Redoma

 
Há dias venho montando minha redoma. É transparente, para que eu ainda possa ver o mundo por onde caminho; espaçosa, para que meus amores caibam nela; e silenciosa, para que eu possa ouvir apenas o passado que eu eleger. Um ritual não exatamente escolhido, mas acolhido com inteireza e entrega. Há dias venho me cercando de você, minha proteção e abrigo. Ainda escrevo assim, na segunda pessoa, como se você pudesse me ouvir, porque gosto do poder das palavras e mantenho assim o canal que inventei pra nós, tão verdadeiro quanto os afagos que vinham de sua voz quando habitávamos juntas o mesmo mundo. É 09 de dezembro outra vez, crio meu refúgio como quem viaja em busca de seu abraço - como nos velhos tempos.
 
Minha amiga e eu falamos de você dia desses. Falávamos de perdas, vida e morte, da beleza do cosmos, do absurdo dos átomos, de como nos percebemos pessoas, das buscas, das flores, do tempo, do que é grande, do que não sabemos. Falamos do amor universal e da unidade. Falávamos, e em tudo cabia você. Falávamos, e a redoma se formava, e cada vez mais eu vinha pra cá, onde estou agora, nesse cantinho de mim que você habita. Aqui, onde você ainda segura minha mão.
 
Penso na idade deste mundo tão velho e me encanto com seus incríveis passos muito lentos rumo a belezas impensáveis. Penso no tempo das montanhas. Penso no pó das estrelas e dos longos ciclos sem fim dos átomos em minhas mãos. Aí penso que nossa passagem é tão breve e que talvez seja por isso que nos perdemos tanto. Então a mágica acontece, e cinco anos sem você parecem um tempo difuso em todo o tempo do mundo: misturo tudo, você viva, você lembrança, você sempre. Que o eterno é o amor que faz, mãe.
 
(Que saudade.)
 


2 comentários:

Luciana Nepomuceno disse...

abraços comovidos, querida

Juliana disse...

Rita, quando foi que o tempo passou tão rápido? 5 anos!

Seus posts sobre a morte da sua mãe me ajudaram tanto, tanto que você nem imagina.

Que post bonito!

 
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