Dos dias que a gente leva no peito


Todos os tons de verde que o sol pinta, o vozerio da criançada, as toalhas na grama. Uma... duas tacinhas, cof cof, um café no fim do dia, aquele bolo favorito. Conversê, bem querer, sorvete colorê. Declaro picnic o melhor programa muvuca-família-outonal do pedaço. Ainda mais quando, com o sol quase se despedindo, a Amanda vai lá e, tchan-ans, aprende a andar de bicicleta. Era só um domingo a mais, virou pra sempre.

De olhares apaixonados.

De sorvete escondido no abrigo da churrasqueira enquanto pai e mãe tão lá fora.

Porque sou linda e tenho amigos.

E sou generosa, divido meu bolo.

Um gatinho que vi lá.

Não parece, mas a gente tava tendo uma aula sobre o Van Gogh. Juro.

Charme na pedra.

Quem sabe dá carona.

Quem não sabe tenta. Vai que dá!

Acredita, flor.

Aêê!! (larguei a câmera e fui pro abraço) - Pedalou até a noite cobrir o estacionamento, o clube, o parque. Caiu, levantou, pedalou de novo. Pedalou nos sonhos, pedala nas conversas, canta, ri fácil e saltita. Ah, vida, há dias em que você capricha. 

O Diário de Anne Frank


Talvez Anne Frank seja a vítima mais famosa do Nazismo. Parto do pressuposto de que a história de Anne Frank é tão conhecida que nada do que eu diga aqui vai ser novidade. Ainda assim, se você não leu o Diário, pretende ler e odiaria saber qualquer eventual detalhe além dos largamente divulgados antes de sua leitura, evite este post. 

***

Coisas que aprendi (ou até já tinha lido/ouvido sobre, mas tinha esquecido) lendo a última edição do Diário de Anne Frank publicado pela Editora Record, traduzido por Alves Calado:

- Anne escreveu seus relatos entre 12/06/1942, quando completou 13 anos (o diário foi presente de aniversário), dias antes de se esconder com sua família e mais quatro pessoas, e 1º/08/1944, três dias antes de ser descoberta pela polícia nazista. Foram mais de dois anos escondidos, na Rua Prinsengracht, 263, na Amsterdã ocupada pelos nazistas. Em algum momento de 1944, ela ouviu pelo rádio que um membro do governo holandês (que se encontrava exilado) pretendia recolher testemunhos sobre a guerra e publicá-los depois do conflito, numa tentativa de preservar parte valiosa da narrativa que se formava. Ao ouvir que cartas e diários receberiam especial atenção, ela reescreveu partes de seus textos para melhor adequá-los a leitores externos, omitindo passagens, alterando outras e acrescentando mais algumas baseadas em suas lembranças dos fatos - surgia já aí a versão "b" do Diário. 

- Anne escrevia em forma de cartas a uma amiga imaginária, Kitty. 

- Durante os quase dois anos em que permaneceu escondida Anne escrevia, além do Diário, histórias de ficção que pretendia publicar um dia.

-  Existem algumas versões do Diário: a versão "a", sem os cortes e alterações feitos por Anne; a versão 'b", com as alterações; a versão "c", misto das outras duas em edição feita pelo pai de Anne, Otto Frank, único sobrevivente do grupo e responsável pela primeira publicação do Diário. Sobre a edição "c", o prefácio me diz:

"...omitiram-se várias passagens que tratavam da sexualidade de Anne; na época da primeira publicação do diário, em 1947, não se costumava escrever abertamente sobre sexo, muito menos em livros para jovens. Em respeito aos mortos, Otto Frank também omitiu várias passagens pouco elogiosas sobre sua mulher e os outros moradores do Anexo Secreto. Anne Frank, então com 13 anos quando começou o diário e 15 quando foi forçada a parar, escreveu sem reservas sobre as coisas de que gostava ou não gostava."

Após a morte de Otto, em 1980, e de estudos periciais atestarem a autenticidade dos escritos, o Instituto Estatal Holandês para Documentação da Guerra, em Amsterdã, publicou uma Critical Edition, com as três versões, além de outros documentos sobre a família Frank. Finalmente, a Fundação Anne Frank, herdeira dos direitos autorais de Otto Frank, compilou, por meio do trabalho da escritora/tradutora Mirjam Pressler, todas as versões em um só texto. Foi essa versão ampliada, chamada de "integral" e aprovada pela Fundação Anne Frank, que li agora.

A voz do Diário é de uma adolescente tagarela tentando se adaptar do jeito que dá à sua condição clandestina. Anne transita entre os dias "maravilhosos" e os "terríveis"; ama à tarde a mesma pessoa que odiara pela manhã; considera-se linda e esperta hoje, desinteressante e rabugenta no dia seguinte. Seu texto é quebrado, os assuntos são abandonados e um relato quase interessante sobre possível avanço das tropas inglesas é logo esquecido e substituído por uma lista dos livros que ela leu no último mês. Em seguida, podemos ler tanto uma página sobre a descoberta de sua sexualidade ou sobre os ratos que invadiram o sótão em busca da carne armazenada. Alguns trechos do Diário são mais consistentes na temática, mas é bem comum os temas seguirem os humores da garota de 13 anos que escreve.

O esconderijo é chamado no Diário de Anexo Secreto e é formado pelos fundos e o sótão do prédio onde Otto Frank trabalhou até se esconder. As páginas do Diário estão repletas de descrições sobre os "moradores do Anexo Secreto" e de suas rotinas. Como as oito pessoas do Anexo contavam com a ajuda de alguns poucos amigos (o sócio de Otto e um outro funcionário deles, as secretárias que trabalhavam com eles, o marido de uma delas), tinham acesso a livros e notícias do mundo e da guerra. Contavam com essas pessoas também para receberem a pouca comida com que conseguiam se virar. É interessante observar o volume de leitura do grupo durante os mais de dois anos em que ficaram escondidos. Liam de tudo, estudavam línguas e faziam cursos por correspondência, tudo mediado por Miep Gies e Bep Voskuijl, as duas secretárias que guardaram o diário de Anne depois que a polícia nazista levou o grupo (Miep o entregou a Otto depois que a guerra acabou).

Por mais que algumas descrições no Diário sejam detalhistas, a coisa toda é tão surreal que às vezes é difícil imaginar como conseguiram manter seu segredo por tanto tempo. O prédio em que se escondiam era comercial e se manteve ativo durante aqueles dois anos. Ainda que o sócio de Otto e as secretárias soubessem de tudo, o local era visitado por várias pessoas todos os dias, o que limitava os horários em que o grupo podia se mexer com mais liberdade - ou abrir torneiras e usar a descarga. Era comum ficarem longos períodos parados em absoluto silêncio se havia alguém na parte do prédio mais próxima ao anexo. Além disso, por causa dos vizinhos, as janelas foram cobertas e espiar por uma fresta para ver o sol da primavera era uma aventura arriscada - à qual Anne se entregou diversas vezes. O prédio também foi assaltado algumas vezes - coisa corriqueira na Amsterdã faminta daqueles dias - houve vistorias diversas, sustos de todo tipo, bombardeios na vizinhança.

É bom saber que Anne se apaixonou pelo filho da outra família que dividia o Anexo com os Frank (além dos quatro membros da Família Frank - Anne, pai, mãe e irmã mais velha - havia o Sr. e a Senhora van Daan e seu filho, Peter; o Sr. Dussel, conhecido da família, era o oitavo membro do grupo). Peter van Daan foi para ela fonte de afeto e atenção. Pobre menina. O clichê de que o leitor constrói o livro enquanto o lê se aplica muitíssimo bem aqui. Quanto mais o Holocausto nos toca, tanto mais nos dói ler sobre tantos planos. De tudo que ela escreveu, saber que sonhou com uma carreira, que fez planos para o pós-guerra, que se preocupou como seria sua performance na escola depois de tanto tempo escondida, que rabiscou um futuro enfim, isso me desmontou. Anne acreditou que sairia do esconderijo um dia e estava especialmente esperançosa quinze dias antes de escrever suas últimas páginas - "Finalmente estou otimista. Até que enfim, as coisas vão bem agora! De verdade! Ótimas notícias! Tentaram assassinar Hitler...".

Anne viveu sua puberdade no Anexo Secreto. Lá menstruou pela primeira vez, refletiu por horas sem fim sobre sua relação com seus pais, sobre sua própria identidade; experimentou o primeiro beijo, "metade no lado esquerdo do rosto, metade na orelha"; e se sentiu tantas vezes completamente sozinha.


"Somos tão egoístas que falamos sobre "depois da guerra" e ficamos ansiosos por roupas e sapatos novos, quando deveríamos estar economizando cada centavo para ajudar os outros quando a guerra terminar..."

"Às vezes tenho medo de que meu rosto fique flácido com toda essa tristeza e que minha boca fique caída para sempre nos cantos."

"O sono faz o silêncio e o medo terrível irem embora mais depressa, ajuda a passar o tempo, já que é impossível matá-lo."

"Nós dois olhamos para o céu azul, para o castanheiro nu brilhando de umidade, as gaivotas e outras aves luzindo de prata, enquanto rodopiavam no ar, e ficamos tão comovidos e extasiados que não conseguiríamos falar."

"Eu costumo me sentir mal, mas nunca me desespero. Vejo nossa vida no esconderijo como uma aventura interessante, cheia de perigo e romance, e cada privação é algo divertido a acrescentar no diário. Decidi levar uma vida diferente da de outras garotas, e não me tornar mais tarde uma dona de casa comum."

"Deu para entender, ou estive mais uma vez pulando de um assunto para outro? Não posso evitar, a perspectiva de voltar à escola em outubro está me deixando feliz demais para ser lógica!"

Após o fim do Diário, interrompido em 1º de agosto, o posfácio nos conta sobre o destino de cada um dos oito moradores do Anexo, os campos de concentração para onde foram mandados. Em seu Diário, Anne fez várias referências ao tão esperado momento em que os ingleses os libertariam dos nazistas. O campo de concentração onde ela e sua irmã morreram de tifo, entre fevereiro e março de 1945, seis ou sete meses depois de serem descobertas, foi desativado pelos ingleses... em abril. Meses antes, sua mãe morreu em Auschwitz "de fome e exaustão". Seu querido Peter morreu três dias antes de o campo de concentração onde estava ser libertado, em maio de 1945. Somente Otto viveu para ver a chegada das tropas soviéticas que libertaram Auschwitz. Depois de voltar à Holanda, mudou-se para a Suíça, casou-se com outra sobrevivente das torturas nazistas e dedicou sua vida à divulgação do Diário da filha.

Miep Gies, a secretária que guardou o Diário de Anne, morreu em 2010, pouco antes de completar 101 anos. Com a ajuda de um jornalista, escreveu seu próprio relato daqueles tempos, Anne Frank Remembered, The Story of the Woman Who Helped to Hide the Frank Family

***

"O ponto alto de nossa semana é uma fatia de salsicha de fígado e a geleia no pão sem manteiga. Mas ainda estamos vivos, e na maior parte do tempo isso também tem um gosto bom!" - 3 de abril de 1944

De boa na Lagoa


- Café da manhã na Lagoa?
- Oh, yeah.

Pegue a nova queridinha da casa...


... e corra para azulão lá fora.

Ouça o chamado da galera.



Abram os kites,

vistam suas fantasias e...


tchau, amore.
(O que é um pontinho preto na Lagoa da Conceição?)



No tempo do Charleston


Mais uma vez me engalfinhei com um livro do Bill Bryson. A bola da vez foi One Summer (Ed. Black Swan). Como de costume, encontrei mais do que sequências de eventos. Bryson tem o bom hábito de expandir suas pesquisas a detalhes que normalmente são deixados de fora em narrativas mais quadradas. Talvez more aí parte do tempero que transforma histórias a princípio nem tão sedutoras em relatos no mínimo curiosos e, nos melhores momentos, empolgantes.

Finda a leitura, tenho a sensação renovada de que os livros do Bryson são, com poucas e pequenas ressalvas, um caminho confortável para se conhecer pedaços da História - seja sobre a colonização inglesa na Austrália, descobertas e avanços da Ciência, a evolução das moradias no Reino Unido ou um pequeno recorte da sociedade estadunidense. É neste último terreno que se espalham as páginas de One Summer: 1927, um ano marcante para muitos dos moradores dos Estados Unidos e, por tabela, para parte da humanidade fora de lá também.

Coube muita coisa em 1927 naquele pedaço do mundo: Charles Lindbergh partiu em voo histórico rumo à França, o primeiro a sobrevoar o Atlântico; o mundo do baseball conheceu um astro gigante, um certo Babe Ruth (quem?); as sementes da crise de 1929 foram devidamente plantadas; em tempos de Lei Seca, Al Capone reinava no mundo da galera mais, digamos, animada; as transmissões por rádio bombaram e a TV foi inventada (a partir de um insight de um garoto de 15 anos, seis anos antes); o cinema deixou de ser mudo; para os estadunidenses, especificamente, foi o ano de uma das maiores tragédias naturais de sua história, a cheia do Mississipi, e da explosão em uma escola em Michigan que vitimou dezenas de crianças. Na Literatura, livros lançados por nomes que viriam a ser sagrados disputavam público - e perdiam feio - com obras populares cujos autores hoje ninguém conhece.

Eu passaria bem sem os capítulos dedicados a Babe Ruth, astro do baseball - afinal entendo lhufas do esporte e portanto me faltam componentes emocionais para vibrar com os números supostamente impressionantes de home runs, seja lá o que isso for. Porém nem aí a leitura me pareceu enfadonha. A verdade é que, preciso admitir, sou capaz de comprar um tratado sobre a história da batata-doce, se alguém me disser que foi escrita por Bryson.

Para mim, os melhores atrativos de One Summer estão nas páginas dedicadas a Lindbergh e o primeiro (e incrível) voo sobre o Atlântico pilotando seu "Spirit of Saint Louis" - com notas interessantes sobre sua posterior apreciação pelo Nazismo, elemento que o levaria a perder o status de herói nacional lindamente conquistado no verão de 27. Antes de Lindbergh, muitos tentaram a façanha de sobrevoar o Atlântico: vários perderam a vida ou desapareceram sem deixar pistas de sua localização. "O que a vida quer da gente é coragem", dizia Rosa. Esse povo tinha, sô. 

Igualmente suculentos são os capítulos dedicados à invenção da TV (que incrível a história do garoto Philo Farnsworth, que infelizmente não conseguiu superar a força da RCA e viu sua patente ser atropelada - só esse relato já vale o livro) e ao surgimento do cinema falado. História pra mais de metro. 

Permeando o falatório todo, Bryson mostra como a imprensa cobria os fatos: que histórias vendiam mais jornais e que tom era usado para falar de Al Capone? Que crimes ocupavam as primeiras páginas?

O fôlego de pesquisador de Bryson é mesmo admirável. Ao final do livro, há 30 páginas listando a bibliografia consultada, além de notas sobre as fontes e sugestão de "further reading". O livro é ilustrado com fotografias da época. Na minha favorita, duas mulheres se equilibram no alto de um prédio dançando Charleston, claro. :-) 

Importante


Hoje minha filha de 7 anos me ligou no meio do trabalho para me avisar "uma coisa importante". Acho que ela usou "uma coisa importante" para demarcar com cuidado o domínio da conversa, uma espécie de garantia disfarçada que evitasse algum aviso do tipo "filha, estou trabalhando agora, podemos conversar sobre isso depois". Não dessa vez, já que era "uma coisa importante". Diga lá, flor. 

- Aquele negocinho de botar água e mel tá vazio! E o passarinho veio e não tinha nada pra ele beber, tadinho. Eu queria muito botar mais água lá!

No reino das coisas importantes, nenhuma era mais.

Into the woods


Como decidimos praticamente na última hora, o grupo que aderiu ao acampamento dessa vez foi bem menor do que o de outubro. Todo mundo já tinha um programa de Páscoa na manga ou uma preguiça programada para o domingo. Mesmo entre os meus enfrentei resistência: Amanda ficou preocupada com sua ausência na casa bem no dia da passagem do Coelho. Ulisses alegou que, bem, vamos estar mais perto da floresta. Mas ele não vai saber, insistiu ela. Uai, deixa um aviso, mandou ele. Pronto. Assim foi.


O sábado estava glorioso, uma tarde colorida e quentinha nos recebeu no acampamento. Montamos nossa barraca na maior animação, tomamos posse de uma das churrasqueiras do camping e providenciamos nosso rango. As três crianças do grupo cuidaram de suas vidas e quando a noite caiu, ah, gente, que presente. Eu bem que me lembrava de que teríamos lua cheia, mas a muvuca de bolsas e barracas me fez esquecer que deveríamos ter seguido para a praia no final da tarde para ver a lua surgir imensa no mar. Quando nos demos conta, a noite já estava ali e ela brilhava linda e amarela entre as árvores que nos cercavam.




Catamos as lanternas (quase dispensáveis, o luar iluminava a trilha para a praia) e fomos pra lá. Brincamos de tentar fotografá-la, de perseguir siris e de dizer "uau".


Com as crianças lambuzadas de areia, voltamos para os banhos e mais rango.

A trilha noturna é o que há. :-)

Amanda desenhou cenouras e espalhou cestas em torno da barraca para os ovos que talvez viessem - não sem garantir que Seu Coelho não trocasse uma coisa pela outra.



A madrugada foi animada, com Coelhinho e Fada do Dente - dava para gravar um filme infantil no camping, viu. Quando a manhã chegou, imaginem. Uau, o Coelho veio, levou as cenouras, trouxe ovos e não roubou o cesto. 

Quem chegou junto com a manhã foi a chuva. Abrigados na churrasqueira, tomamos nosso café da manhã e fizemos almoço, enquanto Amanda e nossa amiga fotografavam cogumelos. Aproveitamos a trégua da chuva e desarmamos a barraca, já falando em voltar qualquer dia desses - nossa meta é pelo menos um acampamento sem chuva. Unzinho só. Quem sabe.

Into the woods em busca do cogumelo mais fotogênico. 

    
 
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