de Quase Tudo. O filme traz Robert Redford como Bill e Emma Thompson como sua esposa, além de Nick Nolte como Katz, o companheiro de Bill na empreitada floresta adentro. A ver.

Enquanto o filme não estreia por aqui, abandonei as florestas lá de cima, mudei de continente e voltei pro início do Século XX outra vez. No momento estou na colônia britânica da Rodésia do Sul, atual Zimbábue; o ano é 1924 e acompanho a infância da escritora Doris Lessing. O primeiro volume de sua autobiografia, Debaixo da Minha Pele (Cia das Letras, trad. Beth Vieira) começa com referências a seus tataravós no século XIX - e acho tão bacana conseguir traçar assim a linhagem de nossas origens, os pedacinhos do que somos sendo desenhados ao longo dos muitos anos que não testemunhamos - e segue, segundo informa a orelha do livro, até 1949, ano em que ela se muda para Londres. Depois volto aqui para falar de minha impressões; por enquanto, estou devidamente fisgada.

***

Dicas de biografias: muito bem vindas, aqui ou lá no face. ;-)

"De inverno"


A expectativa era de temperaturas baixas, pelo menos nas caminhadas noturnas ou durante as madrugadas. Tomaríamos chocolate quente para aquecer nossos corpos encolhidos de frio, as crianças usariam toucas e luvas, as mantas reforçariam os sacos de dormir. Seria nosso "acampamento de inverno", livre dos mosquitos típicos de verão. A realidade trouxe temperaturas que beiraram os 30 graus no dia mais quente, noites agradáveis, muitos mosquitos e nenhum chocolate quente. Não contávamos com a lua, que já havia estado cheia há dias, mas ela veio todas as noites, deixando antes um tempinho para a gente curtir as estrelas. Ou seja, erramos quase todas as previsões, acertando apenas no que mais importa: foi bom demais, de novo.

Suspeito que esse foi o acampamento de que Amanda se recordará como um marco em sua infância, o final de semana em que se entendeu de vez com sua bicicleta: captou o poder do freio ou da falta dele, percebeu que a árvore não sai da frente, pedalou com força pra vencer as pedrinhas, gritou uhuuuu descendo morrinho. Junto com o irmão e as amigas, pedalou como se não houvesse amanhã, de manhã cedo, ao longo do dia, noite adentro com auxílio de lanternas. Arthur, que na noite anterior ganhou três pontos no supercílio esquerdo por causa de uma trombada na casa do amigo (festa do pijama com pit stop no hospital), não se fez de rogado e também passou boa parte dos quatro dias de camping em cima da bike; torci muito para que eventuais tombos poupassem a recém costurada sobrancelha - tudo certo.

Em casa, na noite do domingo, eu nem sabia como passar pomada em tantas picadas nas pernas da Amanda - se driblava os arranhões ou fingia que a pomada era um hidratante. "Ah, mãe, coisas de acampamento, né?" Pois. As picadas, arranhões e hematomas vão passar; as lembranças desses dias de cafés da manhã tomados na companhia de gralhas azuis, aposto que não. E as cicatrizes mais persistentes serão tatuagens da infância colorida. 


Fujam, tem um bebê nos seguindo!! 

Dose de beleza e fofice do camping: infinita.

Por causa das aranhas, é proibido largar os tênis pelo chão.

Arrasando no slackline.


Marshmallow chamuscado definitivamente não faz minha cabeça, mas eles adoraram o ritual. 
 
Amanda achou melhor uso para a raquete, já que não conseguia mesmo acertar a peteca. Guitar moment.

De dia ou de noite, é hora de brincar.

Mas a noite é perfeita mesmo para "caçar" siris.


Opa, o que é aquela luz vermelha lá no mar? Um navio?

Que nada... 




Foi o acampamento da superação. A bike agora é amiga, não mais desafio. Well done, my girl!

Parceirão! Monta e desmonta barraca, monta e desmonta brinquedo, oferece ajuda, pega junto. Mandou muito bem no slackline, pedalou como nunca, comeu toda gororoba que a gente inventou. E ainda tinha sempre essa carinha aí.

Até o próximo!

Ufa! (exaustas, coitadas)

 
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